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Felipe Saturnino

Felipe Saturnino

Graduado em Jornalismo pela USP, passou pelas redações de Bloomberg e Estadão.

jogo duro

Lá vem ele de novo! Risco fiscal traz cautela, faz Ibovespa fechar na mínima e leva dólar a R$ 5,64

Puxado por bancos e Petrobras, índice voltou a se descolar de Nova York. Nem apetite global aliviou para o real, que viu a moeda americana se apreciar mais uma vez

Felipe Saturnino
Felipe Saturnino
16 de outubro de 2020
18:34 - atualizado às 18:37
Selo Mercados FECHAMENTO Ibovespa dólar
Imagem: Montagem Andrei Morais / Shutterstock

Se Galvão Bueno narrasse o dia a dia dos mercados financeiros do Brasil atualmente, é bem possível que utilizasse a expressão "Lá vem ele de novo!" com frequência.

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Neste caso, seria em referência ao risco fiscal.

Se você bem se lembra (talvez não queira, afinal é duro falar disso), o grande narrador já mandou um "Lá vêm eles de novo!" — seguido de um "Olha só que absurdo!" — em histórica transmissão de uma partida da seleção brasileira de futebol: ocorreu momentos antes do quinto gol da Alemanha na fatídica semifinal da Copa de 2014.

Hoje não foi um dia de 7 a 1 — nem perto disso, sendo bem honesto. Afinal, o principal índice acionário da B3 fechou em baixa menor que 1%, de 0,75%, aos 98.309,12 pontos, na mínima do dia, em meio a sinais mistos das bolsas americanas.

Inclusive, a semana foi positiva para o principal índice acionário da B3, que marcou alta de 0,85% no período.

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Mas a verdade é que, no momento atual do mercado financeiro, o risco fiscal está para uma Alemanha, trazendo repetidas vezes um balde de água fria sobre os investidores, e o mercado está mais para o Brasil, à mercê do último golpe desse adversário difícil de domar.

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Sob os efeitos dessa incerteza, enquanto as bolsas americanas se recuperaram das perdas do ano, o Ibovespa ainda acumula baixa de 15% em 2020.

Hoje, o tema voltou fiscal a pesar no ambiente, com a renovada incerteza sobre o risco de insolvência do país.

A notícia de que dívida do Tesouro Nacional a vencer entre janeiro e abril de 2021 soma R$ 643 bilhões, valor maior que o dobro da média dos últimos cinco anos, equivalente a 15,4% da dívida interna brasileira, segundo o Broadcast, afetou o humor.

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Além do mais, ontem o Tesouro colocou apenas 40% do lote ofertado de títulos atrelados à Selic com prazo mais curto, o que alimentou a percepção de crescente risco fiscal.

"Por aqui, pesou tanto na bolsa quanto no câmbio essa dificuldade do Tesouro de rolar a dívida", diz Roberto Padovani, economista do banco BV. "Basicamente é o tema fiscal fazendo com que o nosso desempenho seja pior que o do resto do mundo."

O índice hoje também puxado por algumas empresas de peso em sua composição. As ações ordinárias (ON) e preferenciais (PN) da Petrobras caíram 2,48% e 2,13%, seguindo a queda do preço do contrato de petróleo tipo Brent, barril de referência para a estatal, no mercado internacional.

Enquanto isso, todas as ações de bancos também recuam no índice, contribuindo para o desempenho negativo do Ibovespa hoje.

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"É um movimento de realização de alguns papéis relevantes", diz Henrique Esteter, analista de ações da Guide Investimentos. "Petrobras pesa com queda do petróleo."

Em outubro, o Ibovespa registra avanço superior aos 4%.

O fechamento de hoje manteve o Ibovespa no patamar de 98 mil pontos, continuando a remar para tentar voltar ao patamar psicológico de 100 mil. Os repórteres Julia Wiltgen e Ricardo Gozzi discutiram no podcast do Seu Dinheiro os riscos e oportunidades no radar do investidor. É só dar play para conferir.

Top 5

Braskem e Suzano foram os destaques de alta de hoje. A petroquímica tem visto uma continuidade dos movimentos de recuperação da região degrada no Alagoas e a entrada da empresa em um setor mais tecnológico que tem potencial de trazer produção para o mercado brasileiro, segundo Igor Cavaca, analista da Warren.

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"A alta da Suzano está refletindo expectativas do mercado com relação aos resultados financeiros que serão publicados na próxima semana", diz Cavaca. "Temos continuidade de um ambiente favorável para a empresa, com dólar mais depreciado e com a celulose figurando entre os principais produtos exportados."

Confira as principais altas do dia no Ibovespa:

CÓDIGOEMPRESAPREÇOVARIAÇÃO
BRKM5Braskem PNAR$ 22,345,58%
SUZB3Suzano ONR$ 50,59 4,61%
USIM5Usiminas PNAR$ 11,32 4,33%
KLBN11Klabin unitsR$ 25,81 3,99%
JBSS3JBS ONR$ 23,203,57%

Um dos bancões, os papéis do Santander Brasil foram a quinta maior queda percentual de hoje. Nenhuma ação dessas instituições encerrou a sessão com ganhos hoje.

As incertezas sobre a questão fiscal no Brasil, bem como a falta de estímulos nos Estados Unidos e a nova onda de covid-19 na Europa pesaram para essas empresas. "Esses fatores podem enfraquecer as economias e os bancos podem sofrer por um prazo maior do que se estima hoje, principalmente com aumento da inadimplência e consequente impacto negativo sobre seus resultados", diz Paloma Brum, analista da Toro Investimentos.

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Enquanto isso, as ações de Cogna e Yduqs, do setor de educação, foram as piores performances do dia, sofrendo pelos riscos de inadimplência e de evasão de alunos diante de aumento do desemprego e queda na renda média das famílias no Brasil e a persistência da covid, diz Brum.

Veja as maiores quedas do dia:

CÓDIGOEMPRESAPREÇOVARIAÇÃO
COGN3Cogna ONR$ 4,83 -4,17%
YDUQ3Yduqs ONR$ 25,81 -3,30%
SANB11 Santander Brasil units R$ 30,71 -3,12%
GNDI3NotreDame Intermédica ONR$ 65,03-3,04%
IRBR3IRB Brasil ONR$ 6,79-3,00%

Bolsas americanas mistas

As bolsas de Nova York abriram em alta, ensaiando recuperação das perdas de ontem, após três dias seguidos de queda.

A notícia de que a farmacêutica Pfizer pode solicitar autorização para uso emergencial da sua vacina contra a covid-19 até o fim de novembro, desde que receba dados de eficácia e segurança de testes em humanos em estágio final, foi um fator que impulsionou a sessão cedo.

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Outra boa notícia veio da Boeing, cujas ações saltaram mais de 2,5% depois que a principal agência reguladora da aviação da Europa sugeriu que o 737 Max estará seguro para voar novamente na região antes do final do ano, de acordo com uma entrevista do diretor da agência à Bloomberg.

Os dados de vendas no varejo nos Estados Unidos em setembro também foram outro motor positivo para o apetite ao risco. O dado apresentou alta de 1,9% em relação a agosto. A previsão do mercado era de alta de 0,8%, segundo dados da Bloomberg.

Já os dados de produção industrial decepcionaram. Houve queda de 0,6% em setembro, ante um consenso de mercado de alta de 0,5% — a primeira queda em cinco meses.

As bolsas americanas ampliaram os ganhos após a divulgação do dado de confiança do consumidor nos EUA em outubro. Na leitura preliminar, o índice subiu a 81,2, ante projeção de 80,5.

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Eventualmente, no entanto, os principais índices de lá perderam força, e terminaram emitindo sinais mistos. O Dow Jones subiu 0,39%, o S&P 500 ficou muito perto do zero a zero, com avanço de 0,01% e o Nasdaq perdeu 0,36%.

As preocupações que pairam sobre os investidores, aqui e lá fora, e que impedem que o Ibovespa chegue aos 100 mil pontos permanecem basicamente as mesmas: os avanços da segunda onda de covid-19 na Europa e o impasse nas negociações para a aprovação de um novo pacote fiscal nos EUA.

O líder da maioria no Senado, o republicano Mitch McConell, rompeu ontem com a Casa Branca e disse que faria com que a Casa na próxima semana assumisse uma proposta de cerca de US$ 500 bilhões — ou menos de um quarto do tamanho da proposta que os democratas da Câmara apresentaram no início deste mês —, nublando ainda mais o cenário para um eventual acordo.

Dólar avança

Depois de operar perto da estabilidade por boa parte da manhã, o dólar à vista se firmou em terreno positivo e encerrou a sessão em alta de 0,34%, a R$ 5,6435.

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Na máxima, a divisa americana subiu 0,41%, para R$ 5,6475.

O Dollar Index (DXY), índice que compara o dólar a uma cesta de moedas como euro, libra e iene, no entanto, se desvaloriza 0,18% agora.

"A injeção de estímulos monetários e fiscais faz o dólar se depreciar em relação a outras moedas fortes, mas em comparação ao real o que pesa mais no curto prazo é o risco fiscal doméstico e o ruído político", diz Mauro Morelli, estrategista da Davos Investimentos, escritório filiado à XP Investimentos. "Essa questão do megavencimento pesa aqui."

Juros sobem

Por aqui, as preocupações se dão em relação ao risco fiscal, refletindo a dificuldade do Tesouro de rolar a dívida, a indefinição quanto ao Renda Brasil e o futuro do auxílio emergencial. Neste contexto, há o risco de uma elevação de juros, por conta da pressão do mercado sobre as taxas de curto prazo.

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A inflação também gera cautela. O mercado teme que a alta de preços no atacado comece a contaminar a inflação ao consumidor, o que também contribuiria para uma elevação de juros.

Mais cedo saiu o Índice Geral de Preços-10 (IGP-10), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), que marcou 3,20% em outubro. O resultado veio acima do teto das estimativas dos analistas ouvidos pelo Broadcast, que esperavam um índice entre 1,72% e 3,02%, com mediana positiva de 2,67%.

Já o Índice de Preços ao Consumidor - Semanal (IPC-S) foi de 1,01%, abaixo da estimativa da Bloomberg, de 1,12%.

Os juros futuros fecharam em alta nesta sexta. Segundo Paulo Nepomuceno, operador de renda fixa da Terra Investimentos, o que está em jogo na curva das taxas futuras é a atual política de juros baixos do Banco Central.

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"O pilar dessa política era a ancoragem da inflação e a política fiscal restritiva. Mas ambos os pilares estão sendo questionados", diz ele, em referência ao déficit fiscal primário e a leve alta da inflação.

"Com tudo isso, o mercado quer mais prêmio. É natural esse movimento de alta na curva", afirma Nepomuceno.

Confira as taxas de fechamento dos principais vencimentos:

  • Janeiro/2021: de 1,970% para 1,976%
  • Janeiro/2022: de 3,29% para 3,40%
  • Janeiro/2023: de 4,65% para 4,77%
  • Janeiro/2025: de 6,54% para 6,63%.

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