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Luciana Seabra
Advogada do Investidor
Luciana Seabra
É CFP®, especialista em fundos de investimento e sócia da Empiricus
2019-01-30T18:20:21-02:00
Advogada do investidor

ESG: a sigla para evitar novas Brumadinhos

“Environmental, Social and Governance” não trata de abraçar árvores, mas de proteger patrimônio

30 de janeiro de 2019
18:16 - atualizado às 18:20
Desabamento de barragem da Vale em Brumadinho (MG)
Desabamento de barragem da Vale em Brumadinho (MG) - Imagem: Corpo de Bombeiros/Divulgação

“Lá no Brasil vocês não têm interesse em ESG? Esta é a primeira vez que um grupo de fundos de pensão vem aqui e ninguém pergunta sobre isso” – questionou em belo sotaque britânico um dos executivos da MSCI, a famosa provedora de índices que servem de referência para investidores no mundo todo.

Do outro lado da mesa, gravador a postos, eu passava da repórter que acompanhava, em Londres, um grupo de fundos de pensão em sua busca por internacionalizar o portfólio (que não aconteceu até hoje) ao desconfortável papel de porta-voz do Brasil.

A resposta certa à pergunta era um sonoro “não”, mas eu dei uma disfarçada para não passar vergonha.

Por sorte eu sabia do que ele estava falando – infelizmente, mais na teoria do que na prática. ESG é a sigla em inglês para “Environmental, Social and Governance”. O executivo da MSCI fazia referência a ter em conta fatores ambientais, sociais e de governança na hora de selecionar uma empresa na qual investir.

Papo de quem abraça árvores? Mesmo que você, assim como eu, use sacolas plásticas no supermercado e ainda não tenha se acostumado aos canudinhos de papel que derretem na boca (não tenho orgulho disso, é só a realidade), talvez perceba a importância do tema depois de assistir, chocado, aos efeitos do rompimento da barragem da Vale em Brumadinho na última sexta-feira (25).

Se algum sangue corre em suas veias, na certa você está sem fala diante do número de mortos e do impacto ambiental ocorrido.

Mas mesmo que nenhum sangue corra nas suas veias e você seja um investidor-robô, dificilmente passou incólume. A empresa perdeu mais de 70 bilhões de reais em valor de mercado – batendo todos os recordes para uma companhia brasileira em um único dia de Bolsa – somente na última segunda-feira.

Se você tinha Vale, perdeu dinheiro. Se você estava posicionado no Ibovespa, perdeu dinheiro. Se você investe em algum fundo de ações, também é provável que tenha perdido dinheiro, já que os gestores voltavam a namorar a companhia dados os avanços de governança (ninguém se lembrava mais de Mariana).

Ou seja, ESG não trata de abraçar árvores, mas de proteger patrimônio. Os riscos ambiental e trabalhista de investir em Vale claramente não estavam nos preços, assim como não estão no de várias outras companhias listadas. É um risco oculto – e nada pequeno, como acabamos de perceber.

Lá fora, especialmente investidores com olhar de longo prazo levam em conta critérios ESG para avaliar as empresas que entram no portfólio. A tese é: se vou virar sócio desta companhia por muitos anos, na certa é com meu dinheiro que ela vai pagar as indenizações que vão estourar pela frente.

O que isso significa para você que não está nem aí para questões ambientais, sociais e de governança? Que grandes investidores no mundo estão, o que, naturalmente, afeta o valor do que você compra.

E o que isso significa para você que detonou todo mundo que tem falado de dinheiro e investimentos nas redes sociais ao se referir ao rompimento da barragem da Vale? Que você está do lado errado. Um caminho rápido para evitar novas tragédias como a de Brumadinho é garantir que mais investidores coloquem no preço impactos ambientais e sociais.

Que empresa vai querer ter seu valor em Bolsa descontado?

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