A previdência privada mais popular do mundo não funciona no Brasil — e o motivo não é o INSS
Criados para ajustar o risco automaticamente até a aposentadoria, os fundos data-alvo se tornaram padrão no exterior. Por aqui, a desconfiança do brasileiro fala mais alto

Todo investidor que aplica pensando na aposentadoria visa a construir o maior patrimônio possível para poder parar de trabalhar e viver confortavelmente. Mas quando se dá conta do risco que precisaria correr para obter retornos maiores, muitas vezes o investidor fica com o pé atrás.
De modo geral, a lógica dos investimentos diz que, quanto mais longe a aposentadoria, mais risco é possível assumir, de olho numa rentabilidade maior para aumentar o patrimônio. Afinal, os riscos se diluem no tempo, com os diferentes ciclos de mercado.
Quando a aposentadoria se aproxima, o indicado é reduzir ao máximo os riscos para proteger o patrimônio já construído. Simples assim.
No exterior, há um modelo de previdência privada que adota essa lógica de forma automática e é muito popular: os fundos data-alvo.
Nos Estados Unidos, esse tipo de previdência reunia cerca de US$ 4,9 trilhões em patrimônio ao final de 2025, segundo dados do Investment Company Institute (ICI). No Brasil, entretanto, esse modelo não caiu no gosto dos investidores.
Depois de quase 20 anos de mercado, os fundos data-alvo seguem como um nicho dentro da indústria de previdência, que somava R$ 3,2 trilhões em ativos em 2025, considerando os fundos de entidades fechadas e abertas.
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E as razões para isso dizem muito sobre a forma como os brasileiros pensam a própria aposentadoria.
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O que são os fundos data-alvo
Os fundos data-alvo nasceram com uma proposta bastante específica: ajudar o investidor a acumular patrimônio para a aposentadoria sem precisar redesenhar a carteira de investimentos constantemente.
Na prática, o investidor escolhe apenas o ano em que pretende se aposentar. A partir daí, uma metodologia pré-definida assume o controle.
Um fundo com data-alvo em 2050, por exemplo, pode manter participação relevante em bolsa e ativos de crescimento durante os primeiros anos, considerando a primeira aplicação agora, em 2026.
Como serão 24 anos de acumulação e crescimento de patrimônio, há espaço para maior risco, porque há tempo para recuperação.
Com o passar dos anos, conforme a aposentadoria se aproxima, a exposição ao risco diminui gradualmente, conforme a própria metodologia do fundo.
Aos poucos, a carteira passa a privilegiar investimentos mais conservadores, para garantir o dinheiro do investidor no momento que o patrimônio se converter em renda.
Para Bruno Horovitz, sócio e diretor de relações com investidores da Icatu Vanguarda, esse é justamente o principal diferencial desses fundos de previdência.
“Nenhum evento de curto prazo influencia na metodologia. Faça chuva ou faça sol, ano após ano, a alocação do fundo irá seguir a regra de convergência de risco. O modelo não muda porque a bolsa caiu ou porque teve eleição”, afirma Horovitz.
Segundo ele, a lógica é justamente tirar da frente um dos maiores inimigos do investidor de longo prazo: a tentação de mudar de estratégia diante de crises ou momentos de euforia.
O modelo tropicalizado
A Icatu Seguros trouxe o conceito ao Brasil no fim de 2005, após uma parceria com a seguradora norte-americana Hartford. Mas desde o início ficou claro que copiar o modelo norte-americano não seria suficiente.
“Precisava tropicalizar a gestão norte-americana para a realidade brasileira”, diz Horovitz.
A principal diferença estava nos juros.
Durante décadas, investidores norte-americanos conviveram com retornos muito baixos em aplicações conservadoras.
Por lá, depois da crise de 2008, os juros ficaram zerados por anos, de modo que investimentos nos títulos públicos não rendiam praticamente nada. E mesmo os títulos de renda fixa corporativa pagavam muito pouco.
Com isso, mesmo após a aposentadoria, os fundos de previdência precisavam manter uma parcela relevante do patrimônio em ativos de risco — como ações, por exemplo — para conseguir uma rentabilidade acima da inflação.
Mas, no Brasil, a realidade sempre foi outra.
“A renda fixa atrelada aos juros sempre garantiu um ganho acima da inflação significativo”, afirma Horovitz. “Quando a gente olhava para o decaimento de risco dos fundos norte-americanos, via que eles ainda tinham cerca de 30% em bolsa na conversão de aposentadoria em renda. Aqui isso não fazia sentido.”
A seguradora Icatu ajustou a metodologia dos fundos data-alvo brasileiros para serem muito mais conservadores do que seus equivalentes internacionais.
Por aqui, nos anos próximos da data-alvo — em que o patrimônio será convertido em renda —, renda fixa impera.
Mas mesmo a convergência para renda fixa não está sendo conservadora o suficiente para os brasileiros.
Perfil ultraconservador
Com as oscilações de mercado a partir de 2020 — pandemia, guerras, inflação, alta dos juros, eventos de crédito — a Vexty, uma entidade fechada de previdência complementar, notou que os participantes ficaram “ultraconservadores”.
Oscilações de mercado naturais aos títulos públicos e privados, como os papéis do Tesouro Direto e as debêntures, passaram a ser vistos como risco demais.
“Ficamos com a carteira conservadora no limite, as vezes abaixo do CDI para manter o mais conservador possível. Mas os dois lados estavam insatisfeitos”, afirmou Vinicius Narciso, diretor de investimentos da Vexty.
Segundo ele, os ultraconservadores reclamavam que ainda estava arriscado, enquanto os conservadores diziam que dava para apimentar mais para entregar acima do CDI, indicador que acompanha os juros básicos do país e é referência para a renda fixa.
A solução foi, em 2024, criar o perfil ultraconservador.
“É uma carteira focada em pós-fixado atrelados aos juros. O participante está ciente de que o retorno pode ficar abaixo do CDI devido aos custos do fundo, mas ele prefere abrir mão desse retorno para não ter nenhuma volatilidade”, disse Narciso.
Já a carteira conservadora conseguiu expandir um pouco seus horizontes:
- 70% em pós-fixado atrelado aos juros,
- 20% em Tesouro IPCA+ até cinco anos, e
- 10% em renda fixa global sem exposição cambial.
Inicialmente, a Vexty recomendou o perfil ultraconservador para os participantes que já estão recebendo renda ou muito próximos da data-alvo. Mas a principal adesão não veio dessas pessoas: a média de idade dos participantes é de 45 anos.
Ou seja, pessoas que ainda têm duas décadas ou mais pela frente antes de parar de trabalhar e precisar da renda da aposentadoria.
Sem horizonte…
Para a lógica dos fundos data-alvo, esse grupo deveria manter uma exposição mais elevada ao risco para aproveitar o horizonte de longo prazo.
Mas os brasileiros preferem abrir mão de retornos maiores em troca de previsibilidade.
E não só: ao optar pelos fundos conservadores e ultraconservadores, esses participantes não estão aderindo à previdência correspondente à sua data-alvo de aposentadoria.
A Vexty permite que os participantes troquem de fundos duas vezes ao ano.
No lançamento, em janeiro de 2025, o perfil ultraconservador começou com R$ 70 milhões e 43 participantes. Passados 18 meses e três trocas, o fundo atingiu R$ 208 milhões e 217 participantes.
Para Narciso, o brasileiro tem dificuldade com a visão de longo prazo que faz parte da metodologia dos fundos data-alvo. A necessidade de segurança e o instinto protetor em relação ao dinheiro falam muito mais alto.
“É muito difícil encontrar investidores que consigam ter uma visão de longo prazo e entender que as oscilações momentâneas se recuperam com o passar do tempo. O participante prefere ganhar menos agora, mas saber exatamente quanto vai ganhar", diz o diretor da Vexty.
E a previdência de entidades fechadas ainda conta com a vantagem da alocação mensal garantida, porque é aquela concedida pelas empresas como benefício trabalhista. O funcionário tem o desconto em folha, e a empresa complementa o valor.
No caso da previdência aberta, de fundos como PGBL e VGBL, Horovitz diz que muitos investidores olham para os fundos data-alvo como se fossem fundos de ações ou multimercados.
“Eles entram após períodos de boa performance da bolsa e saem quando os resultados decepcionam. Não entendem que se trata de um fundo de previdência”, diz o sócio da Icatu Vanguarda.
A casa trabalha com os dois modelos de previdência, aberta e fechada. Os que têm participantes mais regulares e alinhados ao modelo data-alvo, segundo Horovitz, são funcionários de empresas multinacionais que fazem campanha de educação financeira.
Mas ainda assim, muitos optam por previdência “normal”, não a data-alvo.
O retrato da previdência brasileira
Os números da Anbima ajudam a dimensionar esse comportamento.
Enquanto os fundos data-alvo somavam R$ 12,7 bilhões até 6 de outubro, apenas a categoria de previdência de renda fixa de baixa duração e grau de investimento concentra R$ 466,9 bilhões.
Categorias de renda fixa livre ou pós-fixadas possuem patrimônio dezenas de vezes superior ao dos fundos data-alvo. E a Anbima reúne apenas os dados das entidades abertas, ou seja, fundos PGBL e VGBL.
Para Horovitz, os brasileiros não usam a previdência privada para a construção da aposentadoria.
No caso de entidades fechadas, trata-se de um benefício trabalhista que ajuda a guardar dinheiro. Já as entidades abertas são vistas, pela maioria, como uma categoria de fundo de investimento normal ou para planejamento sucessório (especificamente o VGBL).
Quando o objetivo principal deixa de ser a acumulação de patrimônio ao longo de décadas para uma renda futura, o apelo dos fundos data-alvo diminui.
Para Narciso, o crescimento do perfil ultraconservador ajuda a explicar por que os fundos data-alvo seguem como nicho no Brasil mesmo após quase duas décadas de mercado. O desafio não está apenas na estrutura dos produtos, mas na relação dos investidores com o risco.
Trata-se muito mais da dificuldade de convencer o investidor a pensar em horizontes de 20 ou 30 anos quando o desconforto com as oscilações é concreto no curto prazo.
“No final, ainda que não seja o propósito da metodologia de data-alvo, é melhor ele ficar alocado em um perfil ultraconservador rentável do que ficar ansioso procurando uma saída a cada seis meses", diz.
SD EXPLICA
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