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Puxado por bancos e Petrobras, índice voltou a se descolar de Nova York. Nem apetite global aliviou para o real, que viu a moeda americana se apreciar mais uma vez
Se Galvão Bueno narrasse o dia a dia dos mercados financeiros do Brasil atualmente, é bem possível que utilizasse a expressão "Lá vem ele de novo!" com frequência.
Neste caso, seria em referência ao risco fiscal.
Se você bem se lembra (talvez não queira, afinal é duro falar disso), o grande narrador já mandou um "Lá vêm eles de novo!" — seguido de um "Olha só que absurdo!" — em histórica transmissão de uma partida da seleção brasileira de futebol: ocorreu momentos antes do quinto gol da Alemanha na fatídica semifinal da Copa de 2014.
Hoje não foi um dia de 7 a 1 — nem perto disso, sendo bem honesto. Afinal, o principal índice acionário da B3 fechou em baixa menor que 1%, de 0,75%, aos 98.309,12 pontos, na mínima do dia, em meio a sinais mistos das bolsas americanas.
Inclusive, a semana foi positiva para o principal índice acionário da B3, que marcou alta de 0,85% no período.
Mas a verdade é que, no momento atual do mercado financeiro, o risco fiscal está para uma Alemanha, trazendo repetidas vezes um balde de água fria sobre os investidores, e o mercado está mais para o Brasil, à mercê do último golpe desse adversário difícil de domar.
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Sob os efeitos dessa incerteza, enquanto as bolsas americanas se recuperaram das perdas do ano, o Ibovespa ainda acumula baixa de 15% em 2020.
Hoje, o tema voltou fiscal a pesar no ambiente, com a renovada incerteza sobre o risco de insolvência do país.
A notícia de que dívida do Tesouro Nacional a vencer entre janeiro e abril de 2021 soma R$ 643 bilhões, valor maior que o dobro da média dos últimos cinco anos, equivalente a 15,4% da dívida interna brasileira, segundo o Broadcast, afetou o humor.
Além do mais, ontem o Tesouro colocou apenas 40% do lote ofertado de títulos atrelados à Selic com prazo mais curto, o que alimentou a percepção de crescente risco fiscal.
"Por aqui, pesou tanto na bolsa quanto no câmbio essa dificuldade do Tesouro de rolar a dívida", diz Roberto Padovani, economista do banco BV. "Basicamente é o tema fiscal fazendo com que o nosso desempenho seja pior que o do resto do mundo."
O índice hoje também puxado por algumas empresas de peso em sua composição. As ações ordinárias (ON) e preferenciais (PN) da Petrobras caíram 2,48% e 2,13%, seguindo a queda do preço do contrato de petróleo tipo Brent, barril de referência para a estatal, no mercado internacional.
Enquanto isso, todas as ações de bancos também recuam no índice, contribuindo para o desempenho negativo do Ibovespa hoje.
"É um movimento de realização de alguns papéis relevantes", diz Henrique Esteter, analista de ações da Guide Investimentos. "Petrobras pesa com queda do petróleo."
Em outubro, o Ibovespa registra avanço superior aos 4%.
O fechamento de hoje manteve o Ibovespa no patamar de 98 mil pontos, continuando a remar para tentar voltar ao patamar psicológico de 100 mil. Os repórteres Julia Wiltgen e Ricardo Gozzi discutiram no podcast do Seu Dinheiro os riscos e oportunidades no radar do investidor. É só dar play para conferir.
Braskem e Suzano foram os destaques de alta de hoje. A petroquímica tem visto uma continuidade dos movimentos de recuperação da região degrada no Alagoas e a entrada da empresa em um setor mais tecnológico que tem potencial de trazer produção para o mercado brasileiro, segundo Igor Cavaca, analista da Warren.
"A alta da Suzano está refletindo expectativas do mercado com relação aos resultados financeiros que serão publicados na próxima semana", diz Cavaca. "Temos continuidade de um ambiente favorável para a empresa, com dólar mais depreciado e com a celulose figurando entre os principais produtos exportados."
Confira as principais altas do dia no Ibovespa:
| CÓDIGO | EMPRESA | PREÇO | VARIAÇÃO |
| BRKM5 | Braskem PNA | R$ 22,34 | 5,58% |
| SUZB3 | Suzano ON | R$ 50,59 | 4,61% |
| USIM5 | Usiminas PNA | R$ 11,32 | 4,33% |
| KLBN11 | Klabin units | R$ 25,81 | 3,99% |
| JBSS3 | JBS ON | R$ 23,20 | 3,57% |
Um dos bancões, os papéis do Santander Brasil foram a quinta maior queda percentual de hoje. Nenhuma ação dessas instituições encerrou a sessão com ganhos hoje.
As incertezas sobre a questão fiscal no Brasil, bem como a falta de estímulos nos Estados Unidos e a nova onda de covid-19 na Europa pesaram para essas empresas. "Esses fatores podem enfraquecer as economias e os bancos podem sofrer por um prazo maior do que se estima hoje, principalmente com aumento da inadimplência e consequente impacto negativo sobre seus resultados", diz Paloma Brum, analista da Toro Investimentos.
Enquanto isso, as ações de Cogna e Yduqs, do setor de educação, foram as piores performances do dia, sofrendo pelos riscos de inadimplência e de evasão de alunos diante de aumento do desemprego e queda na renda média das famílias no Brasil e a persistência da covid, diz Brum.
Veja as maiores quedas do dia:
| CÓDIGO | EMPRESA | PREÇO | VARIAÇÃO |
| COGN3 | Cogna ON | R$ 4,83 | -4,17% |
| YDUQ3 | Yduqs ON | R$ 25,81 | -3,30% |
| SANB11 | Santander Brasil units | R$ 30,71 | -3,12% |
| GNDI3 | NotreDame Intermédica ON | R$ 65,03 | -3,04% |
| IRBR3 | IRB Brasil ON | R$ 6,79 | -3,00% |
As bolsas de Nova York abriram em alta, ensaiando recuperação das perdas de ontem, após três dias seguidos de queda.
A notícia de que a farmacêutica Pfizer pode solicitar autorização para uso emergencial da sua vacina contra a covid-19 até o fim de novembro, desde que receba dados de eficácia e segurança de testes em humanos em estágio final, foi um fator que impulsionou a sessão cedo.
Outra boa notícia veio da Boeing, cujas ações saltaram mais de 2,5% depois que a principal agência reguladora da aviação da Europa sugeriu que o 737 Max estará seguro para voar novamente na região antes do final do ano, de acordo com uma entrevista do diretor da agência à Bloomberg.
Os dados de vendas no varejo nos Estados Unidos em setembro também foram outro motor positivo para o apetite ao risco. O dado apresentou alta de 1,9% em relação a agosto. A previsão do mercado era de alta de 0,8%, segundo dados da Bloomberg.
Já os dados de produção industrial decepcionaram. Houve queda de 0,6% em setembro, ante um consenso de mercado de alta de 0,5% — a primeira queda em cinco meses.
As bolsas americanas ampliaram os ganhos após a divulgação do dado de confiança do consumidor nos EUA em outubro. Na leitura preliminar, o índice subiu a 81,2, ante projeção de 80,5.
Eventualmente, no entanto, os principais índices de lá perderam força, e terminaram emitindo sinais mistos. O Dow Jones subiu 0,39%, o S&P 500 ficou muito perto do zero a zero, com avanço de 0,01% e o Nasdaq perdeu 0,36%.
As preocupações que pairam sobre os investidores, aqui e lá fora, e que impedem que o Ibovespa chegue aos 100 mil pontos permanecem basicamente as mesmas: os avanços da segunda onda de covid-19 na Europa e o impasse nas negociações para a aprovação de um novo pacote fiscal nos EUA.
O líder da maioria no Senado, o republicano Mitch McConell, rompeu ontem com a Casa Branca e disse que faria com que a Casa na próxima semana assumisse uma proposta de cerca de US$ 500 bilhões — ou menos de um quarto do tamanho da proposta que os democratas da Câmara apresentaram no início deste mês —, nublando ainda mais o cenário para um eventual acordo.
Depois de operar perto da estabilidade por boa parte da manhã, o dólar à vista se firmou em terreno positivo e encerrou a sessão em alta de 0,34%, a R$ 5,6435.
Na máxima, a divisa americana subiu 0,41%, para R$ 5,6475.
O Dollar Index (DXY), índice que compara o dólar a uma cesta de moedas como euro, libra e iene, no entanto, se desvaloriza 0,18% agora.
"A injeção de estímulos monetários e fiscais faz o dólar se depreciar em relação a outras moedas fortes, mas em comparação ao real o que pesa mais no curto prazo é o risco fiscal doméstico e o ruído político", diz Mauro Morelli, estrategista da Davos Investimentos, escritório filiado à XP Investimentos. "Essa questão do megavencimento pesa aqui."
Por aqui, as preocupações se dão em relação ao risco fiscal, refletindo a dificuldade do Tesouro de rolar a dívida, a indefinição quanto ao Renda Brasil e o futuro do auxílio emergencial. Neste contexto, há o risco de uma elevação de juros, por conta da pressão do mercado sobre as taxas de curto prazo.
A inflação também gera cautela. O mercado teme que a alta de preços no atacado comece a contaminar a inflação ao consumidor, o que também contribuiria para uma elevação de juros.
Mais cedo saiu o Índice Geral de Preços-10 (IGP-10), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), que marcou 3,20% em outubro. O resultado veio acima do teto das estimativas dos analistas ouvidos pelo Broadcast, que esperavam um índice entre 1,72% e 3,02%, com mediana positiva de 2,67%.
Já o Índice de Preços ao Consumidor - Semanal (IPC-S) foi de 1,01%, abaixo da estimativa da Bloomberg, de 1,12%.
Os juros futuros fecharam em alta nesta sexta. Segundo Paulo Nepomuceno, operador de renda fixa da Terra Investimentos, o que está em jogo na curva das taxas futuras é a atual política de juros baixos do Banco Central.
"O pilar dessa política era a ancoragem da inflação e a política fiscal restritiva. Mas ambos os pilares estão sendo questionados", diz ele, em referência ao déficit fiscal primário e a leve alta da inflação.
"Com tudo isso, o mercado quer mais prêmio. É natural esse movimento de alta na curva", afirma Nepomuceno.
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