Desafios e oportunidades: População mundial chega a 8 bilhões de pessoas, mas logo vai começar a diminuir
Os desafios impostos à humanidade são muitos e levantam uma série de questões, mas especialistas asseguram que nem tudo será desgraça e tristeza

O dia 15 de novembro de 2022 marca os 133 anos da proclamação da República no Brasil, mas entrará para a história por outro motivo.
A população global atinge, nesta terça-feira (15), a marca de 8 bilhões de pessoas, informa a Organização das Nações Unidas.
Trata-se de um dado simbólico. Afinal, nunca saberemos com exatidão quantas pessoas estão vivas ao mesmo tempo.
Por ser uma estimativa baseada em projeções estatísticas, é possível que a cifra já tenha sido atingida enquanto este texto era escrito. Ou que venha a ser atingida nas próximas horas ou dias.
Já no ano que vem, segundo as mesmas projeções, a Índia finalmente deverá desbancar a China do posto de país mais populoso do mundo.
Desafios e oportunidades
No entanto, enquanto a população da Terra cresce rapidamente, a taxa de natalidade desacelera. Em algum momento ela vai ficar negativa. E então nossas sociedades encolherão.
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A humanidade muda numa velocidade tamanha que não damos conta de acompanhar tantas mudanças. O certo, porém, é que a vida na Terra será remodelada no decorrer das próximas décadas.
Nunca mais haverá, por exemplo, mais crianças vivas do que há hoje. Também estamos ficando cada vez mais velhos.
Ao mesmo tempo, as cidades continuam em expansão, consumindo terras aráveis à medida que crescem.
Diante disso, precisamos lidar com as consequências - e também com as oportunidades que essa situação deve proporcionar.
Uma breve história da demografia humana
De qualquer modo, para entender o significado disso tudo, precisamos voltar ao princípio.
O Homo sapiens vagou pela Terra por cerca de 300 mil anos, acredita-se. Ninguém sabia contar na época.
O fato é que a população humana cresceu relativamente devagar no início.
Havia talvez 230 milhões de pessoas na Terra quando a antiga civilização egípcia chegou ao fim, há pouco mais de 2 mil anos.
A marca de 1 bilhão de pessoas seria atingida apenas no início do século 19, alguns anos antes de toda a corte portuguesa migrar para o Brasil em 1808 diante do iminente avanço das hordas napoleônicas pela Península Ibérica.
A marca de 2 bilhões foi alcançada em 1925, pouco antes da Grande Depressão.
Até aqui as estimativas eram relativamente grosseiras.
A seguir, precisamos de apenas 35 anos para chegar ao terceiro bilhão.
Desde então, a população humana sobre a Terra tem aumentado em mais um bilhão a cada 10 a 15 anos.
Lá entre 2011 e 2012, quando a população mundial atingiu a marca de 7 bilhões de habitantes, as previsões dos especialistas eram bastante catastrofistas.
Uma década depois, a percepção entre eles é um pouco diferente, mas a preocupação com a capacidade do planeta - e também de cada sociedade - para lidar com as consequências permanece.
Até quantos bilhões a população global pode chegar?
Apesar da queda nos índices de natalidade, a população mundial ainda vai crescer por mais algumas décadas.
As mais recentes projeções da ONU, divulgadas no início de 2022, sugerem que o mundo abrigará cerca de 9,7 bilhões de pessoas em 2050.
“As projeções demográficas são altamente precisas e têm a ver com o fato de que a maioria das pessoas que estarão vivas em 30 anos já nasceu”, diz o diretor da divisão de população da ONU, John Willmoth. “Mas quando você começa a projetar a população daqui a 70 ou 80 anos, a incerteza aumenta.”
No cenário considerado mais provável, a ONU projeta que a população mundial chegará a cerca de 10,4 bilhões na década de 2080.
A partir daí, ela deve se estabilizar por alguns anos, antes de começar a cair na virada do século 22.
Mas há uma boa margem de erro. As atuais estimativas para a população mundial em 2100 oscilam entre 8,9 bilhões e 12,4 bilhões.
Envelhecimento da população é o maior desafio
O ser humano gosta de se concentrar no início da vida - e não no fim.
Não somos bons em falar sobre envelhecimento e morte.
Mas a mudança na demografia mundial transformará nossas sociedades - e não teremos como nos esconder disso.
"Nós já atingimos o pico de crianças no mundo", afirmou a demógrafa Elin Charles-Edwards, da Universidade de Queensland, à emissora pública australiana ABC. “Nunca mais haverá tantas crianças vivas na Terra quanto hoje.”
A taxa de natalidade global atingiu o ápice na década de 1950, quando as mulheres tinham, em média, cinco filhos cada. O número varia dramaticamente de uma região para outra, mas desde então a taxa média global vem caindo de forma consistente.
“Se formos falar em futuros desafios demográficos, o envelhecimento populacional é provavelmente o principal”, diz Willmoth, da ONU.
Algumas das consequências são relativamente óbvias, como a maior demanda por serviços de saúde e assistência a idosos.
Os países com regimes de pensão para idosos financiados pelo governo verão os custos de bem-estar aumentarem.
Isso tende a conduzir em algum momento a um cenário de elevação da carga tributária sobre uma decrescente população economicamente ativa.
Com a diminuição da força de trabalho, a automação deve continuar em crescimento.
Especialistas também chamam a atenção para o desenvolvimento de doenças não transmissíveis e para o replanejamento das cidades, que terão de levar mais e mais em conta as questões de acessibilidade.
Vai faltar comida?
A mais fundamental de todas as questões é a alimentação.
O mais recente relatório de segurança alimentar e nutrição da ONU estima que 828 milhões de pessoas passaram fome em algum grau no mundo em 2021.
Em um mundo que acaba de cruzar a linha dos 8 bilhões de habitantes, estamos falando de mais de 10% da população mundial.
Garantir que a produção de alimentos acompanhe o crescimento populacional e as mudanças climáticas é foco de muito estudo.
Segundo a doutora Rachel Carey, especialista em sistemas alimentares sustentáveis da Universidade de Melbourne, cultivar alimentos em quantidade suficiente não é o maior problema.
“Até hoje, o mundo produziu alimentos suficientes”, afirma ela. “O que vemos é escassez local de alimentos em diferentes momentos. Isso se deve a questões relacionadas às mudanças climáticas, também a conflitos e guerras, mas houve produção suficiente de alimentos em todo o mundo.”
A questão-chave, prossegue ela, está na distribuição dos alimentos e na desigualdade na maneira como isso é feito atualmente.
Os desafios são muitos, mas superáveis
Os desafios impostos à humanidade são muitos e levantam uma série de questões.
Como ficará a vida no planeta? Como ficarão as cidades? Quais serão os efeitos da automação sobre o mundo do trabalho? Com menos bebês haverá menos gente trabalhando. Então como será possível proporcionar uma aposentadoria confortável para todos? Haverá comida para todo mundo? O planeta vai aguentar?
Talvez pareça o início de um livro distópico de ficção científica. Mas especialistas asseguram que nem tudo será desgraça e tristeza.
“Todo mundo está vivendo mais. Menos bebês estão morrendo. Menos mulheres estão morrendo. Em toda uma gama de métricas, estamos nos saindo melhor do que antes. Vimos pequenas ações gerando grandes mudanças para melhor”, diz a doutora Elin Charles-Edwards.
Como a maioria dos problemas globais, entretanto, os impactos serão desiguais e muito vai depender de quanto os países mais ricos estarão dispostos a sacrificar em prol do bem estar em nações menos desenvolvidas.
“As mudanças climáticas são o grande elefante na sala”, diz a demógrafa.
*Com informações da ABC e da ONU.
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