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Os investidores agora viraram virologistas: os impactos da Ômicron sobre os mercados

Ainda não sabemos o bastante para decidir se esta é uma oportunidade de compra, mas parecemos estar mais preparados como sociedade para enfrentar o problema

coronavírus 2020
Imagem: Shutterstock

A recém-descoberta variante do coronavírus B.1.1.529, chamada de Ômicron pela Organização Mundial da Saúde (OMS), deixou os investidores em modo de alerta no final da semana passada, com muitas dúvidas em torno de sua velocidade de contágio, capacidade de causar doenças graves e aptidão de escapar da resposta imunológica de uma infecção ou vacinação anterior.

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A cepa identificada pela primeira vez na África do Sul foi incluída na famigerada lista de "variantes preocupantes" da OMS, gerando novas inquietações de que poderia prolongar ainda mais a pandemia de Covid-19, que hoje já completa quase dois anos. Um dos fatores que chamou atenção do mercado está descrito no gráfico abaixo, que mostra como esta variante está competindo com seus pares.

De acordo com o que os dados mais recentes nos contam, a variante Ômicron tem cerca de 50 mutações, das quais mais de 30 delas estão na proteína “spike”, que permite que o vírus se ligue às células humanas (o que explicaria a imagem acima) – aliás, a própria parte do vírus que primeiro faz contato com nossas células também tem 10 mutações, o que é muito mais do que as duas da variante Delta, já de rápida propagação.

Sintomas incomuns, mas moderados

Contudo, pelo menos por enquanto, o primeiro médico sul-africano a alertar a comunidade científica sobre a Ômicron considerou seus sintomas incomuns, mas moderados.

Para ilustrar, nenhum de seus pacientes apresentou perda de paladar ou olfato, sinais característicos da doença, tendo demonstrado predominantemente apenas dores no corpo e cansaço. Outros cientistas e autoridades de saúde sul-africanos também disseram que não há sinais mais graves.

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O movimento de medo do vírus não foi novidade no mês de novembro. Mesmo antes da variante, o mercado já operava em tom de cautela depois que muitos países europeus começaram a impor novamente as restrições à pandemia em resposta ao aumento dos casos de coronavírus.

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A Áustria entrou em lockdown mais uma vez, a Alemanha flertou com outro bloqueio nacional, enquanto a Bélgica anunciou que iria fechar bares e proibir festas privadas, exceto em casamentos e funerais. Outros países como Holanda, Portugal e França também já estavam testando novas restrições antes da Ômicron.

Retardar o avanço

Agora, porém, o foco está em retardar a disseminação da variante Ômicron, que até agora foi detectada na Austrália, Bélgica, Grã-Bretanha, Canadá, Dinamarca, França, Alemanha, Hong Kong, Israel, Itália, Holanda e na Escócia.

Foi por isso que as companhias aéreas sentiram tanto na última sexta-feira (26), uma vez que mudanças repentinas nas regras de viagens podem atrasar ainda mais o retorno de lucrativas viagens de negócios internacionais.

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Impacto inicial diluído

Bastou os mercados voltarem do fim de semana que as coisas já começaram a se diluir. Houve recuperação, ainda que modesta, em nível global dos ativos. Nota-se que o tom de cuidado ainda prevalece, mas alguns sinais fizeram com que os investidores deixassem de esboçar o mesmo medo verificado no final da semana passada.

Além dos sintomas mais leves, os testes envolvendo o Ômicron já estão em andamento entre os grandes fabricantes, com vários deles dizendo que levaria cerca de duas semanas para estabelecer se a nova variante tornava seus disparos menos eficazes.

Adicionalmente, o ministro da saúde da África do Sul disse que espera que as vacinas atuais ainda ofereçam proteção contra doenças graves e morte por Ômicron, embora possam ser menos eficazes na prevenção de infecções e doenças mais brandas.

Caso isso não aconteça, a Pfizer disse que seriam capazes de adaptar suas vacinas em até seis semanas e enviar os lotes iniciais em no máximo 100 dias.

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Outro fator novo são os medicamentos, dado que o molnupiravir da Pfizer e da Merck visam partes do vírus que não são alteradas no Ômicron e podem ser ainda mais importantes se a imunidade natural e induzida pela vacina estiver ameaçada. Sem falar então nos anticorpos já presentes em boa parte da população depois de uma pandemia deste tamanho como a que vivemos.

O principal é a vacinação

Não poderia deixar de falar do principal. Hoje, o percentual da população mundial que já recebeu pelo menos uma dose da vacina está em 54%, liderada pelos Emirados Árabes Unidos, Cingapura e Chile.

O Brasil não decepciona, com mais de 75% da população com pelo menos uma dose, graças a nossa ampla e crescente cobertura vacinal, inclusive para a população mais jovem. O percentual totalmente imunizado é de 63%, devendo crescer para pelo menos algo próximo de 70% até o fim de 2021.

Cenários possíveis

Nessa dinâmica, o susto de sexta-feira com a Ômicron teria soado como um alarme falso. O banco de investimentos Goldman Sachs, por exemplo, listou três cenários sobre os efeitos da nova variante sobre o crescimento global:

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  1. Negativo: o crescimento global para 22 é reduzido em 0,4%, mas isso volta em 2023;
  2. Neutro ou “alarme falso”: a Ômicron se espalha menos rapidamente do que a Delta e não tem efeitos significativos no crescimento global e na inflação
  3. Positivo: a variante é ligeiramente mais transmissível, mas causa doença muito menos grave, proporcionando uma redução líquida na carga de doenças e propiciando um crescimento global mais alto.

Se o segundo ou o terceiro cenário se materializar, a variante Ômicron pode ser uma oportunidade de compra. Isso porque a forte onda de vendas que atingiu os mercados globais na sexta-feira está diminuindo, com as ações se recuperando na segunda-feira.

Vale ressaltar, entretanto, que ainda não é possível concluir que tudo não foi uma reação exagerada, muito mais instintiva devido à falta de informações disponíveis sobre a nova variante.

Informações ainda são insuficientes

Ainda não sabemos o suficiente para decidir se esta é uma oportunidade de compra. Mesmo assim, entendo que, pelos fatores ilustrados no início do texto, estamos muito mais preparados como sociedade a enfrentar este tipo de problema.

As novas ondas recentes, por exemplo, tanto na Índia como da variante Delta, não foram suficientemente preocupantes para causar um estrago permanente nos mercados. Hoje, a relação entre infecção e hospitalização/fatalidade foi amplamente quebrada, e essa é a grande bola para ativos de risco.

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Ainda assim, precisamos estar preparados para fazer "tudo e qualquer coisa" para combater a variante. Informações mais definitivas estarão disponíveis em cerca de duas semanas, mas é importante observar que outras "variantes preocupantes", como a Beta da África do Sul, a Delta da Índia ou a Gamma do Brasil, ainda serão riscos para 2022. Por isso, é provável que haja volatilidade à medida que mais detalhes sobre a Ômicron surjam.

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