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Camille Lima

Camille Lima

Repórter de bancos e empresas no Seu Dinheiro. Jornalista formada pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), em 2025 foi eleita como uma das 50 jornalistas mais admiradas da imprensa de Economia, Negócios e Finanças do Brasil. Já passou pela redação do TradeMap.

CANETA “EMAGRECEDORA”

“Febre do Ozempic” faz farmacêutica Novo Nordisk virar estrela da bolsa. Vale a pena investir nas ações ou existem ‘efeitos colaterais’?

As ações da Novo Nordisk já se valorizaram 78% ao longo dos últimos 12 meses. Mas ainda há espaço para novos ganhos? Confira na reportagem a seguir

Camille Lima
Camille Lima
11 de outubro de 2023
6:45 - atualizado às 18:28
Novo Nordisk, fabricante do Ozempic, a "caneta do emagrecimento"
Novo Nordisk, fabricante do Ozempic - Imagem: Getty Images/Canva/Divulgação/Montagem Seu Dinheiro

Uma fabricante de medicamentos para diabetes dinamarquesa colocou em xeque a liderança da LVMH, um dos maiores conglomerados de luxo do mundo, na lista de empresas mais valiosas da Europa. A Novo Nordisk roubou os holofotes neste ano — e tudo graças à “joia da coroa farmacêutica”: o Ozempic.

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Por um século, a empresa se dedicou inteiramente à fabricação de remédios para diabetes e insulina. Mas o nome do laboratório recentemente foi parar nos perfis de influenciadores nas redes sociais depois que medicamentos como o Ozempic e o Wegovy passaram a ser usados como uma espécie de “fórmula mágica” do emagrecimento.

Desde então, a empresa passou por uma verdadeira explosão de vendas, que se refletiu nos resultados — além, é claro, nas ações da Novo Nordisk. A companhia é listada na bolsa de valores da Dinamarca, mas também possui recibos de ações (ADRs) em Nova York, que dispararam 78% em dólar ao longo dos últimos 12 meses. 

Com isso, a farmacêutica dinamarquesa atingiu um valor de mercado de aproximadamente US$ 405,9 bilhões, se tornando a empresa aberta mais valiosa da Europa, na frente do conglomerado de Bernard Arnault, atualmente avaliado em US$ 376,2 bilhões.

O crescimento da farmacêutica Novo Nordisk é tão forte que está remodelando a economia da Dinamarca. O valor de mercado da Novo ultrapassou o tamanho de toda a economia dinamarquesa, cujo PIB (Produto Interno Bruto) é atualmente estimado em US$ 395 bilhões.

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De antemão, já aviso: se você veio em busca de alguma indicação do Ozempic para perda de peso ou para outras questões de saúde, a recomendação segue uma só. Converse com o seu médico.

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Mas se você pensa em “engordar” a sua carteira com os papéis da Novo Nordisk e está inseguro se vale a pena, se a “febre do Ozempic” pode acabar rápido ou se existem “efeitos colaterais” para o investidor que aplicar nos papéis, é só continuar a leitura.

Para esta reportagem, eu conversei com Enzo Pacheco, analista de equity research da Empiricus, Mariana Campos, analista de equity research da Kinea Investimentos, e com William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue.

Quem é a Novo Nordisk, dona do Ozempic

Desde a criação, em 1923, a Novo Nordisk teve como foco o combate à diabetes. Inicialmente, a atuação da farmacêutica consistia na produção de insulina na Dinamarca. 

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O próprio Ozempic foi lançado em 2017 para o tratamento da doença, enquanto o Wegovy foi desenvolvido alguns anos depois para agir contra a obesidade. Basicamente, as medicações possuem o mesmo princípio ativo, a semaglutida, mas em doses diferentes. 

Além de ajudar no controle do nível de açúcar no sangue, os remédios à base de semaglutida auxiliam na regulação do apetite e aumentam a saciedade, o que gera uma perda de peso considerável.

Por esse “efeito secundário”, os medicamentos vêm sendo usados de forma “off label” — isto é, fora das recomendações da bula — por quem busca emagrecer.

Com a “febre do Ozempic”, o lucro líquido da Novo Nordisk aumentou 43% no primeiro semestre de 2023 em comparação com o mesmo período do ano anterior. 

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As vendas cresceram 29% no mesmo período, sendo que somente a venda dos dois medicamentos “antiobesidade” dispararam 157% em igual intervalo. 

Mesmo com o salto de dois dígitos, os analistas dizem que a empresa ainda tem muito a crescer. A projeção é que a companhia dinamarquesa venda cerca de US$ 15 bilhões ao ano com o Ozempic e o Wegovy em 2027, segundo analistas da FactSet.

Uma amostra desse potencial aconteceu em agosto deste ano, quando as ações da Novo Nordisk dispararam mais de 17% em um só pregão, impulsionadas pelas expectativas com o balanço trimestral da farmacêutica.

Na época, a empresa dinamarquesa ainda divulgou um estudo que mostrou que o Wegovy causou uma diminuição de 20% no risco de eventos cardiovasculares em pacientes adultos com obesidade ou sobrepeso que utilizaram a medicação. 

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O mercado do Ozempic

Ainda que a disparada das vendas do Ozempic e do Wegovy seja robusta, ela é considerada pequena quando comparada ao total de prescrições, que chegou a 9 milhões nos últimos três meses de 2022 — um aumento de 300% em menos de três anos.

Isso porque, após resultados positivos em estudos recentes, os médicos passaram a prescrever os remédios da Novo Nordisk de forma acelerada. Acontece que as vendas não são compatíveis com esse nível de demanda, porque falta capacidade de fabricação. 

Em termos mais claros: há tanta gente querendo comprar as “canetas emagrecedoras” que a farmacêutica não dá conta de produzir a quantidade necessária da medicação.

“Esse medicamento é muito caro, e mesmo assim, a demanda é tanta que a fábrica está precisando correr para produzir esses medicamentos”, afirma Mariana Campos, analista da Kinea Investimentos.

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A tese da gestora ligada ao Itaú, que está comprada nas ações da Novo Nordisk, é que o verdadeiro trunfo da farmacêutica vai além do aumento nas receitas com a prescrição do Ozempic para a obesidade. Existe um universo ainda maior de pessoas que estão insatisfeitas com os próprios corpos e podem recorrer ao medicamento como uma espécie de “dieta facilitada”.

Hoje, os indivíduos obesos e as pessoas insatisfeitas com a própria aparência são os maiores consumidores do Ozempic — e, se seguir o ritmo atual, essa “população” deve chegar ao patamar de 3 bilhões de pessoas em 2030, nas projeções da Kinea.

“A gente acredita que a ação tem espaço para crescer mais porque achamos que o mercado parece não estar levando em conta o quanto esses medicamentos estão sendo procurados. Com maior capacidade e potencial para a empresa conseguir vender, ela pode ser mais valorizada”, afirma a analista da Kinea.

A missão da Novo Nordisk agora é construir novas fábricas para conseguir suprir a demanda, em um processo consideravelmente lento. Normalmente, uma fábrica demora cerca de dois anos para ser concluída e aprovada.

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Novos concorrentes do Ozempic

Se a dificuldade em aumentar a capacidade de produção é um “bom problema”, por outro lado, a Novo Nordisk lida com um grande risco: a crescente concorrência.

Atualmente, diversas empresas estão investindo em pesquisa e produção na tentativa de abocanhar parte do mercado de “canetas emagrecedoras”.

Mas é importante ressaltar que, ainda que o risco de competição seja relevante, esses novos medicamentos devem demorar pelo menos três anos para sair.

Além disso, a própria Novo Nordisk já está desenvolvendo um novo remédio na linha do Ozempic e do Wegovy.

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Há ainda um risco comum a empresas de biotecnologia: a possibilidade de encontrar efeitos colaterais novos.

“É preciso colocar na balança os riscos e benefícios das medicações, e sempre há a chance de o órgão responsável pela aprovação de medicamentos revisar a recomendação dos remédios. Ele pode, por exemplo, revogar o uso irrestrito que existe atualmente”, afirma Enzo Pacheco, analista da Empiricus.

Ainda vale a pena investir nas ações da Novo Nordisk?

Na visão dos analistas com quem conversei, é incontestável que a Novo Nordisk é uma empresa sólida e consolidada no mercado de diabetes e obesidade. 

Porém, quando o assunto é investimento, preço é fundamental — e, para os especialistas, boa parte da valorização potencial das ações já ficou para trás.

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Mesmo a Kinea, que está posicionada nas ações da dona do Ozempic e ainda vê espaço para novas altas, “vê a relação de risco/retorno um pouco pior agora” do que há alguns meses, quando começou a investir nos papéis.

Já para William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, existe uma dificuldade de encontrar maior potencial de valorização no atual patamar das ações.

“Essa alta recente fez com que a ação negociasse no maior patamar de múltiplo da relação preço/lucro dos últimos 10 anos. Para que a ação continue se valorizando acima disso, ela teria que continuar conseguindo surpreender o mercado, o que eu acho bastante desconfortável.”

Nos cálculos de Castro Alves, a ação deveria corrigir pelo menos 10% para baixo do patamar atual para “começar a se tornar um pouco mais interessante”.

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“Muitas vezes, um bom negócio não necessariamente é um bom investimento. No caso da Novo Nordisk, a este preço, eu entendo que esse é um excelente negócio, mas não necessariamente me parece um bom investimento.”

Como posso investir na Novo Nordisk?

Hoje basicamente existem três formas de virar “sócio” da fabricante do Ozempic.

A primeira delas é investir na ação no exterior por meio de uma corretora internacional. O caminho mais indicado nesse caso é a compra do ADR da Novo Nordisk na Bolsa de Nova York, negociado com o ticker NVO.

Mas você também pode investir na Novo Nordisk sem sair da bolsa brasileira. Atualmente, a dona do Ozempic possui BDRs listados na B3 sob o ticker N1VO34.

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Porém, vale ressaltar que a liquidez dos BDRs costuma ser menor do que a das ações propriamente ditas. 

“O principal risco de você investir em BDRs é que, na maioria das vezes, o preço na B3 não reflete o que está acontecendo com ação lá fora”, destaca Enzo Pacheco, da Empiricus.

A terceira opção é investir em ETFs (fundos de índice, em português), que replicam algum índice da bolsa de valores e investem em uma cesta de ações. Desse modo, você pode se expor a outros nomes do setor além da Novo Nordisk.

Nesse sentido, há tanto opções de ETFs ligados ao setor de biotecnologia inteiro quanto outros focados inteiramente no setor farmacêutico.

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O Health Care Select Sector SPDR Fund (XLV) é um dos mais tradicionais e oferece a exposição não somente a farmacêuticas, mas a empresas de biotecnologia, de planos de saúde, a um grande espectro de saúde em geral.

Já o VanEck Pharmaceutical ETF (PPH) e o iShares US Pharmaceuticals ETF (IHE) são dois ETFs focados em farmacêuticas.

*Com informações de The New York Times e CNBC.

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