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Manual clássico de liderança ganha nova edição acompanhada da correspondência que revela um autor humanizando, a construção do pensamento e até um Maquiavel com “papo de boteco”
Poucos livros são tão conhecidos por uma fórmula concisa – embora errônea – de seus conteúdos quanto O Príncipe de Nicolau Maquiavel. Sempre que se fala n’O Príncipe, evoca-se a súmula clássica que diz “os fins justificam os meios”, junto do terrível adjetivo “maquiavélico”, associado à astúcia, à falta de escrúpulos e ao diabólico.
A tradição inglesa consegue ser ainda mais cruel, usando seu nome como apelido para o diabo, Old Nick – o velho Nicolau. No fundo, sentimos nesses usos a força do pensamento de Maquiavel. Para compreender seu poder basta notar que não é o autor quem é chamado de diabólico, mas o próprio diabo que é dito maquiavélico.
O fato é que essa associação foi promovida pela Igreja como resposta ao pensador que buscava desvencilhar a virtude de um governante da moral cristã, inaugurando uma nova forma de pensamento baseado na verdade efetiva das coisas, uma forma de realismo político.
Percebe-se também que Maquiavel tropeçou em algo que poderíamos chamar de “leis do poder”. Descontextualizado, O Príncipe funciona muito bem como um manual de sobrevivência e conquista no mundo corporativo. O grande problema é que O Príncipe não é um livro exatamente fácil. Ele é, afinal de contas, um tratado de ciência política de quinhentos anos recheado de referências históricas.
É comum que editoras ofereçam um “diferencial” em suas edições d’O Príncipe, geralmente um convidado especial para o prefácio. A edição da Editora Fósforo vai além desse diferencial convencional: o clássico é publicado no meio da correspondência de Maquiavel com Francesco Guicciardini e Vettori, dois de seus amigos mais próximos quando o assunto era política, revelando o contexto e o processo de construção desse pensamento.

O Príncipe, que ocupa cerca de vinte por cento dessa nova edição, mais parece um brinde no meio da correspondência que ilumina os contornos do mundo onde o tratado foi composto. Além de serem divertidíssimas, as cartas revelam o homem por trás do mito e ainda ensinam a como ler o tratado.
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O Seu Dinheiro conversou com Emanuel França de Brito, professor de língua e literatura italiana na UFF e tradutor da mais nova edição de O Príncipe – e correspondência completa com F. Vettori e F. Guicciardini (Fósforo, R$ 99,90).
Emanuel: N’O Príncipe, o tratado em si, eu fui um pouco mais conservador, porque esse era o registro da linguagem dele, então fui mais conservador com a sintaxe. Já nas cartas, tentei amaciar uma sintaxe muitas vezes dura, regulando isso com o tom dele. Quando o tom e o português me permitiam, eu amaciei.
Emanuel: A ideia era essa, buscar o tom certo. Acho que a coisa mais difícil quando a gente traduz é acertar o tom, se é de escárnio, se é de sacanagem, se é muito elevado. A carta 42, por exemplo, a última da primeira fase com Vettori, começa com um soneto e depois passa para uma linguagem de boteco, quando Maquiavel diz que é o tesão que é o que move o mundo, independente do que os filósofos digam. Mas em seguida ele diz “limpe a garganta”, agora a gente vai falar de coisa séria.
Emanuel: Sim. Maquiavel tinha essa postura de saber aproveitar a vida. Dá para ver nas cartas que ele é um cara que sabe beber, sabe comer e sabe amar. Nas primeiras cartas com o Guicciardini, por exemplo, ele conta que está hospedado numa casa e fala “eu estou comendo por seis cachorros e três lobos aqui”. Estava tirando a barriga da miséria, ao mesmo tempo em que diz que iria retribuir quando tivesse a oportunidade. É um cara que viveu e deixou muita reflexão produzida.

Emanuel: Algumas traduções conceituadas optam por manter o termo italiano “virtù”. Maquiavel, por outro lado, atribui a ele um sentido de saber agir conforme as exigências do momento, independente do sentido que a moral cristã lhe atribui como herança da cultura latina. O fato é que Maquiavel usa só uma palavra para isso tudo. Há uma diferença de conceito e não de termo, o resto é interpretação. Então eu traduzo virtù sempre como “virtude”, sem manter o termo italiano, nem mesmo quando soava fora do campo moral cristão.
Emanuel: Não sou propriamente um estudioso de Maquiavel. Sempre o li com cuidado, mas foi a primeira vez que escrevi sobre ele e através dele. Então, para evitar equívocos, chamei uma das pessoas que mais se debruça sobre a obra de Maquiavel há pelo menos 25 anos, a Flávia Benevenuto. A Flávia é uma pessoa muito gabaritada, que não só fez a revisão técnica, como também escreveu o posfácio sobre a questão da virtude.
Me senti muito confortável em traduzir Maquiavel poeticamente, quando isso era exigido, e nisso existe um primor na língua dele. E foi indispensável ter a Flávia no projeto, que chamou a minha atenção para termos-chave com que não dava para brincar. Tivemos uma preocupação filológica muito grande para que fosse uma edição bem aceita para quem estuda Maquiavel no Brasil.
Emanuel: Acho que tem diversas maneiras de pensar essa resposta. Maquiavel é uma grande mente que se forma numa sequência de intelectuais muito importantes do século 15. Eles nos trazem uma clareza sobre uma nova posição do homem na Terra: não mais como apenas fruto da criação divina, mas quase como um segundo criador, o que nos dá poder e responsabilidades. E isso nos aproxima mais desses caras hoje, 500 anos depois deles, do que eles mesmos daqueles que estiveram 100, 200 anos antes deles.
Assim, eu diria que é importante ler Maquiavel hoje para que, no mínimo, a gente pense sobre as pessoas que nos governam. Mas é mais que isso. Como nós, ele vive num mundo que está desmoronando, desabando, e ao mesmo tempo, em que uma nova forma de ver o mundo está nascendo – como em quase todos os tempos, aliás, mas com ruptura mais intensa algumas vezes.
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O Príncipe e correspondência completa com F. Vettori e F. Guicciardini com apresentação, tradução e notas de Emanuel França de Brito e posfácio de Flávia Benevenuto chega às livrarias em dez de novembro.
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