O dólar à vista continua estressado nesta quinta-feira (23) e busca novas máximas — e nem mesmo a injeção de recursos por parte do Banco Central (BC) ajuda a trazer alívio à moeda americana.
Por volta de 16h20, a divisa avançava 1,77%, a R$ 5,5042, marcando a sétima alta nas últimas oito sessões — é a primeira vez que a divisa supera o patamar dos R$ 5,50.
O comportamento do mercado doméstico de câmbio chama a atenção porque, no exterior, o dia é de relativa tranquilidade nas negociações de moedas. O dólar apenas flutua ao redor da estabilidade em relação às demais divisas de países emergentes — o real é o ativo que destoa do restante da cesta.
- Eu gravei um vídeo para explicar a dinâmica dos mercados nesta quinta-feira. Veja abaixo:
E mesmo a bolsa brasileira também exibe um viés mais defensivo. O Ibovespa perdeu força e, agora, recua 1,13%, aos 79.777,98 pontos — um desempenho que também contrasta com o visto lá fora, onde o Dow Jones (+0,24%), o S&P 500 (+0,04%) e o Nasdaq (+0,10%) têm altas moderadas.
A pressão vista no câmbio tem se mostrado persistente, resistindo inclusive às atuações do BC. Desde o início do dia, a autoridade monetária já promoveu dois leilões extraordinários de swap, injetando US$ 1 bilhão em recursos novos no sistema — tais operações, contudo, serviram apenas para afastar a moeda das máximas, sem reverter a tendência de alta.
E há uma combinação de fatores desencadeando a corrida à divisa americana. Em primeiro lugar, há a perspectiva de corte mais agressivo na Selic por parte do Copom, que se reunirá no dia 6 de maio — já há quem aposte numa redução de 0,75 ponto na taxa básica de juros, tendo como base as sinalizações emitidas pela própria autoridade monetária.
No momento, as curvas de juros futuros operam em alta, corrigindo parte da forte queda registrada nos últimos dias. Ainda assim, os DIs mais curtos — com vencimento em janeiro de 2021 — seguem sendo negociados abaixo dos 3%, o que evidencia essa aposta de redução forte na Selic ao longo do ano:
- Janeiro/2021: de 2,64% para 2,72%;
- Janeiro/2023: de 4,21% para 4,47%;
- Janeiro/2025: de 5,86% para 6,15%.
Nesse contexto, os agentes financeiros estarão atentos aos passos do presidente do BC, Roberto Campos Neto: ele tem conferências virtuais com o Morgan Stanley e com a Fitch nesta tarde, mas ambos os encontros são fechados à imprensa.
Mas o estresse visto no câmbio não é fruto apenas da perspectiva de corte na Selic. Analistas e operadores mostram-se preocupados com a deterioração no lado fiscal do país — uma percepção que aumentou com o lançamento do programa 'Pró-Brasil' para retomada da economia no pós-crise do coronavírus.
Trata-se de uma iniciativa para impulsionar a atividade no segundo semestre do ano, mas que, segundo apuração do Estadão/Broadcast, poderá se valer de créditos extraordinários que 'driblam' o teto de gastos — um cenário que, naturalmente, inspira cautela ao mercado.
Por fim, uma notícia potencialmente bombástica contribuiu para trazer ainda mais cautela às operações por aqui: segundo a Folha de S. Paulo, o ministro da Justiça, Sergio Moro, pediu demissão após o presidente Jair Bolsonaro comunicar a troca na diretoria-geral da Polícia Federal.
A possível saída de Moro fez o dólar se aproximar dos R$ 5,50 e consolidou o Ibovespa em queda — no pior momento, o índice chegou a cair aos 78.621,92 pontos (-2,56%). No entanto, em meio às incertezas quanto ao futuro do ministro, a bolsa conseguiu se afastar das mínimas.
Petróleo se recupera
O tom mais ameno visto nas bolsas globais se deve, em grande parte, ao novo salto nas cotações do petróleo: o WTI dispara 23,08% e o Brent avança 5,94% — ambos os contratos têm vencimento em junho.
E, em meio à recuperação da commodity, os papéis da Petrobras são diretamente beneficiados: as ações PN (PETR4) sobem 1,07% e as ONs (PETR3) têm alta de 1,46%, sustentando-se no campo positivo mesmo em meio às instabilidades geradas pela possível demissão de Moro.
Os ganhos firmes do petróleo se devem às declarações de autoridades russas quanto à postura da Opep em meio ao colapso nos preços da commodity, afirmando que o corte na produção deve ser de 15 milhões a 20 bilhões de barris por dia em maio — número maior do que os 9,7 milhões divulgados na última reunião do cartel.
Além disso, os investidores também reagem de maneira ligeiramente positiva aos novos dados do mercado de trabalho nos EUA. Na semana encerrada em 18 de abril, foram registrados 4,427 milhões de novos pedidos de seguro-desemprego.
Por mais que o número ainda seja bastante elevado e tenha ficado acima das projeções dos analistas, ele representa uma queda de 810 mil novas solicitações em relação ao resultado da semana anterior — o que, ao menos, serve como alívio para os agentes financeiros.
Ainda na agenda de dados econômicos, os mais recentes números de atividade no mundo geram alguma preocupação: nos EUA, o PMI composto preliminar de abril caiu a 27,4 na mínima da série histórica; na Europa, os indicadores da zona do euro, da Alemanha e do Reino Unido também estão no piso.
Top 5
Veja abaixo os cinco papéis de melhor desempenho do Ibovespa no momento:
CÓDIGO | NOME | PREÇO (R$) | VARIAÇÃO |
IGTA3 | Iguatemi ON | 35,94 | +3,87% |
SUZB3 | Suzano ON | 36,53 | +3,75% |
GOAU4 | Metalúrgica Gerdau PN | 5,36 | +3,68% |
KLBN11 | Klabin units | 17,06 | +3,21% |
CSNA3 | CSN ON | 7,57 | +3,13% |
Confira também as maiores baixas do índice:
CÓDIGO | NOME | PREÇO (R$) | VARIAÇÃO |
IRBR3 | IRB ON | 10,04 | -9,22% |
HYPE3 | Hypera ON | 31,36 | -6,94% |
YDUQ3 | Yduqs ON | 28,94 | -6,04% |
ELET3 | Eletrobras ON | 25,08 | -5,96% |
GNDI3 | NotreDame Intermédica ON | 53,68 | -5,58% |