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Luciana Seabra
Advogada do Investidor
Luciana Seabra
É CFP®, especialista em fundos de investimento e sócia da Empiricus

À espera das urnas, Beny Parnes, da renomada SPX, não está otimista com Brasil: “O mercado adora acreditar”

O economista-chefe da acertadora casa carioca, que administra R$ 35 bilhões, projeta dólar a R$ 4,20 e juro em 8% em 2019, mas sofre com incerteza quanto às reformas

6 de outubro de 2018
6:40 - atualizado às 13:12
Beny Parnes, economista-chefe da gestora carioca SPX: "O regime vai mudar. Me parece que os candidatos estão propondo mudanças radicais de regime, para o bem ou para o mal". - Imagem: Divulgação

O inglês tem uma expressão que, na visão de Beny Parnes, o economista-chefe da SPX, explica a valorização de ativos de risco brasileiros que marcou a semana pré-eleição: wishful thinking. Não há tradução perfeita, mas ela se refere ao desejo de acreditar. Ou seja, para ele, os investidores estariam se iludindo ao apostar na capacidade do futuro presidente de consertar a economia brasileira.

"O mercado adora acreditar", disse para mim o homem que fundamenta a forma como são investidos R$ 35 bilhões. Ele está na ponta oposta. "Não tenho otimismo com o Brasil, sou muito cético".

Eu, do meu computador, em São Paulo, vi Beny na sala da SPX no Rio, com um quadro do Pão de Açúcar ao fundo, desenhar um cenário nada doce para o país. Ou, no mínimo, bastante enigmático: "O regime vai mudar. Me parece que os candidatos estão propondo mudanças radicais de regime, para o bem ou para o mal".

Enquanto a imagem dele para um governo Fernando Haddad é sem dúvida a pior – com contornos de catástrofe – mesmo a para Bolsonaro tem riscos a serem levados em conta, principalmente de sua capacidade de articulação política.

Dos nomes de peso do mercado, a equipe tem sem dúvida o discurso mais pessimista. A imagem ganhou força com a notícia, em junho, de que o renomado gestor Rogério Xavier disse em uma rara aparição pública, em evento para investidores, que o dólar poderia chegar a R$ 5,30. As atenções se voltaram para essa que era, na verdade, a projeção para estresse na matriz de probabilidades da casa. O cenário base era de R$ 4, bem antes de a moeda bater esse patamar. A projeção do economista-chefe hoje está perto disso: que o dólar feche 2018 em R$ 4,10 e 2019 em R$ 4,20.

Os juros , por sua vez, devem chegar a 8% no ano que vem, segundo o que Beny gosta de chamar do laboratório de ciências da SPX – que comete muitos erros, porém todos científicos, brinca. Não duvido, porém o saldo é bastante positivo: o multimercados de maior volatilidade da SPX, o Raptor, rende impressionantes 364% do CDI neste ano. E não é nada atípico: desde o início, em 2010, o ganho é de 308% do CDI.

A SPX, que historicamente tem ganhos expressivos associados aos juros brasileiros, ficou praticamente fora deste mercado ao longo deste ano, preferindo perseguir ganhos lá fora para o seu investidor. E se posicionou para ganhar com a alta dos juros em países desenvolvidos acima do patamar esperado pelo mercado – muito antes de essa se tornar uma estratégia comum nos fundos locais – fazendo bastante dinheiro com ela.

Os fundos da SPX estão fechados há bastante tempo, com poucas aberturas pontuais, que se esgotam em horas (felizmente consegui aproveitar uma delas neste ano).

Depois da semana positiva para os mercados, conversar com Beny, dado o histórico de acerto da SPX, é um banho de água gelada.

Nas poucas aparições públicas que a SPX teve neste ano, vocês destacaram o alto risco de o PT vencer as eleições e os perigos que isso representava do ponto de vista da economia. Recentemente, apesar de claramente preferir o Bolsonaro, o mercado começou a flertar com um Haddad mais pró-mercado. Faz sentido isso?

Qual é o nome do jogo? Descobrir o futuro. Só que o futuro é incerto. Quem tem certeza está errado. E o mercado tem um incentivo a ser mais otimista em geral. Por quê? Porque é muito mais fácil ganhar dinheiro no otimismo. E nós não pensamos assim.

Então o mercado está querendo acreditar que vai ser bom?

O mercado adora acreditar. As pessoas querem acreditar que isso aqui não vai se desmanchar, talvez porque a gente more no Brasil e não no exterior e ganhe dinheiro aqui; talvez porque não tenha se desmanchado com a Dilma, mesmo que tenha tido o impeachment; talvez porque não tenha se desmanchado com o Lula... As pessoas querem acreditar que o Haddad fará um governo moderado. Na SPX a gente pensa um pouco diferente, porque queremos defender o patrimônio do cliente. E o nosso também: quase tudo que a gente ganha está aqui. Então quanto menos viés a gente tiver melhor.

Olhando racionalmente para a economia hoje, um governo PT seria necessariamente muito ruim?

Nós lemos o programa, fizemos o nosso dever de casa e chegamos à conclusão de que o PT significa, do ponto de vista econômico, um risco muito grande para o país. Nós adotamos um modelo de democracia – e não estou criticando a democracia, não sou a favor de nada contra a democracia – que, por meio da Constituição de 88, tentou apagar o nosso legado de má distribuição de renda. Ela implicou uma enorme distribuição de direitos e uma pequena criação de obrigações. Essa constituição resultou em um crescimento monotônico do gasto público de lá até aqui. Primeiro enfrentamos isso com uma inflação incrível, que já tinha começado com os militares. Conseguimos debelar a inflação, em 1994, porque o tecido social não aguentava mais aquilo. Aí o modelo foi financiado um tempo pela privatização e depois pelo aumento da carga tributária.

Esse modelo, do ponto de vista econômico, está completamente esgotado. Temos um problema de longo prazo, que é uma dívida enorme. E um problema de curto prazo, que é uma administração desastrosa de política econômica que começa no segundo mandato do Lula, com erros sequenciais na economia e problemas endêmicos de corrupção.

Essa corrupção é endógena. Não é que veio aqui o capeta e dominou o país. Quanto mais o Estado gastar, mais corrupção você vai ter.

E teve ainda o problema de clivagem de partidos, tornando cada vez mais difícil formar coalizões. Lá no Fernando Henrique, o maior partido tinha 104 cadeiras. O quarto maior, que era o PT, tinha 50. Hoje o maior partido, que é o PT, tem 60 cadeiras. Ou seja, o Congresso se fragmentou completamente.

E aí teve o problema que, na minha opinião, foi a tragédia do Brasil: esse ciclo de commodities, que ao invés de usarmos corretamente, usamos para o mal. Ele deu sobrevida a esse modelo. E ainda teve essa história do pré-sal. O petróleo é um enorme mecanismo de criação de renda econômica, puro lucro. Então, na hora que você encontra esse petróleo, tem um probleminha...

Todo mundo quer essa renda...

Isso vai gerar um fluxo de dividendos, de riqueza, que vai te ajudar a perpetuar no poder. Mas esse troço demora, né? Vai demorar uns 10 a 12 anos pra construir a plataforma, fazer a prospeção – isso são três ciclos eleitorais. Aí os caras pensaram: como é que eu antecipo essa renda? Eles tiveram uma ideia genial, do mal: criar uma indústria exclusivamente nacional de equipamentos de petróleo a preços muito superiores do que no mercado internacional. Aí entra a corrupção. Eles conseguiram um mecanismo engenhoso de conseguir renda logo. Este é o petrolão. E com isso eles conseguiram ficar aí por um tempão.

Mas tem espaço para isso continuar?

Esse modelo de crescimento de gastos contínuos, clivagem dos partidos, pré-sal, perpetuação no poder... arruinou o país. Você ainda conseguia manter alguma sanidade fiscal primeiro às custas da inflação, depois de privatização e depois de aumento da carga tributária. Enquanto você teve boom de commodities, aí teve boom de crescimento. Depois que esse troço arrefeceu, quando acabou a renda que se achava que era permanente, o país ficou na mão com um nível de gastos lá em cima, capital encalhado, péssima alocação de capital. E em recessão. Obviamente. E agora está aí uma dívida enorme, ameaçadora.

O modelo político que está aí, de presidencialismo de coalizão, da forma que está colocado, não está conseguindo dar conta do recado. E o Brasil não está conseguindo crescer. Aí tivemos o Temer, que conseguiu fazer coisas extraordinárias do ponto de vista de reforma – não sei como. E chegamos agora a essa escolha, da qual nós não sabemos nada. O país está no escuro, podendo tomar dois rumos completamente diferentes.

E nenhum dos dois rumos te anima?

Eu não tenho a menor ideia. Para um deles eu até tenho muita convicção do que vai acontecer, que é o Haddad. Acho que ninguém vai dar o benefício da dúvida. Ele vai começar de uma desvantagem enorme, com desconfiança dos mercados e um problema institucional muito sério.

Agora, você, que estava na transição FHC/Lula, como diretor de Assuntos Internacionais do BC, e acompanhou tudo de camarote, não acha que pode acontecer exatamente o mesmo agora? O mercado não pode acabar comprando o PT? Tem essa história do Meirelles ser presidente do BC do Haddad...

Eu não sei prever o futuro, não sei o que se passa na cabeça das pessoas. Eu não vejo dessa forma. Naquela época tinha o lema: a esperança venceu o medo. Eu não tinha nada contra o PT, tanto que me dispus a trabalhar e fiz amigos. Saí porque já tinha cumprido o meu papel. Só que hoje você olha o PT e ele está envolvido no maior escândalo de corrupção do Brasil. Acho um problema institucional seríssimo. Como é que um partido desse, se eleito, vai encaixar os anseios da população pelo fim da corrupção? Houve uma judicialização da política e da economia. Não sou cientista político, mas meu cheiro é que haverá um desencaixe institucional muito grande entre o sistema judiciário, os anseios do povo e um governo de um partido que está associado a corrupção. Não é uma situação trivial.

Mas, do ponto de vista econômico, colocar o Meirelles resolveria?

Tem a experiência do Levy por outro lado, né?

Que não durou muito, né?

Não é uma questão do ministro da Fazenda, é uma questão do entorno do ministro da Fazenda. Não existe Pólis que funcione se não houver um consenso em torno da Pólis: isso aí nós já aprendemos.

Se não houver um consenso em torno da necessidade de implementação de política econômica, não vai funcionar. O consenso tem que começar no partido.É óbvio que, às vezes, quando você tem uma crise, cria-se o consenso em torno porque ninguém quer morrer. Mas às vezes morre...

Então essa ideia de que, de alguma forma, tudo vai se resolver, na sua opinião, é errada?

Isso é wishful thinking. Primeiro você tem que achar um nome que está disposto a correr nessa equipe de Fórmula 1. Isso aí não é a Mercedes, nem a Ferrari. Você tem que achar um piloto de primeiríssimo nível disposto. Não sei se tem. As reformas são essenciais. O PT está associado a uma desancoragem fiscal. Dado o tamanho da dívida, a gente não pode se dar ao luxo de ter uma suspeita de desancoragem fiscal. Isso não pode acontecer. Se os mercados desconfiarem de desancoragem fiscal – que é o que está no programa dele – a dinâmica disso aí pode ser muito séria.

Por quê? O juro e o dólar iam disparar...

É daquelas coisas nas quais eu prefiro não pensar. Eu escondo isso dos meus pensamentos.

Mas tem espaço pra calote da dívida? Ou só inflação? Porque esse tem sido um argumento usado até pra investir na NTN-B em vez de no título prefixado: de que no pior dos mundos a inflação te protege...

Eu acho que calote, depois da experiência do Collor, não tem. Mas eu vou arriscar pra quê? Hoje o mundo é aberto, a conta de capitais no Brasil é aberta. Ninguém vai ficar aqui esperando pelo calote, ninguém é bobo. Não estou dizendo que ele vai propor o calote. Tem que passar no Congresso. E não há experiência no mundo de governo que deu calote de dívida interna e ficou. Eu não conheço. Tirando a Venezuela, porque aí é ditadura...

Mas você está ancorando essa dívida hoje com a expectativa de reforma. Se chega um cara e fala: vou acabar com o teto, vou fazer só mexidas pontuais da reforma da previdência... todo mundo sabe fazer a conta. Agora, se você fala: ele não vai fazer nada disso, vai ser moderado... Ele tem que se acertar com o partido dele, não comigo. Ele tem que construir um consenso em torno dessas políticas para dar credibilidade a isso. Aí é questão de avaliar as probabilidades de ele fazê-lo. Eu não acredito. O que eu li até agora da plataforma do candidato Haddad é a receita para o desastre. Eu não tenho otimismo com o Brasil. Sou muito cético.

Acho que calote, depois da experiência do Collor, não tem. Mas eu vou arriscar pra quê? - Imagem: Divulgação

E o Bolsonaro? Dá pra ser mais otimista com ele?

Vamos fazer um governo ideal em um laboratório? É um governo que tenha boa votação, boa articulação política no Congresso, plataforma reformista e que consiga quadros atestados para governar a máquina. Eu acho que nenhum dos candidatos que têm chances de chegar ao segundo turno têm os quatro simultaneamente. Mas talvez seja uma ilusão achar que qualquer candidato vai ter os quatro, concorda? A perfeição só existe do lado de lá do caixão – isso é um ditado americano. Você acha que o PT consegue uma boa articulação no Congresso?

Acho que sim...

Sim. E você acha que ele tem um programa reformista? Acho que não. Você acha que ele vai ter uma boa votação? Acho que não, porque o Haddad não é um líder popular. E quadros para governar? Tenho dúvidas.

O que você chama de quadros é montar uma equipe forte?

Sim.

Sobre o Bolsonaro, acho que ele pode ter uma boa votação e o programa reformista dele é muito bom. As ideias do Paulo Guedes são muito boas. Agora, ele tem capacidade de executar isso no Congresso? Eu não sei.

Aí é a grande dúvida que o mercado tem, com toda a razão. E o mercado tem dúvidas da relação dele com o presidente, que eu sinceramente tenho menos, tá?

Por quê?

Porque essa é uma coisa que dá consistência ao Bolsonaro. O Bolsonaro tem uma personalidade mercurial. Deixa ele se sentar na cadeira. O cara senta lá e muda. Ele pode se sentar lá e delegar. O que é um bom presidente? É um cara que, se está lá, a crise entra no Palácio e sai menor. Ele pode ter uma equipe capaz de fazê-lo. O Paulo é um cara muito brilhante, tem experiência de trabalhar em organizações – ficou anos no Pactual, que é um grande banco. Eu nunca trabalhei com ele, mas fui aluno dele quando eu era estudante universitário. E ele é um professor espetacular. O professor bom marca o aluno e ele me marcou como professor, foi excepcional.

Mas, na sua opinião, pode estar tendo também com o Bolsonaro um wishful thinking, uma vontade do mercado de acreditar?

É normal que haja um wishful thinking do Bolsonaro, dada a alternativa. É normal que o mercado sonhe com o Bolsonaro. Se você executar uma fração da plataforma do Paulo Guedes já é excepcional para o Brasil. Tem que mudar o modelo econômico brasileiro. Essa economia não rende mais.

Agora falando de macroeconomia mesmo...

Isso, vamos ao que eu entendo. Até agora só chutei (risos). Até agora você cruzava bola pra mim e eu chutava de fora da área.

(Risos) Então vamos. A gente viu o dólar voltar a cair nos últimos dias. Qual é afinal o dólar estrutural da economia, considerando os fundamentos? Existe isso?

Não existe dólar estrutural. Isso é uma loucra. Não existe um modelo do câmbio. O modelo mais aceito é de que ele é um passeio aleatório. O que nós fazemos aqui na SPX modestamente é tentar olhar o balanço de pagamentos associado a diferentes taxas de câmbio. Quando você vai estudar câmbio na faculdade, tudo funciona supondo que não haverá bolhas, o que acontece toda hora. O mercado de câmbio tem uma dinâmica própria, porque ele é um preço que cumpre três funções: equilibrar a conta financeira, o mercado de bens e, a mais importante, ele tem que ensinar os economistas e operadores a serem humildes, como diria Milton Friedman. Ele humilha economistas e operadores o tempo todo. Então o que a gente tenta fazer aqui, com bastante esforço, é projetar o que diferentes taxas de câmbio vão representar em termos de balanço de pagamento.

E considerando o que a gente tem hoje em termos de balanço de pagamentos dá para dizer se faz sentido o dólar estar onde está?

Suponha que o resultado das eleições não é satisfatório e o Brasil não obtém mais financiamento externo, vai ter que exportar capitais. Nós brasileiros decidimos começar a mandar dinheiro para fora e não vem mais dinheiro pra dentro: uma hipótese. E a gente tem 3% do PIB de fuga de capitais. Se não formos mexer nas reservas, vamos ter que gerar um superávit em conta corrente adicional de 3%, exportando soja, sei lá. Pra isso, a gente precisaria de um câmbio de R$ 5,30, só pra você ter ideia.

De onde vêm esses 3% do PIB?

A gente fez uma faixa de -1% a 3%. São exercícios, só para ter sensibilidade do bicho. 3% é um cenário de estresse. Por exemplo, para o ano que vem estamos prevendo conta corrente perto de zero, com uma taxa de câmbio de R$ 4,20.

E o juro?

Economia não é engenharia, não é ciência exata, mas vou te falar nossas projeções. Isso aqui é um laboratório. A gente trabalha com base numa política econômica que nós conhecemos, em que as regras são mais ou menos conhecidas. Existe um conjunto de regras na economia sob a qual estamos acostumados a agir. É que nem baralho: tem lá um monte de regras. A gente faz nossas suposições com base nisso. Isso é o que eu chamo de laboratório de ciências da SPX. A gente vai lá, abre a gaiolinha, pega o ratinho branco... hoje em dia isso é politicamente incorreto (risos).

É, ratinho não pode (risos)...

Pega pelo rabinho e dá uma injeção nele. Se o dólar for de tanto, qual vai ser a inflação? Dá injeção no ratinho de dólar a R$ 4,20, remedinho Selic e vê a inflação... Então, fazendo isso, a inflação projetada por nós este ano com o câmbio de R$ 4,10 no final do ano é de 4,5%. Ano que vem, com câmbio de R$ 4,20, dá 4,6% – acima da meta. A nossa projeção mais longa já fica abaixo da meta. O BC sobe o juro para 8%, fazendo um ciclo de 6,5% para 8%.

Chegando a 8% quando?

No ano que vem. Lembrando que isso é um exercício no laboratório, bonitinho... Aí teve um economista, chamado Bob Lucas, que disse o seguinte: economista adora fazer esse tipo de exercício, mas não serve pra nada. Porque quando muda a regra do jogo os agentes econômicos mudam de comportamento. Você começa a injetar muita coisa no rato e ele vira mutante: três orelhas, dois rabos... Se você injetar nele vírus que ele nunca viu – Banco Central com mandato duplo – aquele remedinho que era a Selic, uma Novalgina pra baixar a febre, não é mais pra baixar a febre. Agora tem hormônio de crescimento. Aí você injetou câmbio e cresceram três orelhas e um chifre. Você está inoculando vírus nele – não tem mais teto de gasto – aí o bicho morde o pesquisador, explode o laboratório... Nossa capacidade de prever é zero.

Vocês estão vendo juro de 8% no ano que vem  se não houver excesso de injeções no ratinho. Agora, os títulos públicos pagam 10% para três anos. Qual é o juro estrutural da economia brasileira?

Não existe juro estrutural. A gente aqui é viciado em modelo, investimos muito nisso, tentamos ir até a última camada geológica da análise. Eu brinco aqui que nós cometemos erros incríveis, mas são erros científicos (risos). Vou te dar um exemplo.

Nós fizemos uma conta no final de 2017, supondo que houvesse teto do gasto e alguma reforma da previdência. Qual seria o juro real estrutural do Brasil de curto prazo? Sabe a qual número a gente chegou? Entre 2% e 2,5%.

Mas não veio... Isso vale ainda? Se tiver reforma da previdência...

Não. Só estou te dando um exemplo do que poderia ter sido a economia brasileira. Suponha que a eleição fosse daqui a dois anos, o candidato reformista estivesse na frente, as reformas tivessem sido aprovadas... Hoje o juro real está baixo porque estamos com uma tremenda capacidade ociosa. Estou falando em uma economia de pleno emprego, com o Brasil rodando bem. O juro poderia ser 6,5%, com inflação em 4%, sem capacidade ociosa, com desemprego baixo.

Isso já era...

A gente está com o juro abaixo do de equilíbrio. O Ilan fala isso. A política é estimulativa. Então você me pergunta qual é o juro estrutural brasileiro. Hoje ninguém tem a menor ideia. Olha as NTNs, elas estão dando um palpite. Mas aquilo é uma aposta uma opinião...

Um debate importante para escolher entre a NTN e o título prefixado é se a inflação implícita está exagerada. Te parece exagerada?

Eu não tenho a menor ideia, desculpe falar isso. Eu não sei quem vai ganhar eleição. Não sei se vai ter um ratinho branco no meu laboratório, bonitinho, ou se os caras vão submeter o rato à radiação atômica. Imagina: banco público expandindo o crédito, fim do teto do gasto... O que vai sair dali? Não tenho a menor ideia. O economista que der uma opinião firme sobre isso está dando uma de charlatão, porque ele não sabe. O regime vai mudar. Me parece que os candidatos estão propondo mudanças radicais de regime, para o bem ou para o mal. As coisas vão mudar. A gente pode fazer interpretações, o que não significa absolutamente nada.

Suponha que deu um problema no Brasil, o câmbio vai pra R$ 5 e as expectativas desancoram. E a gente assista, por algum motivo, a um pass-through com a violência que a gente viu lá em 2002, quando as pessoas achavam que ia ter congelamento de preços. Eu não estou dizendo que isso vai acontecer, estou pegando estatisticamente um vírus que deu lá e colocando no ratinho. Sabe de quanto seria a inflação? 8,7%. Só para te mostrar que é muito difícil fazer previsão quando você está perto de uma mudança de regime. Mas nosso cenário base é R$ 4,60.

Política econômica depende de consenso político e consenso político será formado a partir do resultado das eleições. Simples.

Agora, fora do Brasil vocês ganharam muito dinheiro com abertura de juro em países desenvolvidos, já estão falando isso há muito tempo. Lá fora dá pra ter mais convicção do que aqui dentro?

O que a gente está vendo? O mundo vinha crescendo bonitinho, com as economias mundiais sincronizadas. O mundo fez essa mega experiência de expansão de balanço dos bancos centrais. Tem gente que acha que foi loucura, tem gente que acha que não. Eu acho que era a única coisa que tinha pra fazer. Você pode criticar que foi longe demais ou não. Mas, após o erro inicial – crise de 2008/2009 – foi uma guerra de contra-ataque. E foi extremamente bem sucedida. A economia americana é muito flexível e eles já estão saindo desse troço.

O mercado questionou muito se o Fed ia subir o juro e ele está aí subindo. O mercado continua duvidando um pouco, né? O Fed vai subir mais do que o mercado espera?

A gente continua nessa tese de que a economia vai continuar crescendo. Todos os dados têm confirmado a nossa tese de que a economia americana está em um ritmo fortíssimo. Talvez ela desacelere um pouco mais à frente, mas ainda é um ritmo muito forte. Isso é sustentado por condições financeiras ainda muito estimulativas, com um estímulo fiscal muito forte. Nos EUA, em geral, quando você tem desemprego alto, tem expansão fiscal, pra combater o desemprego. E quando a economia entra em recessão tem um estabilizador automático: cai a arrecadação e o gasto do governo é mais ou menos constante. Isso cria um déficit fiscal, que é estimulativo. Isso é uma coincidência que acontece desde a década de 70.

Agora, pela primeira vez, essa correlação mudou. O desemprego está no mínimo e, com a política fiscal do Trump – corte de imposto e aumento de gastos – o déficit aumentou brutalmente. Então, em cenário de desemprego baixo, você foi lá e colocou mais demanda agregada no sistema, via fiscal. Isso causa um impulso adicional na economia americana. A gente calcula esse impulso adicional em em 0,7 ponto percentual do PIB este ano e 0,5 ponto percentual ano que vem.

Outra coisa que aconteceu nos EUA é que, você pode detestar o cara, mas o Trump fez uma coisa que só o Regan fez: diminuir o número de páginas de regulação. E isso está sempre associado com aumento de confiança do empresário e investimento. No curto prazo, isso é mais demanda agregada. E, por outro lado, você tem guerra comercial. As tarifas têm dois efeitos: ao mesmo tempo que podem contrair a economia via confiança, elas são inflacionárias.

Então o resultado do balanço disso tudo é juro para cima?

É juro para cima. O Fed está diminuindo balanço: parando de comprar e vender. E o déficit extra vai causar uma emissão líquida de mais de US$ 1 trilhão de dívida. Então a gente acha que o mercado vai ter que absorver muito mais títulos. Um mercado que absorvia US$ 450 milhões de dívida, vai ter que passar a absorver US$ 1,2 trilhão. A gente acha que tem um monte de impulso para o juro subir. A nossa estimativa é que o juro real neutro do Fed seja em torno de 1%. O cara tem que subir mesmo. E já está subindo. A gente acha que vai continuar subindo, subindo, subindo... Ele não sabe onde vai parar. Ninguém sabe.

Mas é isso. Você sempre acha que o trabalho do gestor, do banqueiro central, do economista, é fácil... É dificílimo. A gente trabalha com um troço chamado incerteza. A verdade é que não dá pra prever o futuro.

Você não conhece as verdadeiras distribuições de probabilidade. Isso aqui é uma briga constante, vamos dizer, com Deus, pra que ele revele isso. Só que ele não fala com a gente, né? (Risos)

É aquela historia: quando você fala com Deus, você está rezando. Quando você acha que ele está falando com você, você está ficando maluco. Então você fica ali o tempo todo tentando descobrir, só que ele não fala com você de volta! Se ele fala, você tá é ficando maluco (risos).

(Risos) Isso deve ser uma ansiedade enorme, né, Beny?

Ah, é! Você fica o tempo todo ali: será que tô certo, será que tô errado? Você consegue acertar algumas frações, mas é muito difícil...

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