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2019-04-05T10:44:13-03:00
Victor Aguiar
Victor Aguiar
Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e com MBA em Informações Econômico-Financeiras e Mercado de Capitais pelo Instituto Educacional BM&FBovespa e UBS Escola de Negócios. Trabalhou nas principais redações de economia do país, como Bloomberg, Agência CMA, Agência Estado/Broadcast e Valor Econômico.
Dias de estresse

Ibovespa fecha semana volátil com alta acumulada de 1,79%; dólar fica em R$ 3,91

A instabilidade no cenário político mexeu com o humor dos mercados. Apesar de a semana terminar mais calma, o tom ainda é de precaução

29 de março de 2019
10:29 - atualizado às 10:44
Selo marca a cobertura de mercados do Seu Dinheiro para o fechamento da Bolsa
Mercados passaram por turbulência ao longo da semana - Imagem: Seu Dinheiro

Uma semana intensa. Muito intensa.

Crise política, PEC do Orçamento, menor crescimento econômico no mundo, negociações entre Estados Unidos e China, Brexit... o turbilhão de notícias atingiu em cheio o humor dos mercados. E tudo isso se traduziu em uma palavra:

Volatilidade. Muita volatilidade.

Basta ver o comportamento do Ibovespa nos últimos dias: queda de 0,08% na segunda-feira, ganho de 1,76% na terça, baixa de 3,57% na quarta, avanço de 2,7% na quinta e, hoje, nova alta de 1,09%, fechando aos 95.414,55 pontos.

O saldo dessa montanha-russa? Um avanço de 1,79% no acumulado da semana. Mas, deixando a frieza dos números de lado, pode-se dizer que o resultado é outro, ao menos para o sentimento do mercado:

Cautela. Muita cautela.

Essa foi a palavra que eu mais escutei de analistas e operadores ao longo da semana, mesmo nos dias positivos. E isso porque, num ambiente político altamente instável, o mercado hesita em assumir posições mais definitivas: afinal, o que levou o Ibovespa aos 100 mil pontos na semana passada era a percepção de que a reforma da Previdência avançaria sem maiores dificuldades na Câmara — cenário que desabou em poucos dias e, agora, começa a ser reconstruído.

"Todo mundo ficou perdido nessa semana, tivemos dias de pressão e de euforia", diz Luiz Gustavo Pereira, estrategista da Guide Investimentos, lembrando que, no exterior, o momento também é de indefinição, tanto em aspectos econômicos quanto políticos. "O mercado ficou sem rumo, sem uma direção muito clara, e isso gera incerteza, gera cautela".

Situação semelhante foi vista no dólar à vista, que desde segunda-feira oscilou na faixa de R$ 3,85 a R$ 4,01 — hoje, fechou em leve queda de 0,01%, a R$ 3,916 e, com isso, fechou a semana com alta acumulada de 0,37%.

Um analista que prefere não ser identificado destaca que esses movimentos de alta amplitude não são positivos no médio prazo, já que, num cenário de futuro nebuloso, muitos preferem não investir. "Ninguém quer ficar posicionado num momento de incerteza grande. E se amanhã alguém tuíta alguma coisa e põe tudo a perder?", questiona, referindo-se ao cenário político em Brasília.

Com o desempenho desta sexta-feira, o Ibovespa fechou o mês de março com leve perda acumulada de 0,18% — no ano, o índice ainda sobe 8,57%. O dólar à vista, por outro lado, subiu 4,33% no mês e avançou 1,05% desde o início de 2018.

E hoje?

Em linhas gerais, os sinais de maior alinhamento em Brasília, somados à cena externa favorável, deram sustentação ao Ibovespa e permitiram que o principal índice da bolsa brasileira continuasse ganhando terreno. No entanto, a cautela deu as caras na reta final da sessão, trazendo alguma instabilidade.

O Ibovespa, que chegou aos 95.862,75 pontos na máxima do dia, começou a perder força por volta de 16h, retornando brevemente ao nível dos 94 mil pontos. Mas, nos minutos finais, voltou a recuperar terreno, terminando aos 95.414,55 pontos (+1,09%).

Já a moeda americana, que tocou o nível de R$ 3,86 no início do dia, foi perdendo força ao longo da tarde e fechou a R$ 3,916 (-0,01%). O mercado tem assumido um tom mais cauteloso no câmbio, usando o dólar como proteção para eventuais instabilidades no cenário político.

No front local, a definição do relator da reforma da Previdência na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara ajudou a tirar pressão do mercado. Apesar do atraso, a escolha de Marcelo Freitas (PSL/MG) foi interpretada como um primeiro passo na retomada da tramitação da proposta.

Mais cedo, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, afirmou que a escolha do relator foi "o primeiro passo em direção à reforma" e que trabalhará pessoalmente, "como deputado, e não como presidente da Câmara", para a aprovação da proposta.

"A reforma da Previdência não está morta", diz Pereira, da Guide, destacando que a calmaria no noticiário político ajudou a recuperação do Ibovespa, especialmente após a queda intensa da última quarta-feira. "Mas é preciso ter um alinhamento maior entre o Executivo e o Legislativo".

Apesar do ambiente menos turbulento, um analista ressalta que a cautela em relação ao cenário político seguiu rondando o mercado, manifestando-se na reta final da sessão — a ideia foi ficar "mais vendido" para não correr riscos com uma eventual mudança no panorama de Brasília ao longo do fim de semana.

No exterior, o tom foi de otimismo quanto às negociações comerciais entre Estados Unidos e China — nem mesmo a rejeição do acordo do Brexit pelo Parlamento do Reino Unido foi capaz de tirar o bom humor dos mercados globais. A notícia trouxe alguma instabilidade às bolsas americanas no fim da manhã, mas foi rapidamente absorvida: Dow Jones (+0,82%), S&P 500 (+0,67%) e Nasdaq (+0,78%) fecharam em alta.

As curvas de juros também foram afetadas por esse movimento de cautela no fim do dia e fecharam em alta, após passarem o dia exibindo leve viés negativo. Os DIs com vencimento em janeiro de 2020 subiram de 6,495% para 6,52%, e os com vencimento em janeiro de 2021 avançaram de 7,11% para 7,14%. Entre as curvas longas, as para janeiro de 2023 tiveram ganho de 8,22% para 8,24%, e as para janeiro de 2025 foram de 8,74% para 8,75%.

Ajuda das commodities

As commodities tiveram papel fundamental para o bom desempenho do Ibovespa nesta sexta-feira: o minério de ferro avançou 2,52% no porto chinês de Qingdao e o petróleo WTI subiu 1,42%, dando força as ações da Petrobras e dos setores de mineração e siderurgia.

Foi o caso dos papéis PNA da Usiminas (+3,72%), ON da CSN (+3,64%) e ON da Vale (+3,31%) — as ações PN da Bradespar, empresa que possui participação na Vale, subiram 4,32% e lideraram os ganhos do Ibovespa.

As ações ON da Petrobras fecharam em alta de 0,61%, beneficiadas pelos ganhos do petróleo no exterior. Já os papéis PN da estatal terminaram o dia estáveis.

Kroton decepciona

Na ponta oposta do Ibovespa, destaque para as ações ON da Kroton, que caíram 2,84%. A empresa reportou lucro líquido de R$ 1,569 bilhão em 2018, queda de 16,6% ante o resultado de 2017; o Ebitda recuou 10,1% na mesma base de comparação, para R$ 2,028 bilhões.

Em relatório, o Safra considerou os resultados da Kroton como "mistos", citando o fluxo de caixa da empresa no quarto trimestre de 2018 como ponto negativo do balanço.

JBS avança

Se o balanço da Kroton não foi bem recebido pelo mercado, o da JBS gerou efeito oposto: os papéis ON da empresa fecharam em alta de 2,91%. Nos três últimos meses do ano passado, o frigorífico teve lucro líquido de de R$ 563,2 milhões, revertendo o prejuízo de R$ 451,7 milhões do mesmo período de 2017.

Analistas destacaram que os resultados da JBS ficaram abaixo do esperado, mas trouxeram pontos positivos, em especial a geração de caixa e a redução do endividamento exibida no quarto trimestre de 2018.

Rebaixada

O UBS rebaixou a recomendação para as ações ON da BR Distribuidora, de compra para neutro, e cortou o preço-alvo para os papéis de R$ 29 para R$ 25 — em relatório, a instituição diz que a medida leva em conta projeções menores para as margens e volumes de venda. E o mercado não deixou barato: os ativos da empresa fecharam o pregão em queda de 4,1%, a R$ 23,15, liderando a ponta negativa do Ibovespa.

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