O que o Fiat 147 ensina sobre a pandemia
Reaquecimento da economia se assemelha à partida de um carro a álcool: como e quando injetar a gasolina é a questão-chave.

Um dos primeiros carros de que tenho lembranças é um Fiat 147 branco a etanol, que meu pai comprou quando eu e meus irmãos éramos crianças.
Eu até poderia contar uma bela história de que a memória afetiva vem de todos os momentos felizes nas viagens de carro, com todos cantando a caminho da praia.
[captacao]
Embora tais eventos tenham ocorrido de fato, o carro me marcou de verdade pelos divertidos infortúnios que ele proporcionou: somos uma família de três irmãos.
Minha mãe, gentil desde sempre, constantemente oferecia carona a alguma tia, resultando em quatro pessoas espremidas no banco de trás do minúsculo carro, algumas décadas antes de veículos pequenos estarem na moda.
Poucas vezes houve tanto espaço naquele carro como no momento seguinte que a tia chegava ao seu destino.
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O Fiat 147, entre trancos e barrancos, foi um grande feito da engenharia brasileira, com todas as dificuldades que a criação de um motor a álcool impôs.
Em 1973, houve uma crise do petróleo, com a Organização dos Países Árabes Exportadores de Petróleo interrompendo o fornecimento para todas as nações que apoiavam Israel durante a Guerra do Yom Kippur.
O preço do barril foi de US$ 20 para US$ 55 (a preços de hoje), e como o Brasil importava até 75% do petróleo que utilizava, o governo Médici retomou um projeto iniciado quase 40 anos antes, em 1925 (sim, as coisas já andavam nessa velocidade no país) para usar o etanol como combustível.
Em 14 de novembro de 1975, nascia o Programa Nacional do Álcool, o Proálcool. O Fiat 147 foi o primeiro veículo lançado com motor 100% a álcool, em 1979, e como tinha um consumo bem alto, ganhou o apelido de “cachacinha”.
E assim, por funcionar a etanol, um outro problema frequente lá em casa era ir para a escola pela manhã.
A partida a frio no 147 funcionava da seguinte forma: gira a chave, pisa três vezes de leve no acelerador. O motor começa a vibrar, pisa até a metade do acelerador até que a vibração se estabilize.
Nessa hora, você precisava esperar o carro aquecer, o que deixava um inconfundível cheiro de álcool por toda a garagem. E, claro, se fosse um dia mais frio, ainda precisava apertar o botão para jogar gasolina no motor.
Com a economia gélida por quase quatro meses em razão do Covid-19, as cidades começam a reabrir. E todos os governantes estão se perguntando: onde eu aperto para jogar gasolina no motor e dar a partida?
Como reiniciar a máquina econômica
Se você está intrigado com a reabertura, com as pessoas se aglomerando nos bares quando há ao redor de 1.000 mortos por dia no país, enquanto essas mesmas criaturas chegavam às vias de fato por papel higiênico no começo da pandemia, a razão é a mesma pela qual os brasileiros lidavam com uma hiperinflação de mais de 230% ao ano na década de 1980: o ser humano aprende a conviver com qualquer desafio.
Sem julgamento de mérito aqui: o número diário de mortos passou a ser praticamente uma nota de rodapé, o que é mais uma evidência de que as pessoas pararam de prestar atenção, não porque sejam cruéis ou algo parecido, mas porque precisam seguir adiante.
Com a falta de maior pressão pública, portanto, o caminho que resta a todas as prefeituras é elaborar um plano para o regresso.
É claro que reabrir uma economia é mais complexo do que ligar um carro, especialmente com objetivos que à primeira vista parecem conflitantes: minimizar o número de mortes e maximizar a recuperação econômica.
Adicionalmente, queremos evitar uma segunda onda a qualquer custo, com consequências ainda mais devastadoras, tanto do lado da saúde quanto do lado financeiro.
Não se choque: a conta entre vidas e finanças é realizada constantemente por todos os governos do mundo, ou nenhum veículo (para continuar no tema) teria permissão para andar a mais de 30 km/h, por exemplo.
Do lado da saúde, como ainda não temos um remédio 100% eficaz ou vacina para minimizar o número de mortes, o melhor cenário que podemos almejar é um teste que a pessoa poderia fazer em cinco minutos antes de sair de casa.
Enquanto não temos essa perspectiva, devemos investir bastante em aumentar o número de testes: nesse quesito, hoje o Brasil ocupa a 105ª posição por milhão de habitantes, medindo pouco mais de 2% da população total.
A um custo médio de R$ 98 por exame para a União, testar toda a população brasileira custaria ao redor de R$ 20 bilhões.
Existe a questão operacional de como alcançar esse volume total de pessoas com profissionais hábeis, mas os economistas Steven D. Levitt e Stephen J. Dubner, autores do livro Freakonomics, têm uma boa ideia: usar as farmácias.
Afinal, temos aproximadamente 89 mil farmácias no Brasil e cerca de 221 mil farmacêuticos, que possuem treinamento prévio de como realizar esse tipo de exame.
Além disso, há a questão dos incentivos desalinhados: para quem está sem sintomas, sair de casa para ir a uma farmácia para ser testado aumenta o risco de contrair a doença, o que poderia resultar em poucas pessoas optando pelo deslocamento.
Uma medida possível seria estimular a população com uma loteria, por exemplo, no valor de, digamos, R$ 200 milhões por semana, o tamanho da Mega da Virada.
Assim, enquanto a pessoa testasse negativo para Covid-19, teria direito à um bilhete. Caso o teste fosse positivo, teria direito a R$ 1.000 por semana (por exemplo) para ficar em casa.
O auxílio emergencial, de R$ 600 por mês, foi uma medida neste sentido, mas desconfio que insuficiente para convencer os mais necessitados a não irem para a rua: você tem um agente econômico que busca maximizar sua receita, e o auxílio, como o próprio nome diz, é só uma ajuda, e não uma solução.
Se as providências do lado da saúde parecem caras, você tem razão. Vale acrescentar, de qualquer forma, que o governo estima que apenas o impacto fiscal custará R$ 520 bilhões aos cofres do país este ano. Colocar o programa acima em prática resultaria em apenas uma fração desse valor.
Se isso permitisse reabrir a economia com segurança e antecipadamente, parece que a relação custo-benefício compensa bastante.
Onde colocar gasolina
Se a ideia é realmente estimular a economia, faz sentido injetar capital em setores com maior retorno, para rapidamente fazer o motor girar. Antes, note que a pandemia não teve um efeito homogêneo sobre todos os segmentos.
De acordo com a Carta de Conjuntura do IPEA, os empregos mais afetados pelo Covid-19 estão nos setores de alimentação, alojamento, construção e comércio.
Já os setores de agricultura, serviços para empresas (informação, comunicação e atividades financeiras, imobiliárias, profissionais e administrativas) e administração pública praticamente não foram impactados, tendo em vista que envolvem profissões cujas tarefas podem ser executadas à distância.
Portanto, os estímulos deveriam mirar diferentes setores, porém em diferentes horizontes de tempo.
Você já deve ter adivinhado: os setores que exigem a presença física têm mais urgência, já que foram os mais impactados, tais como bares, hotéis, restaurantes, transportes e correio.
Dado que setores de serviços e comércio respondem por aproximadamente 3/4 do PIB e por 10 milhões de empregos, o foco no curto prazo deveria se concentrar nestes segmentos, pelo menos quando avaliamos o país como um todo.
Dadas as aptidões econômicas de cada estado, o tamanho do país e os diferentes estágios do Covid-19 em cada região, melhor seria se cada governante identificasse as alavancas de emprego e renda e agisse sobre elas.
Ainda no curto prazo, todos os dados indicam que o agronegócio ficou literalmente imune à pandemia, enquanto a queda nos segmentos de hotéis e restaurantes, além de transportes aéreos e agências de viagens, impactou diretamente o setor de turismo.
Entretanto, o turismo é um setor que deve se recuperar no médio prazo: ao contrário das reuniões de trabalho, não é possível se substituir a ida à praia com uma caipirinha geladinha por uma tela de computador.
E antes de ver a movimentação nos bares do Rio de Janeiro, estava mais cauteloso em relação às indústrias que dependem de aglomerações, mas agora pode ser até que mesmo esses setores se recuperem mais rápido, a depender da anuência das autoridades.
Para finalizar, quem vai sair realmente vencedor da pandemia são as empresas de tecnologia e automação, que não somente desempenharam bem na crise, mas ainda tiveram um impulso fortíssimo em razão da necessidade de se acelerar o trabalho à distância.
Tudo indica que a cultura do home office chegou para ficar, o que por sua vez favorece ainda mais a substituição ou realocação da força de trabalho.
Isso é o que indica o estudo da McKinsey de 2017, a maior consultoria estratégica do mundo, que afirma que 50% dos empregos serão automatizados até 2030.
Ou seja, entre 400 e 800 milhões de pessoas podem ter que trocar de emprego, dos quais 75 a 375 milhões necessitariam aprender novas habilidades. No Brasil, esse número está estimado em 15,7 milhões. Sob o prisma atual, é o equivalente a 15 pandemias.
Portanto, para o longo prazo, o dinheiro investido com melhor retorno vai para a capacitação da futura força de trabalho, ou corremos o risco de, em vez de produzir engenheiros capazes de desenvolver carros com um novo tipo de combustível ou mesmo auto dirigíveis, teremos, infelizmente, apenas os motoristas que perderão suas vagas.
E você, se puder, não espere o governo para investir em você mesmo.
Aproveito para indicar a leitura do Livro de um dos maiores gestores do mercado financeiro, "Who Cares?" de Pedro Cerize. Leitura essencial na vida de qualquer investidor, veja aqui.
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