Menu
Eduardo Campos
Eduardo Campos
Jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo e Master In Business Economics (Ceabe) pela FGV. Cobre mercado financeiro desde 2003, com passagens pelo InvestNews/Gazeta Mercantil e Valor Econômico cobrindo mercados de juros, câmbio e bolsa de valores. Há 6 anos em Brasília, cobre Banco Central e Ministério da Fazenda.
Eleições 2018

Novo Congresso pode representar custo fiscal mais elevado ao presidente

Mesmo com renovação, grande número de partidos e ausência de lideranças pode tornar aprovação de reformas mais caras, contrariando leitura inicial do mercado

9 de outubro de 2018
6:07 - atualizado às 9:11
Câmara dos Deputados - Imagem: Luis Macedo/Câmara dos Deputados

A surpresa com o resultado das eleições para o Congresso, que mostrou renovação e queda de caciques históricos pode não ser tão positiva quanto parece. Dispersão partidária e falta de liderança podem elevar o custo fiscal das reformas.

A avaliação é do mestre em economia pela UnB e doutor em direito pela UFMG, Bruno Carazza. E diverge um pouco da primeira leitura do mercado com relação à governabilidade de um eventual governo Jair Bolsonaro.

Para o pesquisador, o Congresso que emerge das urnas é muito mais desarticulado, com as bancadas, como a ruralista e evangélica, apresentando um peso maior que os partidos.

É um pouco a questão do chamado voto temático, algo que Jair Bolsonaro vem apresentando como um fiel de sua governabilidade. Segundo o presidenciável, antes da eleição ele já teria mais de 120 votos de parlamentares alinhados a suas propostas.

Segundo Carazza, como Bolsonaro não tem um arco partidário muito grande e estável ele vai tentar jogar com isso. O que é um pouco perigoso do ponto de vista fiscal.

Carazza fala com bom conhecimento de causa, pois fez extensa pesquisa para publicar o livro “Dinheiro, Eleições e Poder: as engrenagens do sistema político brasileiro”, onde cruza doações eleitorais com depoimentos da Lava Jato.

“Partidos quando atuam em bloco visam poder. Negociam com base em Orçamento, cargo, diretoria de estatal. Quando se desloca a ótica para a questão das bancadas, elas querem benesses, querem subsídio, crédito direcionado, desoneração fiscal, regulação mais favorável. E isso pode prejudicar, inclusive, o esforço fiscal do governo”, explica.

Um bom exemplo disso foi a recente aprovação de projeto para a renegociação de dívidas do setor rural, que chegou a ser estimado em R$ 15 bilhões.

“Bancadas fecham questão nos temas que lhe são caros, mas será que o ruralista vai votar em peso em uma reforma previdenciária? Quem sabe a articulação com partidos não seria mais confiável que bancada?”, questiona, lembrando que partidos têm instrumentos de coerção dos filiados.

Congresso mais desarticulado

Para Carazza, mesmo com a eleição expressiva de 52 parlamentares do PSL, partido de Bolsonaro, a agremiação política chega à Câmara dos Deputados sem quadros para exercer liderança, pois a maior parte dos candidatos é novata.

“Vão ter de surgir novas lideranças. Acho que vai ter um período de acomodação na Câmara e no Senado pela falta de grandes lideranças”, ponderou.

Nomes como Romero Jucá (MDB-RR), que não conseguiram reeleição, são figuras conhecidas por fazer a inevitável mediação entre Congresso, governo e diferentes grupos de interesse. Para dar uma dimensão, Jucá virou piada aqui em Brasília, pois não importava quem fosse eleito, ele seria o líder do governo. E, de fato, ele foi o líder de todos os presidentes desde Fernando Henrique Cardoso (FHC).

“Ainda tenho de computar mais alguns dados, mas a população deu uma lição no pessoal da Lava Jato. A conta que vem sendo acumulada desde 2013 foi apresentada agora”, explica.

Senador Romero Jucá (MDB-RR) - Roque de Sá/Agência Senado - Imagem: Roque de Sá/Agência Senado

Tivemos algumas surpresas

Carazza já esperava essa maior renovação na Câmara dos Deputados, mas o desempenho do PSL surpreendeu, bem com o encolhimento de partidos tradicionais, como MDB, com menos 32 deputados, e PSDB, menos 23 cadeiras, em comparação com 2014.

Então, o quadro geral é de maior fragmentação, já que siglas menores e médias ganham peso, cenário que criaria muita dificuldade.

“Sempre no início de governo tem uma lua de mel. Então é de se esperar que ele consiga formar base razoável, mas será fragmenta e heterogênea. O que faz com que os problemas que temos hoje, continuem, como atender grupos específicos e aprovar determinadas propostas. O quadro é um pouco melhor do ponto de vista do candidato, mas é de difícil condução”, explica.

Possibilidade de vitória

O especialista não crava uma vitória de Bolsonaro neste segundo turno por cautela. “As coisas mudam muito rápido e erramos muita coisa no primeiro turno”, pondera. Mas avalia que o cenário está muito mais fácil para o capitão reformado do Exército.

Segundo Carazza, o PT perdeu o timing de sinalizar para o eleitor de centro. Se tivesse feito isso ao longo do primeiro turno teria chance de reverter votos a seu favor.

“O Haddad vai ter de roubar voto do Bolsonaro. Se pensar bem é pouco provável que quem votou em Amoedo ou Daciolo vai virar para o Haddad. A luta do PT em direção ao centro é mais difícil e internamente é difícil para o partido assumir isso”, explica.

Carazza lembra que há um sentimento antipetista muito significativo na sociedade e que o PT apostou em alguns posicionamentos que são muito sensíveis para boa parte da sociedade. Entre eles, conceder indulto ao Lula e a questão envolvendo a Venezuela. Além disso, o programa econômico do Haddad é muito estatizante, lembrando a desastrosa Nova Matriz Econômica da Dilma Rousseff.

“Mais que um sentimento anti-PT é um sentimento contra o sistema. O Bolsonaro conseguiu encarnar esse sentimento da população de que todo mundo é corrupto. Mesmo sendo uma figura do sistema, ele conseguiu encarnar essa visão de que é diferente, por não estar envolvido nos escândalos de corrupção”, disse.

Ainda de acordo com o especialista, Bolsonaro se beneficiou, de alguma forma, do atentado sofrido no começo de setembro, pois o protegeu de ataques de outros adversários. Ele também soube lidar bem com a lógica de uma campanha mais curta e que mostrou que o dinheiro não foi tão relevante. Sinal claro de que o investimento de recursos em campanha mais curta demorou a maturar veio do tucano Geraldo Alckmin, que tinha dinheiro e tempo de TV, mas não teve votação expressiva.

Nas eleições para a Câmara, diz Carazza, a lógica do dinheiro continuou marcante, com maior correlação entre gasto e voto.

“Apesar do crescimento do PSL que foge do padrão, nos outros partidos prevaleceu a lógica de quem arrecadou mais, conseguiu ser eleito.”

Quer nossas melhores dicas de investimentos de graça em seu e-mail? Cadastre-se agora em nossa newsletter
Quer nossas melhores dicas de investimentos de graça em seu e-mail? Cadastre-se agora em nossa newsletter
Comentários
Leia também
Conteúdo patrocinado por Startse

Milionária sem sair da cama

O caso da inglesa que ficou milionária trabalhando de pijama no quarto – e o número de brasileiros que querem enriquecer da mesma forma.

Um toma lá da cá

Em discurso, Bolsonaro diz que responsabilidade sobre a previdência está com o Parlamento

“Não é uma questão de governo, e sim de estado, para que nós do Brasil não experimentemos situações que outros países enfrentaram, como na Europa”, disse o presidente

Aliados

Partidos saem em defesa de Maia após crise com governo

Em um gesto de apoio a Maia, o PPS recebeu o presidente da Câmara em sua convenção nacional realizada hoje em Brasília

Águas passadas?

Maia diz que atrito com governo em relação à Previdência é “página virada”

Ele falou com jornalistas antes de uma breve participação em congresso do PPS, em Brasília

Bon Vivant

Saiba quais são as maratonas preferidas de quem trabalha no mercado financeiro

Boston, Chicago, Nova York e Berlim estão entre as competições preferidas, mas a lista inclui também provas exóticas

Tempos ruins para a empresa

Dívida da Avianca dá “salto” e agora é de R$ 2,7 bilhões

A alteração no valor da dívida ocorreu em dois momentos. Em janeiro, a companhia atualizou a primeira lista para R$ 1,3 bilhão por conta própria. Protocolada ontem na Justiça, a segunda modificação, para R$ 2,7 bilhões, veio depois de pedido dos credores

Será que vem chumbo quente por aí?

Caminhoneiros se mobilizam para nova paralisação

Os monitoramentos são feitos pelo Gabinete de Segurança Institucional (GSI), que tem por missão se antecipar aos fatos para evitar problemas para o governo

Clima pesado no governo

“Não dei motivo”, diz Bolsonaro sobre a saída de Maia da articulação

O presidente disse que a declaração de seu filho, o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), com críticas a Maia por adiar a tramitação do projeto anticrime, não é motivo para ele ameaçar sair da articulação política

Polêmica

Bretas usou proposta rejeitada no Congresso para prender Temer, diz jurista

Thiago Bottino afirmou que tanto os procuradores do Ministério Público Federal quanto Bretas se fundamentaram no item número 9 do pacote das “Dez medidas contra a corrupção”, apresentado em 2016 por integrantes da Lava Jato, para prender Temer

BOMBOU NA SEMANA

MAIS LIDAS: do país das maravilhas à dura realidade

 A segunda-feira começou com o Ibovespa aos 100 mil pontos, um marco histórico na bolsa de valores brasileira. O clima azedou e o índice fechou na sexta abaixo de 94 mil

Cripto

Como declarar bitcoin e outras criptomoedas no imposto de renda

Criptoativos podem até não ser regulados, mas isso não quer dizer que seus entusiastas não precisam prestar contas ao Leão. A Receita, como era de se esperar, está de olho…

Carregar mais notícias
Carregar mais notícias
Fechar
Menu