A derrota de Milei: um tropeço local que não apaga o projeto nacional
Fora da região metropolitana de Buenos Aires, o governo de Milei pode encontrar terreno mais favorável e conquistar resultados que atenuem a derrota provincial. Ainda assim, a trajetória dos ativos argentinos permanece vinculada ao desfecho das eleições de outubro.

Tenho acompanhado de perto a corrida eleitoral para as legislativas de meio de mandato na Argentina, marcadas para outubro, e é inegável que o pleito carrega potencial para redefinir tanto o rumo político quanto o econômico do país.
Mais do que uma simples votação intermediária, trata-se de um verdadeiro teste de apoio à chamada “terapia de choque” fiscal do presidente Javier Milei. Ao mesmo tempo, representa a chance de ampliar de forma decisiva a presença de sua legenda, La Libertad Avanza (LLA), no Congresso.
A meta é clara: conquistar ao menos um terço das cadeiras, o que garantiria ao governo poder de veto contra iniciativas que possam minar sua agenda de reformas — tributária, trabalhista e previdenciária. Ainda assim, mesmo em caso de vitória expressiva, Milei não escapará da necessidade de negociar com alas mais moderadas da oposição, dado que a política argentina segue marcada por forte fragmentação.
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Nesse cenário, a fragilidade da Unión por la Patria — principal força peronista, ainda majoritária no Congresso, mas profundamente dividida por disputas internas e por uma crise de liderança — acaba funcionando como um trunfo para o governo.
O capital político de Milei e o mercado
As últimas semanas de campanha, no entanto, foram dominadas por turbulências que ameaçam corroer o capital político de Milei. O vazamento de uma gravação que supostamente implicaria Karina Milei, irmã do presidente, em um esquema de propinas envolvendo a Agência Nacional de Deficiência (Andis), desencadeou uma investigação federal e trouxe desgaste adicional à imagem do governo.
O episódio é particularmente delicado porque colide diretamente com a bandeira anticorrupção que foi central em sua eleição de 2023. O timing tampouco poderia ser pior: às vésperas da eleição de outubro, o escândalo ameaça eclipsar conquistas recentes que vinham sendo exibidas como vitórias do governo, como a desaceleração da inflação e o avanço no equilíbrio das contas públicas.
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O impacto já se fez sentir na prática: a eleição legislativa na Província de Buenos Aires resultou em um revés contundente para a LLA, que obteve apenas 33,8% dos votos, contra 47% conquistados pelo bloco peronista-kirchnerista. O resultado frustrou expectativas de uma disputa mais equilibrada — as pesquisas apontavam diferença de até 5 pontos percentuais — e expôs as fragilidades políticas de Milei.

O resultado eleitoral ampliou as incertezas quanto à capacidade de Milei de manter coesão política e sustentar apoio nas eleições nacionais de outubro, especialmente após o desgaste provocado pelo escândalo envolvendo sua irmã, episódio que corroeu parte relevante de seu capital político.
O impacto foi imediato nos mercados: a taxa de câmbio saltou de ARS 1.370 para ARS 1.430 logo após a divulgação, refletindo um ambiente financeiro já fragilizado, no qual a desvalorização do peso se combina ao risco de uma nova aceleração inflacionária. Na dinâmica atual, o câmbio caminha para ultrapassar a banda superior de tolerância definida pelo Banco Central, o que reforça a percepção de vulnerabilidade.
Diante desse quadro, a expectativa é de que as autoridades priorizem a estabilidade cambial como peça central na gestão do período pré-eleitoral. Esse esforço provavelmente exigirá uma combinação de medidas, passando tanto por um maior rigor na política monetária — com taxas de juros mais elevadas para conter pressões inflacionárias e sustentar o peso — quanto por intervenções diretas no câmbio.
O desafio, contudo, é calibrar esse mix de instrumentos sem sufocar ainda mais a atividade econômica, já enfraquecida, e sem comprometer a narrativa de disciplina fiscal e monetária que o governo busca defender perante os agentes de mercado.

Assim, ainda que Milei insista em reafirmar seu compromisso com disciplina fiscal, política monetária restritiva e manutenção do atual regime cambial, o revés político recente amplia o prêmio de risco e sinaliza obstáculos mais profundos para a aprovação de sua agenda de reformas após outubro — agenda que, vale destacar, ainda exige avanços significativos em diversas frentes estruturais.
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O termômetro da disputa eleitoral
A derrota eleitoral não altera de imediato a governabilidade, já que se tratou de uma disputa restrita ao legislativo provincial. No entanto, o episódio assume caráter simbólico importante, funcionando como um termômetro da disputa nacional que se aproxima.
A Província de Buenos Aires, que concentra cerca de 40% do eleitorado argentino e tradicionalmente se inclina ao peronismo, era vista como uma oportunidade para Milei demonstrar capacidade de reverter tendências históricas e consolidar sua base política. O resultado, contudo, reforça o grau de dificuldade do desafio.
Embora as pesquisas nacionais ainda indiquem Milei competitivo, o episódio serve como um choque de realidade: a corrida até outubro tende a ser marcada por incertezas, volatilidade e embates intensos. Há espaço tanto para a consolidação de sua liderança e fortalecimento de sua agenda quanto para o risco de erosão de apoio e enfraquecimento político. O quadro atual mostra que Milei ainda mantém vantagem, mas tem perdido terreno, refletindo uma disputa mais aberta do que parecia.

Apesar do revés recente, o cenário eleitoral argentino segue em aberto. Fora da região metropolitana de Buenos Aires — tradicional reduto do peronismo —, o governo de Milei pode encontrar terreno mais favorável e conquistar resultados que atenuem a derrota provincial. Ainda assim, a trajetória dos ativos argentinos permanece estreitamente vinculada ao desfecho das eleições de outubro.
O comportamento do mercado dependerá não apenas do resultado das urnas, mas, sobretudo, da capacidade do governo de recalibrar sua estratégia econômica e política de forma convincente, transmitindo confiança a investidores e agentes locais. Em última instância, será essa habilidade de ajuste que determinará se a recente turbulência eleitoral se traduz em mera oscilação temporária ou em um entrave mais profundo à recuperação sustentada dos preços dos ativos no país.
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