De carro com Jair
Como duas conversas com motoristas ajudam a explicar os movimentos de popularidade do governo Bolsonaro

Caro Leitor,
Como o período de chuvas aqui em Brasília se alongou, tenho usado menos a moto para ir às pautas que se dividem entre o Ministério da Economia, Banco Central, Congresso e Palácio do Planalto. Nas corridas via aplicativo, quase sempre rola alguma conversa, mas dois episódios da semana ajudam a entender o que acontece com a popularidade de Jair Bolsonaro neste começo de mandato.
- Boa tarde, Jair, tudo bem?
- Tranquilo, onde vamos?
- Vamos encontrar seu xará, lá no Palácio do Planalto.
Jair, o motorista, tem pouco mais de 50 anos e é eleitor declarado do outro Jair, o presidente. De largada, começamos a conversa falando sobre os feitos deste começo de governo. Para Jair, seu xará tem feito muita coisa, apesar das críticas.
Para Jair, só de tirar, limpar, o povo de que tinha ficado da gestão petista já é um grande feito. E, se o Congresso deixar, Jair vai mudar esse país de patamar.
Concordo com Jair, argumentando que esse início de governo é realmente difícil, ainda mais que estamos entrando ou testando um novo modelo de negociação política, depois de 14 anos no qual o Executivo literalmente comprou o Legislativo. Além disso, há uma curva de aprendizado, um período de acomodação.
Jair concorda, além disso quer ver a economia andar e é adepto da agenda liberal do “doutor Paulo Guedes”. Para Jair, o povo tem que entender que o Estado não tem que estar se metendo em tudo. Que Guedes trouxe boas ideias de Chicago, onde o filho de Jair está estudando agora, mas que sempre foi deixado de lado.
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[captacao]
Concordo novamente com Jair, acrescentando que a tese do Guedes é justamente essa, o Estado cresceu demais, corrompendo praticamente todas as relações comerciais, financeiras e até mesmo pessoais.
A conversa segue e quase chegando ao Palácio do Planalto, Jair me conta, rindo, que na sua casa todo mundo é petista, defendem o Lula. Rindo ainda mais, ele me diz que os filhos acham que Lula foi condenado sem provas. Falo, também rindo, que não é possível, mas...
Deixando o Planalto
Na volta do palácio, o motorista era o Mário. Como entrei no carro e segui olhando e-mails e vendo se a matéria com a legalização da agiotagem no Brasil tinha entrado no site, só fomos engatar conversa um pouco depois.
O mote para a política veio do rádio, que naquele fim de tarde trazia os números da última pequisa CNI/Ibope de aprovação do governo. Após a locutora apresentar os 35% de ótimo/bom, os 31% de regular e 27% de ruim/péssimo, pergunto a Mário em qual grupo ele se encaixava.
A resposta veio sem titubear: “ruim, e olha que eu votei no Bolsonaro”. Na sequência, Mário explica o motivo de sua insatisfação: “Fica com muita briguinha em rede social. Fora que esses filhos dele não ajudam, tão sempre arrumando confusão. Esperava mais desse governo”.
Assim como concordei com as ponderações de Jair, concordei com a fala do Mário. Disse que, de fato, essas rusgas envolvendo o presidente, seus filhos e os recentes ataques ao vice-presidente Mourão, não levavam a nada. Só faziam barulho e abriam espaço para o governo ser criticado. Mas, no fim da corrida, ambos concordamos que tem espaço para melhorar.
De volta ao Ibope
Não preciso dizer que Jair está e sempre esteve no grupo “ótimo/bom” de avaliação do presidente. Jair representa o que chamo de eleitorado mais fiel, ou eleitor de primeira hora. Faz parte daquele grupo de 20% que acompanha o presidente desde o começo da corrida eleitoral e que muito analista gabaritado achou que era "teto" de Bolsonaro.
Já Mário faz parte de outro grupo de eleitores, do grupo que ajudou a eleger o presidente, mas não é um eleitor fiel, como Jair. É justamente nesse grupo dos “Mários” que Bolsonaro parece perder aprovação, que em janeiro estava na faixa dos 49%.
Jair, o presidente, tem focado muito a sua comunicação e sua ações para o grupo de eleitores do motorista Jair. É correto manter essa base fiel cativada, com os discursos e postura da guerra cultural e de choro livre aos petistas.
Mas a comunicação e o arco de ação está perdendo o grupo de Mário, que ajudou a alçar Bolsonaro ao Planalto dentro da onda anti-PT que marcou as eleições. Ou mesmo gente que simplesmente achou que estava na hora de mudar um pouco as coisas, na linha da famosa frase que diz que políticos e fraldas tem de ser trocados periodicamente e pelo mesmo motivo.
Reforço o ponto de mudar a comunicação e a percepção, pois essas parecem as armas disponíveis no momento. No lado econômico, notícias positivas vão continuar rareando, com o mercado e os empresários aguardando um desfecho mais claro para a reforma da Previdência antes de fazer investimentos e contratar.
No lado da ação, o que o “doutor Paulo Guedes” poderia fazer é tentar acelerar as medidas que não dependem do Parlamento, mesmo que muitas sejam agendas microeconômicas de pouco apelo popular.
A boa notícia é que há movimentação nesse sentido e Guedes está indo além, atacando uma agenda bastante popular, falando em reduzir o preço do gás pela metade.
Um bom domingo pra você!
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