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Liberland aposta em blockchain para criar um país digital onde influência política depende da contribuição financeira em tokens

No Brasil e em muitos outros países, comprar votos ou obter vantagens políticas por meio de pagamentos é crime. Em Liberland, uma micronação incrustada entre a Sérvia e a Croácia, a lógica é outra: quanto maior a contribuição financeira de um cidadão, maior sua influência política.
Financiado por bilionários do mundo cripto, o projeto foi criado com a promessa de transformar Liberland em um país libertário e digital, administrado por blockchain, a mesma tecnologia que sustenta as criptomoedas. A ideia é que o próprio governo possa ser substituído.
Na prática, as contribuições são recompensadas com um token chamado Liberland Merit. Segundo o presidente da micronação, Vít Jedlička, "quem têm mais Merits consegue ter mais influência sobre quem fará parte da liderança".
O modelo lembra o voto censitário adotado em parte do Ocidente entre os séculos XVIII e XIX, quando renda e patrimônio determinavam o peso político dos cidadãos. Em Liberland, a riqueza é medida pela quantidade de tokens acumulados.
Liberland já acumula mais de uma década de existência, ao menos no papel. Segundo dados do site de Liberland, a micronação tem 1.295 cidadãos registrados e 812.284 solicitações de cidadania.
O território de apenas 7 quilômetros quadrados parece ter sido escolhido a dedo pelos idealizadores da micronação. Ele se situa em uma área da disputada fronteira entre Sérvia e Croácia que não é reivindicada por Belgrado e é considerada sérvio por Zagreb.
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Na prática, porém, trata-se apenas de uma estreita faixa alagadiça às margens do rio Danúbio, marcada por árvores, barracas e algumas construções improvisadas.
A paisagem contrasta com o futuro imaginado pelos idealizadores. Uma versão digital de Liberland, assinada pelo escritório ZHA, da arquiteta Zaha Hadid, exibe arranha-céus reluzentes, parques flutuantes e estruturas futuristas.

Já o acesso é feito por barco. Isso porque a Croácia restringe a chegada ao território e a Sérvia não mantém nenhuma infraestrutura próxima que viabilize o acesso por terra.
Além disso, nenhum país reconhece a existência de Liberland. O máximo que a micronação autoproclamada em 2015 dispõe é de diálogo ou laços informais com outros territórios autônomos, como a Somalilândia.
As polêmicas em torno de Liberland vão muito além da ausência de reconhecimento externo e da possibilidade de comprar influência no governo.
O ministro do Interior, Ivan Pernar, ex-deputado croata expulso do Parlamento por espalhar teorias da conspiração, defende a aplicação de um rigoroso “filtro” para a concessão de cidadania.
De acordo com ele, pessoas favoráveis às finanças descentralizadas costumam vir das classes mais altas.
Em uma entrevista recente à BBC, Pernar não parou por aí. Ele declarou que, se houvesse "um monte de vagabundos no país sem nada", outras pessoas teriam de contribuir para seus benefícios. Em seguida, afirmou: "Não alimente os animais, porque, se fizer isso, eles se acostumarão e perderão a capacidade de se alimentar sozinhos. O mesmo acontece com as pessoas".
O ministro disse ainda que, sem qualquer seleção das pessoas que chegassem de barco, o lugar acabaria como o Reino Unido — o que, segundo ele, “não é desejável”.
Os organizadores acreditam que esse projeto poderá sair das telas graças ao apoio de cerca de 30 bilionários. Entre eles está Justin Sun, fundador da blockchain Tron, cuja fortuna é estimada em US$ 8,5 bilhões pela Forbes.
Sun ocupa o cargo de primeiro-ministro da micronação e se tornou um dos principais patrocinadores da iniciativa, que também funciona para ele como um laboratório.
O empresário já declarou acreditar que o conceito tradicional de Estado-nação pode se tornar obsoleto e ser substituído por sistemas baseados em blockchain, exatamente como propõe Liberland.
A micronação, porém, não é um caso isolado.
Projetos como Prospera, em Honduras, iniciativas ligadas ao Seasteading Institute, apoiado por Peter Thiel, e a chamada Draper Nation, idealizada pelo investidor Tim Draper, compartilham a mesma visão: criar comunidades digitais ou semiautônomas com regras próprias e forte dependência da tecnologia blockchain.
*Sob supervisão de Ricardo Gozzi.
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