De Galípolo para Haddad: a carta do presidente do BC ao ministro da Fazenda deixa alerta sobre inflação
Embora Galípolo tenha reforçado o compromisso com a convergência, foi o que ele não disse que chamou atenção

O envio de cartas pode até parecer coisa de quem resiste ao mundo digital, mas elas ainda estão na moda entre as autoridades. O problema é que o conteúdo nem sempre agrada. Depois de Donald Trump anunciar por carta a tarifa de 50% sobre os produtos brasileiros, nesta quinta-feira (10) foi a vez do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo — e a questão aqui foi o que ele não disse.
Em carta sobre o descumprimento da meta de inflação endereçada ao ministro Fernando Haddad, Galípolo não crava um prazo para que o índice de preços ao consumidor amplo (IPCA) acumulado em 12 meses retorne ao centro da meta, de 3%.
Tão de praxe como a carta entre a Fazenda e o BC foi o reforço de Galípolo ao compromisso de promover a convergência no horizonte relevante da política monetária.
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“O compromisso do Banco Central é com a meta de inflação de 3%, e suas decisões são pautadas para que este objetivo seja atingido no horizonte relevante de política monetária”, diz Galípolo na carta.
"O Banco Central se manterá atento à evolução das pressões inflacionárias e não hesitará em tomar medidas adicionais, caso julgue apropriado", acrescenta.
Galípolo atribuiu o descumprimento da meta de inflação à atividade econômica aquecida, às expectativas de inflação desancoradas, à inércia inflacionária e à depreciação cambial.
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O BC destaca que o Produto Interno Bruto (PIB) teve um crescimento significativo no início do ano, puxado pela agropecuária, e que os indicadores de mercado de trabalho e utilização da capacidade instalada mostraram mais força do que se esperava.
"Destaque-se que a manutenção da desancoragem por período prolongado tende a tornar as expectativas mais sensíveis a choques de curto prazo, pressionar a dinâmica de preços e salários e aumentar o repasse cambial para preços", diz o BC.
Sobre a inércia, a autarquia diz que a inflação de preços livres passada criou uma pressão corrente de custos em preços de bens e serviços usados em insumos e em mecanismos indexados.
Já os efeitos defasados da depreciação cambial ao longo de 2024 ainda tiveram impacto no IPCA este ano, o que explica a contribuição da inflação importada, segundo o BC. Outros fatores contribuíram para baixo, como a queda de 9,9% dos preços de alimentos in natura.
A primeira carta, a gente nunca esquece
Esta é a primeira carta escrita no regime de meta de inflação contínua, que passou a valer este ano. Segundo a nova regra, o cumprimento do alvo é apurado com base na inflação acumulada em 12 meses: se a taxa ficar acima ou abaixo do intervalo de tolerância por seis meses consecutivos, considera-se que o BC perdeu a meta.
Nesta quinta-feira (9), o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informou que a inflação acumulada em 12 meses medida pelo IPCA atingiu 5,35% em junho — 0,85 ponto porcentual acima do teto da meta.
Na carta, o BC informa apenas que prevê que a inflação desacelere fique abaixo do teto de 4,5% no fim do primeiro trimestre de 2026.
A estimativa está em linha com as projeções divulgadas no Relatório de Política Monetária (RPM) do segundo trimestre, que apontam para um IPCA de 4,9% no acumulado de 12 meses até dezembro deste ano, e de 4,2% no fim do primeiro trimestre do ano que vem.
Vale lembrar que essa é a primeira carta do novo regime de metas, mas é a segunda escrita por Galípolo, que assumiu o BC em janeiro. Ele é o primeiro presidente da autoridade monetária a assinar dois documentos do tipo em seis meses.
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Inflação fora da meta
Na carta, o Banco Central diz ainda que vai reforçar a comunicação sempre que o IPCA ficar acima da meta.
Segundo a autoridade monetária, esse reforço vale para as razões do descumprimento, as medidas adotadas e a evolução do cenário de convergência.
"O Banco Central divulgará nova carta, caso a inflação não retorne ao intervalo de tolerância no horizonte esperado ou considere necessário atualizar as medidas ou o prazo esperado para o retorno da inflação ao intervalo", diz.
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