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Podemos usar o ChatGPT como um aliado para melhorar o que produzimos? E como ficam os processos de seleção com a inteligência artificial?
São Paulo, 19 de fevereiro de 2023. Datar este texto é fundamental, porque talvez no momento em que você estiver lendo, as minhas reflexões podem estar bem desatualizadas. Afinal, falar do ChatGPT, que está em pleno desenvolvimento e evolução exponencial, é tarefa ingrata para qualquer um que se aventure a escrever a respeito.
Mas, vamos lá nos aventurar nesse exercício, porque sinto que a leitura deste texto no futuro será bem divertida, como uma pessoa que tentou explicar como o mecanismo de busca do Google mudaria nossos comportamentos, quando estava sendo disponibilizada pela primeira vez.
Eu tenho certeza que, mesmo na análise mais otimista, a pessoa não chegou nem perto de alcançar metade das mudanças que a ferramenta geraria em nossa sociedade.
Se você vem acompanhando as notícias desde o final do ano passado, muito provavelmente deve ter sido atingido pelo tsunamni de reportagens sobre o ChatGPT. O Seu Dinheiro, inclusive, foi um dos primeiros a tratar do tema.
Se ainda não ouviu falar, deixa eu trazer um pouco de contexto.
O ChatGPT é um algoritmo baseado em inteligência artificial. Ele é uma criação do OpenAI, um laboratório de pesquisas em inteligência artificial dos Estados Unidos.
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O nome é uma abreviação para “Generative Pre-Trained Transformer”, que em tradução livre significa “Transformador pré-treinado generativo”.
Na prática, o chat consegue estabelecer uma conversa com o usuário a partir do processamento de um banco de dados imenso.
Ele captura informações dos textos disponíveis na internet (artigos acadêmicos, sites de notícias, entre outros) e seu funcionamento parte da premissa de identificar e decodificar palavras e termos, interagindo por meio de texto com os usuários.
Nesse sentido, como o algoritmo foi construído a partir de milhares de exemplos de uma linguagem mais natural e humanizada, a sensação ao interagir com ele é como se o usuário estivesse conversando com um oráculo.
É uma atividade que gera um turbilhão de reflexões e sensações — de "é só mais uma ferramenta" a "caraca, aonde vamos chegar com isso?".
Embora a ferramenta seja oferecida em inglês, é possível conversar com a plataforma em português. O uso é gratuito, mas o chat está com capacidade máxima atualmente.
Mas caso você tenha ficado curioso e não consiga acessar o ChatGPT, já existem vários concorrentes disponíveis - Chatsonic, Character AI, YouChat, entre outros.
Se você já é leitor(a) do Seu Dinheiro, provavelmente já deve conhecer o nosso editor-chefe, o Vinícius Pinheiro. Ao pensar no tema da coluna deste mês, fui logo consultá-lo sobre o que achava disso e como ele via o uso do chat nos processos de RH.
Eu já tinha acompanhado algumas discussões sobre como o ChatGPT poderia "roubar" empregos de jornalistas e produtores de conteúdos no geral, e já estava esperando uma reação do tipo: "não quero nem falar sobre esse robozinho maldito que está tentando acabar com o nosso trabalho".
Brincadeiras à parte, eu queria saber do nosso editor se ele já tinha parado para pensar sobre o próximo eventual processo seletivo para alguma posição na empresa.
Até hoje, sempre aplicamos uma redação em uma das etapas da seleção, como forma de conhecer o texto do candidato. Mas isso poderia ser feito de casa e a pessoa candidata à vaga tinha alguns dias para produção. Ou seja, zero vigilância da nossa parte sobre a forma como a pessoa faria o texto.
"Vini, eu imagino que você continuará pedindo uma redação no processo. E aí, vamos passar a pedir para o candidato fazer presencialmente essa etapa, de forma que a gente consiga garantir que a pessoa não use ferramentas como o ChatGPT?"
A resposta foi categórica: não precisamos alterar o formato. Continuaremos acreditando na boa fé dos candidatos.
Música para os meus ouvidos. Eu compartilho da mesma visão do nosso editor. Alguns de vocês talvez estejam retorcendo na cadeira agora. Eu também ando bem inquieto com as discussões acerca do tema. É muita pergunta para pouca resposta ainda. Mas, no espírito do beta permanente, compartilho a seguir algumas reflexões que tenho feito.
Tal como usamos o Google para nos ajudar na produção de um texto, por que não usar a inteligência artificial como uma aliada para melhorar o que produzimos?
O problema e também desafio é que temos usuários bem distintos aqui.
De um lado, pessoas que têm uma certa noção sobre redação poderão usar o ChatGPT como mais uma ferramenta para produção, seja para melhorar o que foi escrito, resumir um texto, traduzir ou mesmo pesquisar. Ou seja, essa pessoa já tem a competência da escrita e, portanto, provavelmente terá o discernimento no uso do chat.
Quando perguntei ao Vinicius sobre o formato do processo seletivo foi exatamente nessa persona que ele pensou. Uma pessoa que sabe escrever e, portanto, fará uso da tecnologia como apoio.
Entretanto, há do outro lado pessoas que não têm a competência de comunicação escrita e que farão uso da ferramenta. Essa ausência de conhecimento mínimo de redação torna o chat como um substituto no processo de criação.
Ou seja, é um cenário em que a pessoa está totalmente dependente e a mercê do que uma inteligência artificial produz. Sem senso crítico para avaliar se o que foi produzido faz algum sentido.
Essa temática sempre volta à tona quando uma nova tecnologia surge. Era assim na revolução industrial e foi assim a cada nova invenção. A única certeza que temos é que novas profissões surgem ao longo do tempo e outras deixam de fazer sentido.
Com o advento de ferramentas de linguagem generativa como o ChatGPT não será diferente. Algumas atividades operacionais básicas podem ser otimizadas por essa tecnologia, tal como funções que produzem conteúdos muito simples e que não demandam nenhuma reflexão ou ponderação.
E aqui faço um gancho com uma das discussões mais quentes do momento que é o uso da inteligência artificial no ambiente escolar. Inclusive algumas instituições já proibiram o uso oficialmente.
A minha sensação é de que a discussão está deslocada do aspecto factual de que a inteligência artificial já é uma realidade e talvez estejamos lutando contra algo que não deixará de existir. O foco deveria ser: o que nós humanos podemos agregar de valor e gerar de fato reflexão.
É preciso reconhecer que atividades como produção de um resumo, sumarização de artigos, tradução de alguns textos e outras tarefas não reflexivas podem ser de fato otimizadas. O que pode e precisa mudar é a forma como avaliamos as pessoas.
Você só será substituído pela IA se deixar de aprender e ficar obsoleto em seu campo de atuação.
Em tempos de burnout, engatilhado muitas vezes por excesso de trabalho, talvez a IA seja um bom remédio.
Afinal, o ChatGPT pode otimizar várias funções operacionais que desempenhamos hoje.
Eu, por exemplo, adoro aquelas sugestões de textos prontos nas respostas de e-mail (eu uso solução Google). Ele indica uma resposta pronta a partir do conteúdo recebido.
Parece uma coisa pequena, mas imagina essa pequena otimização sendo feita em escala. É um tempo que sobra para investirmos em outras atividades que realmente precisam da nossa capacidade de reflexão e articulação.
Sabemos que o burnout é causado por outras patologias organizacionais, como as relações tóxicas que existem com as lideranças ou, por exemplo, a produtividade levada ao extremo.
Mas se a inteligência artificial tem o potencial de eliminar atividades operacionais que causam grandes volumes de trabalho, talvez valha celebrar pelo menos a possibilidade desse ganho de otimização e agilidade.
Um exemplo prático para a realidade no trabalho: imagine que você precisa mandar um e-mail para o seu chefe, mas sente que o texto ainda não está bom. Neste caso, usar o ChatGPT pode dar uma mãozinha para chegar a uma versão melhor antes do envio da mensagem.
Se a IA potencializa a capacidade de processamento, ela não consegue reproduzir nosso maior diferencial humano que são as emoções.
Usando a definição de que emoção é predisposição para a ação, quando vamos escrever um texto, imprimiremos nele também o nosso sentir. Além disso, uma produção textual carrega elementos da nossa experiência, anedotas que somente nós seremos capazes de expressar. Um texto tem alma. E é isso que também nos distingue das máquinas.
E volto aqui ao meu ponto de sempre: precisamos investir em nosso autoconhecimento. Afinal, para explorar o melhor da nossa capacidade de sentir é necessário aprender a reconhecer e gerir nossas emoções. Colocá-las a nosso favor em todas as interações e formas de produzir.
Uma discussão já amplamente feita entre os profissionais de recursos humanos é sobre o uso de algoritmos e como eles podem enviesar as nossas escolhas.
Vale lembrar que o banco de dados em que o Chat busca suas referências é embebido de todos os padrões predominantes e, portanto, carrega consigo uma perspectiva sempre enviesada e que reflete uma visão de mundo, em certa medida, excludente.
Portanto, ao usar a ferramenta, precisamos também saber fazer boas perguntas e dar os parâmetros corretos para a pesquisa, mitigando assim o risco de reproduzir pensamentos limitantes e pouco sistêmicos, em que a análise não considere outros aspectos que poderiam nos levar a interpretações muito mais ampliadas sobre o mundo.
Como disse no início do texto, no momento da publicação, talvez nada disso que falei faça mais sentido.
Então meu conselho final, que também vale para mim, é continuar nos esforçando para aprender a interagir da forma mais proveitosa possível com o que a tecnologia tem a nos oferecer, usando-a a favor do desenvolvimento das nossas carreiras.
Até a próxima,
Thiago Veras
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