Dólar despenca a R$ 5,20 e Ibovespa sobe forte: o que aconteceu com o mercado?
Enquanto o mundo passa por forte turbulência, os mercados estão mais calmos que nunca: o dólar teve a maior queda diária desde 2018 e o Ibovespa foi às máximas em quase três meses

O dólar à vista abriu a terça-feira (02) em baixa e foi descendo a ladeira: caiu, caiu e caiu, como se não houvesse amanhã — e, ao fim do dia, era negociado a R$ 5,2086, em forte queda de 3,34%. Para se ter uma ideia, é o maior recuo em termos percentuais desde junho de 2018 e o menor nível de fechamento desde 14 de abril.
É um comportamento que chamou a atenção, afinal, até parece que o Brasil não enfrenta simultaneamente crises políticas, econômicas e de saúde pública. E, além disso, há toda a tensão social nos EUA desde o assassinato de George Floyd, um homem negro que foi asfixiado por um policial branco. Nesse cenário, o que é que o mercado está vendo de tão positivo?
E repare que esse tom otimista não se restringiu ao câmbio: na bolsa, o Ibovespa avançou 2,74%, aos 91.046,38 pontos — o índice não terminava um pregão acima dos 90 mil pontos desde 10 de março.
- Eu gravei um vídeo para explicar um pouco da dinâmica dos mercados nesta terça-feira. Veja abaixo:
Eu entrei em contato com analistas, economistas e operadores para entender melhor o racional por trás dos mercados nesta terça-feira. É certo que o noticiário parece mais ameno, tanto no Brasil e no exterior, mas o alívio justifica uma queda de mais de 3% no dólar?
Em primeiro lugar, há um fator técnico: a bolsa 'ficou para trás' e não conseguiu acompanhar a recuperação vista nos mercados dos EUA desde março; no câmbio, o real se desvalorizou numa intensidade maior que seus pares. Veja o comportamento do Ibovespa e do dólar no ano:
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"Hoje, boa parte das moedas emergentes vai ganhando ante o dólar, mas o real tem um movimento de mais destaque", diz Flavio Serrano, economista-sênior do banco Haitong. "O real vinha sendo uma das piores moedas do ano e vai devolvendo uma parte do movimento".
E tivemos todo um contexto que justificou essa animação dos investidores: no exterior, os investidores mostraram-se cada vez mais esperançosos quanto a uma reabertura bem sucedida das economias da Europa e dos EUA — e os dados econômicos mais animadores dos últimos dias dão suporte a essa percepção.
No entanto, há também algumas notícias pontuais que colaboraram para melhorar ainda mais o humor dos agentes financeiros globais, diminuindo a percepção de risco nesta terça-feira. Vamos analisar cada um deles mais a fundo.

Otimismo externo
Os investidores globais amanheceram com uma notícia promissora no front da potencial nova guerra comercial entre EUA e China: uma publicação do país asiático afirmou que o governo de Pequim continuará comprado soja dos EUA, amenizando as tensões entre os dois países.
Americanos e chineses vinham numa escalada de tensões ao longo das últimas semanas, trocando acusações quanto à responsabilidade pela pandemia de coronavírus — o que rapidamente ganhou dimensões comerciais e geopolíticas, envolvendo inclusive a soberania de Hong Kong.
A noticia relacionada à compra de soja, no entanto, tende a esfriar o ânimo entre os países, trazendo alento aos mercados — e abrindo ainda mais espaço para que os agentes financeiros possam reagir de maneira positiva aos sinais de recuperação da economia global.
"Há um desmonte de operações defensivas que tem como pano de fundo o bom humor dos mercados", diz Jefferson Luiz Rugik, diretor de câmbio da corretora Correparti, ao comentar sobre o forte alívio na cotação do dólar à vista.
[captacao]
Tensões diminuindo
No Brasil, o ministro do STF Celso de Mello decidiu ontem pelo arquivamento do pedido de apreensão do celular do presidente Jair Bolsonaro — uma medida que tende a reduzir as tensões entre o governo e o Supremo.
"Tem havido uma redução nas tensões políticas, tanto no doméstico quanto no internacional" - Flavio Serrano, economista-sênior do Haitong
Do ponto de vista econômico, a percepção de que o pior momento da pandemia pode ter ficado para trás na Europa e nos EUA também ajudou a dar confiança ao mercado — e, mesmo no Brasil, a perspectiva de reabertura econômica gradual em São Paulo ajuda a animar as operações na bolsa e no dólar.
Rugik, da Correparti, ainda destaca que a postura mais firme do Banco Central (BC) também ajudou a trazer alívio à moeda americana. Ele destaca que, ontem, o dólar à vista enfrentou uma súbita pressão durante a tarde — de fato, a moeda fechou em alta —, mas que a autoridade monetária não hesitou em mostrar suas armas.
Apenas ontem, o BC ofereceu US$ 500 milhões em recursos ao sistema, fazendo dois leilões no segmento à vista — um posicionamento que, segundo Rugik, ajudou a afugentar os especuladores do mercado de câmbio.
"Ele deixou um recado: estou atento e vou vender caso o especulador queria montar posições defensivas do nada", diz o diretor da Correparti. "Essa operação inibiu a procura por dólares e acelerou o desmonte de posições defensivas".
A união entre calmaria doméstica e otimismo externo também foi sentida no mercado de juros futuros: os DIs fecharam em baixa, tanto na ponta curta quanto na longa, acompanhando o movimento do dólar à vista:
- Janeiro/2021: de 2,29% para 2,24%:
- Janeiro/2022: de 3,14% para 3,06%;
- Janeiro/2023: de 4,22% para 4,10%;
- Janeiro/2025: de 5,96% para 5,76%.
Repare que o DI para janeiro de 2021 — contrato que, em tese, reflete as apostas do mercado quanto à Selic ao fim do ano — agora oscila ao redor dos 2,25%, contratando mais um corte de 0,75 ponto na taxa básica de juros.
Serrano, do Haitong, pondera que os próximos dados de atividade no Brasil tendem a ser bastante fracos, o que pode aumentar a percepção de contração econômica — e, assim, pode até mesmo instigar o Copom a continuar baixando a Selic para além dos 2,25%.
Top 5
Veja abaixo as cinco ações de melhor desempenho do Ibovespa no momento:
| CÓDIGO | NOME | PREÇO (R$) | VARIAÇÃO |
| CVCB3 | CVC ON | 18,60 | +20,00% |
| GOLL4 | Gol PN | 15,11 | +15,70% |
| COGN3 | Cogna ON | 6,40 | +13,68% |
| YDUQ3 | Yduqs ON | 33,55 | +12,51% |
| USIM5 | Usiminas PNA | 6,92 | +11,79% |
Confira também as maiores quedas do índice:
| CÓDIGO | NOME | PREÇO (R$) | VARIAÇÃO |
| MGLU3 | Magazine Luiza ON | 61,80 | -2,98% |
| BTOW3 | B2W ON | 89,19 | -2,42% |
| BEEF3 | Minerva ON | 12,88 | -1,53% |
| BRFS3 | BRF ON | 23,35 | -1,21% |
| ECOR3 | Ecorodovias ON | 13,03 | -1,12% |
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