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2020-04-24T17:12:43-03:00
Julia Wiltgen
Julia Wiltgen
Jornalista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) com pós-graduação em Finanças Corporativas e Investment Banking pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Trabalhou com produção de reportagem na TV Globo e foi editora de finanças pessoais de Exame.com, na Editora Abril.
Mercado em pânico

Juros futuros disparam após demissão de Moro, e Tesouro Direto tem negociação suspensa

Taxas incorporam tensões políticas e disparada do dólar, que chegou a passar de R$ 5,70 nesta sexta; Tesouro Direto voltou a operar no fim da tarde

24 de abril de 2020
14:18 - atualizado às 17:12
ação alta
Imagem: Shutterstock

Os juros futuros dispararam nesta sexta-feira (24), como parte da repercussão negativa do mercado ao pedido de demissão do ex-juiz Sérgio Moro do Ministério da Justiça.

Com a alta volatilidade no mercado de juros, as negociações de títulos prefixados e atrelados à inflação no Tesouro Direto chegaram a ficar suspensas durante boa parte do dia, como é de praxe nessas situações. Nesses casos, só é possível negociar na plataforma o título Tesouro Selic (LFT). Sempre que a volatilidade dos juros é muito alta, o Tesouro suspende as negociações, a fim de atualizar os preços e as taxas.

Os contratos de DI com vencimento em janeiro de 2021 fecharam com alta de 11,03%, a 3,12%, depois de terem chegado a subir mais de 20% no início da tarde. Ou seja, o mercado ainda precifica que a Selic, hoje em 3,75%, ainda vai cair mais até o fim do ano, mas em menor intensidade do que antes.

Já os contratos de DI com vencimento em janeiro de 2023 subiram 17,72%, para 5,58%; e os DIs para janeiro de 2027 avançaram 17,67%, para 8,59%.

O mercado precificou a disparada do dólar depois que Moro, um dos ministros mais populares, desembarcou do governo Bolsonaro com um discurso repleto de acusações graves ao presidente. Hoje, a moeda americana subiu 2,40%, a R$ 5,6614, mas chegou a operar acima de R$ 5,70 mais cedo.

Como a alta do dólar pode pressionar a inflação e limitar os cortes nos juros pelo Banco Central, a disparada na moeda tende a levar os juros futuros para cima. Mas, mesmo no longo prazo, o dólar e os juros apontam para cima quando a política sugere um cenário de deterioração fiscal, como está acontecendo no momento.

Acusações graves

Segundo o agora ex-ministro Sergio Moro, ele não assinou a demissão do chefe da Polícia Federal Maurício Valeixo, embora sua assinatura conste no pedido de exoneração publicado no Diário Oficial. Também disse que Bolsonaro teria dito que queria um comandante para PF para o qual pudesse ligar e ter acesso às investigações, num claro indício de tentativa de interferência política no órgão.

As tensões políticas em Brasília vêm pesando sobre a cotação do dólar já há algum tempo, na medida em que podem significar uma interrupção na agenda de reformas econômicas mesmo após a pandemia do coronavírus, bem como uma nova disparada nos gastos públicos, pesando no lado fiscal.

Se as acusações de Moro se provarem verdadeiras, elas poderiam até mesmo ensejar um processo de impeachment do presidente, algo que poderia ser um fator complicador para a situação. Além disso, as demissões de ministros populares sinalizam que nem mesmo o ministro da Economia Paulo Guedes estaria a salvo, e sua saída seria muito mal recebida pelo mercado.

Finalmente, os conflitos entre Executivo e Legislativo, bem como entre membros do próprio poder Executivo, são vistos como obstáculos ao bom endereçamento da crise provocada pela pandemia de coronavírus.

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