O que o ataque virtual contra a Lojas Renner (LREN3) ensina sobre ser realmente uma empresa tech
Empresa usa uma estrutura de armazenamento de dados mais "tradicional", e a adoção da terceirização oferece mais segurança e tem custo menor

Nesta semana, como se não bastasse a crise política tupiniquim, o investidor brasileiro foi agraciado com a notícia de um ataque hacker nos servidores das Lojas Renner (LREN3).
O episódio ocorrido com essa ação popular entre investidores institucionais acende a luz sobre uma conversa oportuna a respeito de infraestrutura tecnológica.
O ataque foi do tipo “ransomware”, em que hackers inviabilizam o uso dos sistemas da empresa em troca de um resgate financeiro para liberá-los.
No caso da Renner, os programadores invadiram as bases de dados da empresa, criptografaram as informações hospedadas neles e pediram um valor em bitcoin como passe para a liberação. As lojas físicas continuam operando por sistemas de pagamento que estavam de “back-up”, mas o e-commerce ficou inutilizável.
Como é a estrutura mais 'tradicional'
A infraestrutura de dados legada, das empresas mais antigas, é baseada em alguns pilares:
- servidores próprios (armazenados fisicamente pela própria empresa);
- interdependência entre as funcionalidades, de forma que a empresa não consegue desligar uma função sem derrubar todas as outras;
- e pouca preocupação com cyber security.
Isso funcionava quando as capacidades de tecnologia eram restritas aos sistemas de controle interno, como os de gestão de estoque ou vendas.
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Entretanto, com o comércio migrando para o digital, o que implica milhares (ou milhões) de acessos simultâneos a informações de produtos, estoques e preços, essa arquitetura prejudica o andamento dos negócios – quando não inviabiliza.
Explico o porquê.
Com servidores próprios, quando a empresa precisa de memória adicional para armazenamento de dados, ela precisa passar por um processo lento de aumento de capacidade horizontal. Isso porque precisa
- comprar ou alugar máquinas adicionais de armazenamento (os servidores);
- achar espaço físico na empresa para alojá-las em condições adequadas; e
- arcar com o tempo e o custo de instalação.
Além disso, precisa cuidar da garantia de condições adequadas para preservação dessas máquinas, que precisam estar em ambientes resfriados.
Por fim, toda a segurança de dados fica a cargo da própria empresa – que nem sempre tem expertise em tecnologia da informação. Nada mais natural, afinal, cada empresa tem um negócio principal que domina. No caso da Renner, esse negócio é o varejo de vestuário.
A nuvem
Em contraste, a opção por sistemas modernos de TI geralmente envolve a utilização de um outro tipo de armazenamento de dados: a nuvem.
Que, na verdade, também consiste em um conjunto de servidores alojados em um local físico, mas que é provido por um terceiro que cuida de toda a infraestrutura e da segurança – no caso, terceiros que têm a TI como negócio principal.
Estamos falando de empresas como Amazon (com seu Amazon Web Services, ou AWS); Google (Google Cloud Platform, ou GCP); e Microsoft (com sua nuvem Azure), apenas para citar alguns.
São empresas que estão na vanguarda da tecnologia de armazenamento de dados e que inovam constantemente na busca de
- mais armazenamento em menos espaço;
- mais dados por menos custo; e
- segurança das informações.
As instalações que elas têm são impressionantes, como se pode ver no caso do GCP, abaixo.
A beleza dessa estratégia de terceirização, além do óbvio benefício de economia de custos, é que, se a empresa precisar de mais armazenamento, o aumento de capacidade é feito automaticamente (na chamado autoescalagem de armazenamento).
Daí, a empresa paga por armazenamento e processamento de dados à medida que eles são utilizados. O que era, até então, um custo fixo para a empresa, torna-se um gasto que varia com o fluxo de informações demandado.
E, ainda, permite que a companhia ganhe velocidade na oferta de produtos adicionais e, em última instância, no crescimento da sua receita.
Sem falar no benefício intangível (mas muito importante) de liberar recursos e foco para que a empresa se concentre no seu negócio principal – muitas das soluções de nuvem são autogerenciadas.
Não diria que a Renner estaria isenta de ataques caso tivesse seus sistemas em nuvem, mas a vulnerabilidade seria bem menor.
Falando de uma camada adicional de modernização, podemos dizer que uma arquitetura de TI baseada em microsserviços reduz o impacto de ataques desse tipo (não sabemos se esse é o caso de Renner).
Isso porque, quando as funcionalidades são construídas em um único bloco – por simplificação, como se todas as funcionalidades fossem programadas em um software único, ou um só programa – você só consegue inutilizar alguma quando desliga todas ao mesmo tempo.
Portanto, se o hacker invade o servidor da empresa, como foi o caso de Renner, ele consegue inutilizar tudo de uma vez. É como se essa arquitetura fosse um monolito indivisível, que, quando quebrado, explode por completo.
Como funciona isso?
Arquiteturas de TI modernas constroem suas funcionalidades sob a forma de microsserviços.
Para facilitar a compreensão do leitor, dou um exemplo simplificado: é como se a visualização dos produtos do estoque no e-commerce fosse um programa separado do sistema de consulta dos seus preços, que é separado do armazenamento dos dados dos usuários, que por sua vez é separado do programa que calcula as informações de envio – que, por último, roda independente do processamento da compra em si.
Assim, se algo estiver funcionando mal ou for atacado, a empresa desliga somente aquela parte, mantendo o resto em pleno funcionamento. Simplifica o processo de manutenção das várias funcionalidades digitais e minimiza o dano em caso de catástrofes.
Por último, vale dizer que a migração para a nuvem ou para a arquitetura de microsserviços não tira a importância de um time robusto de cyber security.
Mesmo que os dados estejam razoavelmente protegidos na AWS ou no GCP, ou mesmo que a empresa minimize o impacto de ataques por meio dos microsserviços; ainda há um fluxo de dados que ocorre fora da nuvem – por exemplo, entre áreas da mesma empresa, entre empresa e cliente ou empresa e fornecedores (que nem sempre têm seus TIs robustos).
Então, a companhia pode optar por fazer sua própria criptografia de dados, evitando que um hacker invada seus sistemas e faça isso contra ela.
Não estou dizendo que a substituição da arquitetura legada é simples ou fácil. Envolve não só a mudança de (quase todos) os processos de tecnologia da empresa, como também uma inescapável evolução de mentalidade por parte da alta gestão.
Porque, quando a mudança é tão profunda, ela demanda um processo decisório que vem de cima para baixo, com mudança na alocação dos recursos de toda a empresa.
Além disso, pode ter que envolver trocas de time relevantes, para trazer as habilidades necessárias para desenvolver as aplicações em nuvem.
Magalu novamente é exemplo
Todavia, não é impossível. Veja o caso de Magazine Luiza, que optou pelo (árduo) caminho de transformação digital por volta de 2015 e hoje colhe os frutos por meio de um e-commerce de primeira linha – e de acionistas felizes, vide a valorização superior a 2.500% do papel nesse período (gráfico abaixo).

Como você pode ver no gráfico, a jornada é longa. Foram 3 anos até a cotação do papel começar a reagir, após vários trimestres consecutivos de margens pressionadas pelas contratações de desenvolvedores de software (lembra dos microsserviços?), investimentos em treinamento e pesquisa.
Quando a chave virou, de repente uma varejista “old school” se tornou tech. Além dos benefícios operacionais e financeiros para a companhia, o investidor ainda ganhou com o benefício da narrativa “tech”, com toda a expectativa de crescimento que o preço do papel começou a embutir (e entregar).
Por ser tão difícil, não muitas empresas replicaram este feito. Transformação digital bem-feita é ouro. Hoje, enxergo a oportunidade de capturar movimento similar (embora sua magnitude seja sempre imprevisível) em empresas que estão começando o caminho de transformação.
A transformação da Raia Drogasil
Dando nome aos bois, estou pensando em Raia Drogasil (RADL3). Uma varejista de produtos de saúde que, há alguns trimestres, desenhou seu plano de transformação digital.
A visão estratégica envolve posicionar a RD como plataforma que trabalha a serviço da saúde do brasileiro, seja por meio da “nova farmácia”, que faz a venda física ou virtualmente, ou por meio da sua plataforma de serviços de saúde, que conecta prestadores de cuidados primários ao cliente final.
Esse roadmap envolve o rearranjo das equipes de TI na forma de “squads”, ou equipes, que cuidam de um produto ou serviço específico, a troca de lideranças e a adaptação da infraestrutura legada.
Como o leitor provavelmente já desconfia, isso envolve a perda de margem no curto prazo, na busca por um objetivo maior no longo prazo. Essa é uma tese da qual gosto muito, tanto que RADL3 é um dos nomes presentes na carteira Oportunidades ESG.
Em terra de sistema legado, quem fez a transformação digital é rei. E sigo aqui buscando as realezas do futuro.
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