Para a economia crescer mais, é preciso monstrar aos investidores que não haverá desequilíbrio fiscal no futuro, diz Mansueto Almeida, economista-chefe do BTG Pactual
No RadioCash, Mansueto conversou com Felipe Miranda e Jojo Wachsmann sobre a importância do ajuste fiscal, a reforma tributária e os desafios que o Brasil têm pela frente

Depois de turbulentos meses em que a economia pereceu frente à pandemia de COVID-19, parece que há finalmente um respiro para a situação fiscal brasileira. É o que conta Mansueto Almeida, economista-chefe do BTG Pactual e ex-secretário do Tesouro Nacional, no podcast RadioCash, feito pela Empiricus em parceria com a Vitreo.
Na projeção de Mansueto, a relação dívida/PIB deve fechar o ano em 82%, contra os 110% que foram estimados pelos economistas mais pessimistas. Mas apesar do cenário mais favorável, ainda há muito a ser feito. “Para falar que o ajuste fiscal se completou de fato, a gente tem que enxergar o ponto em que o Governo Federal vai economizar o suficiente para colocar a dívida bruta e líquida numa clara trajetória de queda nos próximos anos”, afirma.
Você pode conferir o episódio completo dando play abaixo ou conferir os destaques nos próximos parágrafos:
“O Brasil tem dívida de país rico”
Apesar da projeção otimista para este ano, Mansueto afirma a Felipe Miranda e Jojo Wachsmann que o Brasil está numa trajetória melhor somente se comparado com o cenário de 4 meses atrás. Ainda é baixa a atratividade de capital e de investimentos. “Hoje, quando você conversa com um estrangeiro, ele tem muito medo de investir no Brasil dado ainda um movimento de incerteza”, diz Mansueto.
Os investidores de grande porte costumam olhar o país em um horizonte de médio e longo prazo, por isso, a melhora recente da situação fiscal brasileira não pode ser tida como uma vitória certa. Isto porque o Brasil ainda tem um nível de dívida muito alto, principalmente em comparação com outros países emergentes, que mantêm a dívida em 60% do PIB.
“É normal um país ter dívida, o que não é normal é um país de renda média como o Brasil ter uma dívida tão alta e ainda numa trajetória de crescimento” ‒ Mansueto Almeida, em entrevista ao podcast RadioCash.
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Sendo assim, o ajuste fiscal ainda se faz necessário para colocar a trajetória da dívida em queda. Para Mansueto, “a gente só vai consolidar um crescimento maior, se a gente der confiança pro investidor que o país vai caminhar na direção correta, que não vai ter um desequilíbrio fiscal grande no futuro, que não vai ter rompimentos de contratos, tudo isso.”
Os dois principais entraves do sistema tributário brasileiro
Para Mansueto Almeida, a carga tributária brasileira é muito alta, considerando que o país tem uma renda média. Outros países da América Latina mantêm a arrecadação via impostos em 23% do PIB, enquanto o Brasil arrecada 33% do PIB. Além disso, o sistema de tributação é muito complexo.
“As empresas no Brasil gastam uma quantidade de tempo enorme para simplesmente pagar os impostos. Isso tem que mudar, porque isso é um ônus e tira competitividade da economia brasileira”, afirma o economista.
Um dos desafios do Brasil é, portanto, simplificar o sistema tributário, algo que pode ser feito sem afetar as contas públicas e ainda aumentar a competitividade das empresas brasileiras.
O ex-Secretário Nacional do Tesouro também falou sobre a segunda versão da reforma tributária, que foi apresentada no final de junho: "O que me preocupa na segunda versão é o risco de perder arrecadação”.
Mansueto torce para que as mudanças acabem sendo “neutras”, ou seja, não diminuam nem aumentem a arrecadação. “A gente não tem, infelizmente, espaço para abrir mão da arrecadação no momento. Mas também a gente não deve aumentar a arrecadação, porque a carga tributária do Brasil é muito alta”, resume.
O economista comentou que o Brasil está recuperando os índices de arrecadação esse ano, mas prevê que os números ainda ficarão abaixo daqueles da pré-pandemia.
Ainda sobre a reforma tributária, o economista diz que serão necessárias outras propostas, que terão que ser amplamente discutidas nos próximos governos. Entre os pontos de atenção, ele menciona os impostos indiretos (como ICMS e ISS) e os regimes especiais de tributação.
O papo completo de Mansueto Almeida com Felipe Miranda e Jojo Wachsmann pode ser ouvido aqui ou procurando por RadioCash na sua plataforma de podcasts preferida:
A reforma tributária não é a única reforma necessária no Brasil
“O desafio do país não é só fazer uma reforma e acabou. A gente nunca vai conseguir fazer todas as reformas que o país precisa no período de dois, três, quatro anos. O que importa pro ambiente de investimento é um ciclo contínuo, mesmo que gradual de reformas”, opina Mansueto Almeida.
Para o economista-chefe do BTG, o Brasil ainda precisa realizar uma série de reformas, que incluem facilitar as importações e exportações e aumentar a integração com o resto do mundo para que as empresas brasileiras possam ser cada vez mais produtivas e competitivas.
Além disso, ele também ressalta a importância na melhoria da educação e na redução de desigualdades. O problema, segundo Mansueto, não é a falta de dinheiro para tais objetivos, mas sim a forma como tal dinheiro está sendo usado.
“Apesar do Governo tributar tanto e gastar tanto, a redução de desigualdade é muito pequena, é menos da metade do que acontece num país como a Inglaterra que tem uma carga tributária semelhante ao Brasil. O desafio do Brasil para reduzir desigualdade não é aumentar gastos, é melhorar a composição do gasto, torná-lo mais efetivo”, afirma o economista-chefe do BTG.
No episódio do RadioCash, Mansueto Almeida também falou sobre as diferenças entre trabalhar no setor público e no setor privado, afirmando que os dois lados ainda têm muito o que aprender um com o outro. Confira a entrevista completa clicando no player abaixo:
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