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Apesar do rali recente, a bolsa ainda fechou o semestre como o pior investimento do ano; enquanto isso, bitcoin e as proteções clássicas – dólar e ouro – lideram o ranking
Ainda estamos na metade do ano e já tivemos uma quase Terceira Guerra Mundial, incêndios terríveis na Austrália, erupção do Krakatoa, vespas assassinas, uma onda de protestos pelo mundo, nuvens de gafanhotos e areia... e a pandemia global de coronavírus, é claro.
Você já deve estar familiarizado com os memes comparando a situação atual à história bíblica das Dez Pragas do Egito, ou dizendo que só faltam os E.T.s chegarem. De fato 2020 não está sendo fácil.
Mas quando o ano começou, não era essa a visão que a gente tinha. Você ainda lembra? Estávamos preparados para um ano de avanço das reformas estruturais, um início de retomada econômica e, apesar do temor de desaceleração da economia mundial, não tínhamos nenhuma grande recessão ou depressão no radar.
Os maiores riscos que víamos à frente para os investimentos eram os desdobramentos da guerra comercial entre EUA e China - que começou o ano bem, na verdade - e a eleição presidencial americana em novembro. Parece que foi em outra vida, mas é porque vivíamos em outro mundo.
A pandemia global de covid-19 resultou numa crise na economia real que mudou totalmente as nossas expectativas para o restante do ano e impactou diretamente nos investimentos. Apesar de toda a recuperação vista nos últimos meses, ainda estamos longe de nos recuperar do estrago.
Assim, os investimentos campeões do ano ainda são as proteções clássicas em momentos de crise: o dólar subiu 35% e o ouro, 17% em dólar. Correndo por fora, o bitcoin ficou em primeiro lugar, muito beneficiado pelo halving, evento ocorrido em maio que tende a puxar a cotação da criptomoeda para cima ao reduzir a quantidade de novos bitcoins minerados.
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Na lanterna aparecem os ativos de risco. A bolsa ainda é a grande perdedora, com queda de quase 18% no ano. Em seguida, o Tesouro IPCA+ 2045 - título público que mais se valorizou no ano passado - ainda acumula desvalorização de quase 16% no ano. Os fundos imobiliários aparecem em terceiro lugar, com o seu índice IFIX ainda acumulando perda de 12,24%.

Apesar de os primeiros casos de infecção por um novo tipo de coronavírus terem aparecido na China no fim de 2019, foi só no início de 2020 que o surto no gigante asiático começou a chamar atenção.
Mas até aí, ainda não havíamos começado a nos preocupar com a possível disseminação da doença pelo planeta e a consequente paralisação da economia. Em março, porém, fomos impactados pela chegada do vírus ao Ocidente, o que iria obrigar as pessoas e empresas do lado de cá do globo a simplesmente suspenderem a maioria das suas atividades produtivas a fim de combater a sua disseminação.
Em finanças, esse tipo de evento de grande impacto, mas difícil de prever e altamente improvável, é chamado de cisne negro. Dá até para se debater se a pandemia global do novo coronavírus é efetivamente um cisne negro, mas a sua ocorrência exatamente neste momento da história não era lá muito previsível, e certamente não era esperada.
Os investidores que ganharam dinheiro com esse evento miraram no que viram e acertaram no que não viram: estavam se preparando para o fim do mais longo bull market da história americana, olhando para o ciclo econômico e de bolsa, e não exatamente prevendo que uma criatura microscópica iria deixar o mundo de joelhos.
Pois bem, no mês de março, os mercados mundiais passaram por uma verdadeira tempestade. Todos os ativos despencaram, numa busca desenfreada dos investidores por liquidez.
A paralisação da economia jogou por terra todas as expectativas para o resto do ano, e o ineditismo do evento - a última pandemia global aconteceu quando o mundo era muito diferente - deixou o mercado totalmente sem referências para reprecificar os ativos com alguma consistência.
Naquele mês, a bolsa brasileira despencou quase 30%. Depois de ter atingido a sua máxima nominal histórica em janeiro, quando beirou os 120 mil pontos, o Ibovespa voltou para a casa dos 60 mil pontos. O sonho do Ibovespa aos 130 mil pontos parecia ter chegado ao final.
A volatilidade foi tão grande, que o circuit breaker - mecanismo de paralisação das negociações quando os preços das ações caem muito - foi acionado seis vezes no mês, algo inédito na bolsa brasileira.
Mas não foi só a bolsa. O mercado de juros futuros também ficou louco e vimos paralisações nas negociações do Tesouro Direto mais de uma vez. Teve título público se desvalorizando mais de 20% no mês. Quem tinha fundo de renda fixa com crédito privado na carteira viu suas cotas ficarem negativas, o que não é muito comum para esse tipo de ativo.
Já o Índice de Fundos Imobiliários (IFIX) caiu quase 16%. Até o ouro, histórico ativo de proteção, viu uma pequena queda em dólar no mês. O único ativo que subiu em março foi a própria moeda americana, com alta de 16%.
Nos últimos meses, porém, os ativos vêm tentando sair desse atoleiro. É bem verdade que, de uma perspectiva de recuperação econômica no Brasil e desaceleração no mundo, passamos para expectativa de recessão global.
Mas ao menos aquele primeiro momento de pânico passou, e os primeiros sinais de reabertura e retomada em diversas economias importantes vêm animando os investidores.
Só que tem alguns problemas. Primeiro que, no mercado, os preços sobem de escada e descem de elevador. Se o preço de um ativo cai de 100 para 50, ele recuou 50%. Mas para voltar para 100, ele precisa subir 100%. Então, mesmo com toda recuperação vista desde abril, os ativos de risco ainda não conseguiram nem chegar ao zero a zero.
Segundo que, apesar dos sinais de recuperação econômica na China, na Europa e até nos Estados Unidos, a questão do covid-19 não está perto de ser resolvida. Nos EUA, a situação ainda é preocupante. No Brasil, nem se fala. E no resto do mundo, por mais que o cenário tenha melhorado num primeiro momento, há temores quanto à possibilidade de uma segunda onda da doença.
Apesar de pesquisadores do mundo inteiro estarem completamente investidos na busca por tratamentos eficazes e uma vacina, até agora não há nada concreto. Nos deparamos com uma possibilidade cada vez mais real de vivermos um "abre-fecha" da economia por um bom tempo, e isso vai machucar demais o crescimento, sobretudo dos países emergentes.
No Brasil, temos o fator complicador de que já vínhamos de uma recessão da qual nem tínhamos ainda conseguido começar a nos recuperar. Terminamos 2019 otimistas com a possibilidade de passar as reformas estruturais, embalados pela aprovação da reforma da Previdência, mas todas essas discussões foram postas de lado com a chegada da pandemia ao país.
A forma como o presidente Jair Bolsonaro vem lidando com a crise de saúde também lhe custou boa parte da sua popularidade. E seus atritos com Congresso, Judiciário, governadores e seus próprios ministros adicionam um componente de incerteza quanto à capacidade de o governo aprovar tais reformas e manter o ajuste fiscal, sobretudo num momento em que se vê obrigado a aumentar gastos para garantir a sobrevivência das pessoas e empresas em meio à crise. Que será das contas públicas depois que isso tudo passar?
Como se pode notar, os riscos ainda estão elevados, o cenário à frente ainda não é muito claro e as perspectivas também não são das mais otimistas. Mesmo assim, os ativos de risco vêm se recuperando - não sem uma boa dose de volatilidade.
Há outros fatores que explicam isso, para além de "caiu demais" e dos sinais iniciais de retomada. Os governos do mundo inteiro estão dando uma boa dose de estímulo para reanimar as economias, que vêm na forma de pacotes bilionários ou trilionários de concessão de crédito, taxas de juros reduzidas e até mesmo a compra direta de ativos, como Federal Reserve - o banco central americano - vem fazendo.
No Brasil não tem sido diferente, e nossa taxa básica de juros terminou o semestre no seu menor patamar histórico, de apenas 2,25% ao ano.
O resultado disso é uma baita injeção de liquidez na economia que, no mercado financeiro, acaba buscando os ativos de risco, já que a renda fixa mais conservadora não está rendendo nada. E os países emergentes, como o Brasil, surgem aqui como opção de mercados de maior risco.
A compra direta de ativos pelo Fed funciona como uma espécie de garantia de que os investidores encontrarão comprador para esses investimentos mais arriscados. Assim, os preços sobem, ainda que de certa forma descolados da realidade dos fundamentos econômicos.
Ao mesmo tempo, as proteções clássicas, como dólar e ouro, se mantêm num patamar elevado, como uma forma de seguro nesse cenário de tantos riscos. A moeda americana, que começou o ano em R$ 4, chegou a beirar os R$ 6, e agora se recusa a cair muito abaixo de R$ 5, tendo terminado o semestre em R$ 5,44.
A queda dos juros brasileiros também contribuiu para essa valorização da moeda americana - ou melhor, desvalorização do real, neste caso. Com a redução do diferencial de taxas de juros entre Brasil e EUA, os títulos públicos brasileiros se tornam menos atrativos para os investidores gringos, incrementando a nossa dificuldade de atrair dólares pela via financeira.
Esse movimento de queda nos juros, bem como a perspectiva de recessão, jogaram os juros futuros de vencimentos menores para baixo, o que valorizou os títulos prefixados e atrelados à inflação de prazo mais curto.
Os títulos mais longos, porém, sofreram muito com o baque de março, e ainda não conseguiram se recuperar. Além disso, ao longo do semestre, os juros mais longos se viram pressionados pelo aumento do risco-país, diante da perspectiva de recessão e a deterioração das contas públicas.
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