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Os 90 anos da crise de 1929
2019-10-24T21:49:12-03:00
Victor Aguiar
Victor Aguiar
Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e com MBA em Informações Econômico-Financeiras e Mercado de Capitais pelo Instituto Educacional BM&FBovespa e UBS Escola de Negócios. Trabalhou nas principais redações de economia do país, como Bloomberg, Agência CMA, Agência Estado/Broadcast e Valor Econômico.
O maior crash do capitalismo

Os 90 anos da crise de 1929, parte III: a Grande Depressão e a retomada do crescimento

Após a crise de 1929, os Estados Unidos entrariam numa fase crítica: a Grande Depressão, um período de empobrecimento e altos níveis de desemprego. Neste episódio, detalhamos esse período turbulento da sociedade americana e contamos como os EUA conseguiram sair do buraco

25 de outubro de 2019
5:38 - atualizado às 21:49
Grande Depressão - Crise de 1929
Imagem: Shutterstock

O Almanaque Internacional do Cinema de 1936-1937 — um calhamaço de mais de 1.200 páginas que faz um raio-X fascinante da indústria cinematográfica nos anos 30 — traz um dado simbólico da sociedade americana naquela época: o montante gasto para a construção de novas salas de exibição de filmes nos EUA, ano a ano.

A série histórica começa em 1929, quando US$ 163,6 milhões foram investidos para essa finalidade. Mas, a partir daí, esse montante começou a cair num ritmo bastante intenso:

  • 1930: US$ 97,6 milhões
  • 1931: US$ 45 milhões
  • 1932: US$ 17,5 milhões
  • 1933: US$ 13,5 milhões

Essa queda vertiginosa é chocante, mas não surpreendente: afinal, num país em que uma a cada quatro pessoas está desempregada — caso dos EUA em 1933 —, ir ao cinema não é exatamente uma prioridade.

Essa contração da máquina de Hollywood é um reflexo de um problema muito maior que abalou a sociedade americana na primeira metade da década de 30. Desde a crise de 1929 e o crash da bolsa de Nova York, o país foi lançado numa profunda recessão, num estado letárgico que perduraria por anos.

A euforia dos anos 20 e a ideia de que todos seriam ricos deu lugar ao desemprego massivo, às falências e ao empobrecimento de grande parte da população. Os registros históricos de filas de pessoas famintas nos postos de distribuição de sopa são do início dos anos 30.

Crise de 1929 - fila de comida
Uma fila de distribuição de comida em Nova York durante a Grande Depressão dos anos 30 - Imagem: Shutterstock

Nas palavras de Simão Silber, professor da Faculdade de Economia e Administração da USP com doutorado em Economics por Yale:

"A crise de 1929 foi a maior crise da economia moderna."

No primeiro episódio dessa série especial do Seu Dinheiro, nós debatemos as características dos anos 20 que levariam à crise — um sentimento de euforia gerado pelo forte crescimento econômico e ampla disponibilidade de crédito, associado à grande especulação no mercado financeiro.

No segundo capítulo, discutimos o crash da bolsa de Nova York em si: o esfarelamento dos preços das ações fez com que muitos investidores — tanto os profissionais quanto as pessoas comuns — perdessem quase todos os seus recursos, já que era comum a contração de dívidas para entrar no mercado acionário.

Se você ainda não leu os capítulos iniciais, recomendo que você acesse nossa página especial sobre a crise de 1929. Lá, você encontrará todo o material produzido pelo Seu Dinheiro a respeito desse acontecimento: infográficos, textos e muitos outros conteúdos, que serão disponibilizados ao longo dos dias.

No texto de hoje, falaremos sobre os desdobramentos da crise de 29: explosão do desemprego, queda drástica no PIB e a perda total de confiança em Wall Street — o que levou o antes imponente índice Dow Jones ao ostracismo.

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Depressão

A economia americana viveu dias de glória nos anos 20: o PIB do país acumulou um crescimento de cerca de 20% naquela década, e a taxa de desemprego permanecia abaixo de 5% desde 1923 — em 1926, chegou a ínfimos 1,6%.

Em 1929, contudo, essa situação começaria a mudar radicalmente: o crash da bolsa de Nova York levaria inúmeras pessoas à bancarrota, faria a inadimplência bancária disparar e provocaria uma enorme contração nas concessões de crédito — um efeito dominó que derrubou a atividade econômica dos EUA como um todo.

"A falta de crédito aprofundou a queda na produção, e essa contração levou ao aumento no desemprego", diz Fernando de Holanda Barbosa, professor da Escola Brasileira de Economia e Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV-EPGE).

Rapidamente, o PIB dos Estados Unidos entrou numa trajetória de baixa, caindo a níveis inferiores aos vistos no início da década de 1920:

Crise de 1929 - PIB EUA 23-33

 

"A crise de 1929 causa uma distorção na alocação dos recursos, muita gente quebrou", diz Vinícius Müller, doutor em história econômica e professor do Insper. "Portanto, há uma tendência menor de investimento e aumento do desemprego".

Essa tendência piorou ainda mais por causa das políticas monetárias adotadas pelo Federal Reserve — o banco central americano — após o crash da bolsa de Nova York. E, novamente, a visão conservadora de que qualquer tipo de intervenção do governo na economia era negativa ajudou a potencializar os problemas.

Para frear a especulação no mercado financeiro, o Fed optou por reduzir a disponibilidade de crédito, acreditando que, desta forma, conseguiria frear esse movimento e estabilizaria novamente a economia. Mas, como destaca Silber, da USP, essa postura acabou provocando uma falência em massa no sistema bancário, o que fortaleceu a crise. Ouça o áudio abaixo com um trecho da entrevista:

Em paralelo à queda do PIB, ocorreu também o disparo das taxas de desemprego. Os níveis, que mantiveram-se controlados durante a década de 20, começaram a galopar, rapidamente ultrapassando a barreira dos 10% — e indo além, muito além:

Crise de 1929 - Taxa de desemprego 23-33

 

Crise mundial

O colapso da economia americana logo se espalharia para o mundo todo. Vale lembrar que, enquanto os EUA floresciam na década de 20, grande parte da Europa passava por um processo de reconstrução — a Primeira Guerra Mundial, terminada em 1918, foi travada quase que exclusivamente no território europeu.

Assim, coube aos americanos assumir o papel de protagonistas econômicos no pós-guerra. E, como destaca Müller, do Insper, os EUA exerceram uma função importante para a recuperação de algumas economias da Europa, especialmente a Alemanha, através de pesados investimentos no restabelecimento da indústria local.

"Isso significa dizer que, quando vem a crise americana, muito dinheiro deixa de entrar na Europa. E, com a ausência desses recursos, a crise também vai para lá", afirma Müller. "Então, a crise europeia, que abriu um campo fértil para o crescimento do nazismo na Alemanha, tem a ver com a crise econômica dos EUA".

Além disso, o professor do Insper ainda ressalta que, em termos políticos, os Estados Unidos não desempenharam o mesmo papel de liderança, mantendo um certo isolamento diplomático em relação ao velho continente. A combinação entre esse hiato de poder e a saída de recursos da Europa seria decisiva para o estouro da Segunda Guerra.

Em 1930, o partido nazista conseguiria 6 milhões de votos, conquistando a segunda maior bancada do Parlamento alemão; em 33, Adolf Hitler chegaria ao cargo de chanceler — em 34, ele se autodenominaria Führer. Em 38, a Alemanha invadiria a Áustria, dando início a escalada de tensões que culminaria no conflito global de 39 a 45.

Mas, antes de entrar em detalhes a respeito da Segunda Guerra Mundial, vamos voltar aos Estados Unidos. Após as dificuldades enfrentadas na primeira metade da década de 1930, a economia americana começou a reagir.

Um novo acordo

Em 1933, o democrata Franklin Roosevelt chega à Casa Branca, substituindo Herbert Hoover. E uma das primeiras medidas anunciadas pelo novo presidente foi o chamado New Deal, um pacote de estímulo à economia que incluía o desenvolvimento de obras públicas, reformas estruturais e programas de desenvolvimento.

O objetivo de Franklin era bastante claro: diminuir a taxa de desemprego e fazer a economia americana voltar a crescer, mesmo que às custas de um maior endividamento do governo. Uma postura oposta a da gestão anterior, e que se mostraria muito eficaz.

"Os Estados Unidos fizeram investimentos em hidrelétricas e criaram muitos empregos públicos. Essa recuperação ocorre até a 1939, quando a economia do país entra no modo 'de guerra' e fica extremamente aquecida", diz Barbosa, da FGV.

De fato, o New Deal foi bem sucedido na tarefa de frear o avanço do desemprego e promover uma retomada de tração econômica dos Estados Unidos. No entanto, o plano de Roosevelt, por si só, não fez o país voltar aos níveis de atividade vistos na década de 20.

A taxa de desemprego, que se aproximou dos 25% em 1933, teve um recuo importante e chegou a 14,3% em 1937. No mesmo ano, o PIB americano totalizou US$ 93 bilhões — números mais sólidos, mas ainda aquém dos vistos em 1929, quando o PIB chegou a US$ 104,6 bilhões e o nível de desocupação estava em 3,2%.

A recuperação definitiva da economia dos EUA viria apenas a partir de 1939, quando a tensão na Europa tornou-se insustentável. Mas, enquanto isso, a indústria cinematográfica também reagiu: segundo o Almanaque Internacional do Cinema, os investimentos em novas salas de exibição voltaram a subir a partir de 1934...

Modo de guerra

Pode parecer estranho à primeira vista, mas o estouro da Segunda Guerra Mundial foi o empurrão que faltava para que os Estados Unidos saíssem de vez da Grande Depressão. Ocorre que, com o conflito global do outro lado do Atlântico, a demanda pelos produtos industrializados americanos aumentou exponencialmente.

"O esforço dos EUA para reorganizar sua economia, voltando-se para a guerra, trouxe um estímulo produtivo muito grande. Aí sim, tivemos uma queda significativa do desemprego e uma retomada mais firme dos investimentos", diz Müller, do Insper. "O New Deal estancou a sangria, mas a resolução tem a ver com os acontecimentos posteriores".

E, de fato, é a partir de 1939 que a economia americana entra num ciclo intenso de recuperação. O PIB do país voltou a se expandir num ritmo elevado, e a taxa de desemprego diminuiu muito, ficando abaixo de 2% já em 1943.

Crise de 1929 - Recuperação

 

Lições

Todo esse ciclo de expansão econômica nos anos 20, forte recessão nos primeiros anos da década de 30 e posterior recuperação com o New Deal e a Segunda Guerra geraram ensinamentos valiosos à sociedade americana e ao mundo como um todo.

É importante destacar que, por mais que o PIB dos EUA tenha voltado a se expandir na segunda metade dos anos 30 e o mercado de trabalho tenha se reaquecido, ainda levou muito tempo para que os americanos voltassem a confiar no mercado financeiro.

O Dow Jones, que chegou aos 381,17 pontos em 3 de setembro de 1929, continuaria rastejando por anos — o índice superaria essa marca apenas em 1954. O trauma foi grande, mas as lições foram aprendidas.

Em primeiro lugar, o governo americano criou uma série de órgãos para regular o mercado financeiro. A Securities and Exchange Commission (SEC), órgão semelhante à CVM do Brasil, foi criada após o crash das bolsas em 1929; em segundo, foi promulgada em 1933 a Lei Glass-Steagal, que instituiu a separação entre bancos comerciais e de investimento.

Mas também foi percebida uma mudança na mentalidade dos investidores. Se, na década de 20, era quase "antipatriótico" apostar na queda das ações, a crise de 1929 ensinou que operar vendido na bolsa — ou liquidar sua carteira em momentos turbulentos — é uma estratégia que pode render lucros importantes, ou, ao menos, evitar perdas volumosas.

Do ponto de vista de política monetária, o crash também serviu para fornecer aprendizados. Em 2008, por exemplo, a crise do subprime deixou as bolsas perto de uma nova derrocada. No entanto, ciente do que foi feito errado no passado, o Fed adotou a postura contrária: ofereceu crédito e não deixou que uma espiral de falências ocorresse.

Não esquecer para não repetir: esse é o grande legado da crise de 1929. Nesse sentido, estudar um evento ocorrido há 90 anos é mais importante que nunca, já que ter o domínio sobre o que aconteceu no passado é fundamental para evitar que os mesmos erros sejam cometidos no futuro.

Para mim, contar esse pedaço da História é mais que um dever jornalístico: é um compromisso com você, leitor do Seu Dinheiro.

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