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Mas até esse início, vamos com colete à prova de balas. Não tomamos como certo nenhum cenário. Optamos pela neutralidade e proteção diante do incerto. Não ter mapa algum é melhor do que ter um mapa errado
As semanas têm sido complicadas. Todo dia uma surpresa diferente e, subsequentemente, um recorde na Bolsa. Tais recordes, por sua vez, não são unidirecionais. Cada dia os ativos de risco caminham em uma direção, com uma elevação de amplitude de movimento notável.
Em outra ocasião, neste mesmo espaço, expliquei brevemente o porquê de volatilidade ser algo desejável e que a falta da mesma acaba por acentuar os riscos ao invés de mitigá-los, como o senso comum poderia concluir.
O excesso de movimentos bruscos, contudo, acaba funcionando para deteriorar o grau de assertividade de precificação estipulada a priori, abalando um senso concreto de valor mais tangível e gerando, quase como se em referência circular, cada vez mais instabilidade.
Grosso modo, o excesso de volatilidade também é prejudicial, de modo que Bolsa em momento de volatilidade elevada acabam por desenhar uma rota de desvalorização ao longo dos pregões… Exatamente como temos observado nos dias atuais.
Curiosamente, o motivo deriva também de uma falta de poder de predição por parte dos agentes econômicos. As problemáticas do coronavírus e do choque do petróleo acabaram por criar uma configuração explosiva, de tal sorte que o cenário no futuro é altamente volátil e incerto.
A evolução do grau de incerteza, ponderando inclusive a possibilidade de uma crise de crédito, adicionou muitos riscos difusos à mesa. Tem coisa nova nas equações dos investidores.
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O problema, na verdade, é que boa parte de tais erros não são quantificáveis ex-ante, ou seja, impossível compreender o impacto das coisas no presente momento. Por exemplo, ninguém sabe qual será o efeito de longo prazo de quarentenas nas economias ocidentais, incluindo a dos EUA.
Qual seria o potencial desdobramento das decisões tomadas hoje para conter a disseminação do vírus de Wuhan se estendermos os horizontes ao longo prazo? Aqui, minha pergunta acaba tendo um carinho e atenção especial para as derivadas de segunda e terceira ordem do primeiro grau de impacto.
O efeito de destruição em cadeia pode ser catastrófico.
Ao mesmo tempo, não podemos deixar nos enganar. Ceci n'est pas une pipe. Eu apenas estou evidenciando um dos lados das distribuições de probabilidades de cenários. Do outro lado ainda possuímos diversos fatores positivos para, potencialmente, acreditarmos que a instabilidade geradora do bear market atual é momentânea.
As amplitudes dos movimentos não seriam sinais de desgaste do ciclo ou do modelo econômico, mas, sim, apenas consequência da moderna dinâmica presente dos mercados, com quantidade e velocidade de informação exacerbado. O mercado, querendo ou não, acaba tendo um grau sensato de eficiência informacional em certo momento decisivos.
Resgatei os escritos da obra de René Magritte para a confecção do título desta peça e mais acima no transcorrer do texto em uma tentativa de resgate da arte surrealista, com a qual temos tanto a aprender em momento como este.
Nós, humanos, temos uma tendência insaciável por tentar reduzir o desconhecido ao conhecido, ao classificável, só para nos servir de entorpecente para nossas almas românticas. O homem, aqui no sentido de nossa civilização, é um ser em essência dramática e romântico, que gosta de viver intensamente e ter a sensação de controle.
A própria razão é uma grande emoção, é o desejo de controle, como sempre nos lembra Felipe Miranda, Estrategista-Chefe da Empiricus, ao citar Friedrich Nietzsche.
O surrealismo aceita em si mesmo, entretanto, a noção de complexidade do mundo em que vivemos. Altamente volátil, incerto e impactante. Como nos reforça o Manifesto Surrealista, “a atitude realista é fruto da mediocridade, do ódio, e da presunção rasteira”.
Não podemos nos dar ao luxo de sermos medíocres diante de um mundo convexo. Temos que abraçar nossa essência surrealista e entender que a realidade concreta não necessariamente é o que parece.
Basicamente, então, por mais que o momento seja de apreensão e de muito estresse dos agentes, no longo prazo continuaremos aqui. As grandes correções testemunhadas nos dias que correm acabam por funcionar, com isso, como abertura de janelas de oportunidades.
Note abaixo o S&P 500, índice americano de ações, em seu maior drawdown (queda desde o último topo) desde a crise de 2008. Saímos de um período de baixíssima volatilidade para caminharmos no extremistão de Nassim Taleb, onde os eventos de alto impacto são exuberantemente relevantes. Foi o caso da redução da taxa de juros americana, por exemplo.

Ainda podemos viver permeados pela incerteza e agressividade por parte dos ativos de risco, mas, no longo prazo, temos a chance de estarmos diante de uma grande oportunidade de compra.
É para sair comprando agora?
Claro que não. Ninguém pega uma faca caindo. O Ibovespa, nosso S&P, tem tudo para cair mais um pouco. Existem duas faixas de preços que o investidor deve se tornar mais aberto a compra. Entre os 50 mil e 60 mil pontos. E entre os 90 mil e 100 mil pontos.
Na primeira, o cenário de calamidade atual de aprofunda. No segundo, a precificação de uma crise exacerbou-se e a Bolsa retoma gradualmente seu patamar regular.
Até lá, vamos com colete à prova de balas. Muita proteção clássica, como ouro e dólar, paralelamente a uma exposição reduzida dos ativos de risco em carteira, até a tempestade passar.
Assim, não tomamos como certo nenhum cenário. Optamos pela neutralidade e proteção diante do incerto. Não ter mapa algum é melhor do que ter um mapa errado. Ceci n'est pas une pipe.
Felipe Miranda tenta passar quinzenalmente ideias como esta acima descrita em sua série Palavra do Estrategista, best-seller da Empiricus, a maior casa de publicações financeiras do Brasil. Convido-os a ler nosso conteúdo.
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