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O dólar à vista rompeu pela primeira vez o nível de R$ 5,40, pressionado pelas incertezas ligadas ao mercado de petróleo e pela percepção de que mais cortes na Selic estão a caminho. O Ibovespa, no entanto, não foi afetado pela cautela e fechou em alta de mais de 2%
Em 8 de abril, o presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, sinalizou que o real teria se desvalorizado demais em relação ao dólar, dando a entender que a autoridade monetária acompanharia o câmbio de perto — e causando um alívio imediato no mercado de moedas.
Passadas duas semanas, o quadro mudou radicalmente: o aumento da aversão ao risco no exterior, a deterioração da economia global por causa do surto de coronavírus, o novo colapso do petróleo, a turbulência do cenário político doméstico, a potencial queda na Selic — tudo contribuiu para pressionar o dólar.
Tanto é que seis das últimas sete sessões foram de alta da moeda americana, num movimento que culminou na cotação desta quarta-feira (22): ao fim do dia, a divisa avançava 1,90%, a R$ 5,4087 — o novo recorde nominal de fechamento do dólar à vista.
E olha que, no momento de maior tensão, o mercado de câmbio esteve ainda mais pressionado: no meio da tarde, a moeda americana chegou a bater os R$ 5,4147 (+2,01%) — a divisa nunca tinha superado a marca de R$ 5,32. Com o desempenho de hoje, o dólar à vista já acumula ganhos de 3,80% em abril e de 34,45% desde o começo do ano.
Esse estresse todo, no entanto, não contaminou o Ibovespa, que foi ganhando força ao longo do pregão e fechou em alta de 2,17%, aos 80.687,15 pontos. É a primeira vez desde 13 de março que o índice brasileiro termina uma sessão acima dos 80 mil pontos.
A calmaria vista na bolsa se deve ao tom mais positivo visto no exterior: nos Estados Unidos, o Dow Jones subiu 1,99%, o S&P 500 teve ganho de 2,29% e o Nasdaq avançou 2,81%; na Europa, as principais praças também terminaram em alta.
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Tanto a cautela no dólar quanto o otimismo na bolsa possuem relação com o comportamento do petróleo: por um lado, a commodity se recuperou hoje e deu ânimo ao mercado de ações; por outro, a incerteza em relação aos preços do produto segue elevada, o que inspira uma postura mais defensiva por parte dos investidores.
No entanto, o exterior e o petróleo não foram os únicos fatores a influenciar o comportamento dos ativos domésticos: por aqui, uma série de questões contribuiu para trazer pressão extra ao dólar.
Em primeiro lugar, é preciso fazer um rápido resumo dos últimos dias: desde segunda-feira (20), o petróleo tem enfrentado dias turbulentos, com um novo colapso nas cotações por causa da demanda quase nula pela commodity.
Em meio ao surto de coronavírus e à queda drástica no nível de atividade dos países, o consumo de combustíveis e outros derivados do petróleo caiu muito. Nesse cenário, muitas empresas fizeram estoques ao longo de março, aproveitando os preços baixos gerados pelas disputas entre Arábia Saudita e Rússia.
Só que essa combinação de estoques cheios e economia travada implica numa pouca demanda por mais petróleo. Assim, a commodity que já foi extraída não tem destino — quase não há mais capacidade de estocagem no mundo, o que derrubou os preços do WTI e do Brent.
Dito tudo isso, vale lembrar que, ontem, os mercados brasileiros estiveram fechados por causa do feriado do Dia de Tiradentes — e, ontem, tivemos uma sessão bastante negativa no exterior, com as bolsas em queda e o dólar se fortalecendo em escala global.
Assim, era natural que os ativos domésticos passassem por um ajuste nesta quarta-feira, dado o tom negativo visto no dia anterior. E o dólar cumpriu as expectativas: tirou o atraso e subiu forte, destoando das demais divisas de países emergentes, que tiveram um dia relativamente estável na comparação com a moeda americana.
A perspectiva de novos cortes na taxa Selic também cooperou para o salto na moeda americana — juros menores diminuiriam o diferencial em relação às taxas dos EUA, o que, na prática, reduz a atratividade dos investimentos no país.
E, de fato, o dia foi de forte correção negativa no mercado de juros futuros — sinais do BC quanto a possíveis novas baixas na Selic aumentam a percepção de que o ciclo de cortes na taxa básica continuará:
No front local, os investidores continuaram acompanhando de perto as movimentações em Brasília: o clima no cenário político é de profunda deterioração, especialmente após o presidente Jair Bolsonaro ter participado de atos anti-democracia no fim de semana.
Nesse ambiente belicoso, há duas grandes preocupações por parte do mercado: em primeiro lugar, há o temor de uma descoordenação ainda maior nos esforços para combate ao surto de coronavírus, tanto do ponto de vista da saúde pública quanto da economia.
Em segundo, há a percepção de que qualquer pauta defendida pelo governo encontrará oposição ferrenha no Congresso, o que põe em risco a retomada da agenda de reformas econômicas no pós-crise e pode favorecer o avanço de eventuais 'pautas-bomba' na Câmara e no Senado.
Tal cenário acaba trazendo pressão extra ao câmbio, que já busca novos recordes — o que aumenta a pressão sobre o Banco Central e possíveis atuações para conter o avanço descontrolado do dólar à vista.
A autoridade monetária até realizou um leilão de swap no meio da tarde, oferecendo até 10 mil contratos (US$ 500 milhões). No entanto, a oferta não foi integralmente absorvida pelo mercado e pouco contribuiu para trazer alívio à cotação do dólar.
Por que?
Eu disse lá em cima que era natural que os ativos brasileiros passassem por um ajuste, mas o Ibovespa não cumpriu o script. No início do dia, o índice brasileiro até mostrava alguma fraqueza, ficando no zero a zero. No entanto, em pouco tempo ganhou embalo e recuperou os 80 mil pontos — e não devolveu mais.
Por que?
Bem, as bolsas globais tiveram um dia positivo hoje, repercutindo a forte recuperação do petróleo: o WTI com vencimento em junho subiu 19,10%, a US$ 13,78 o barril, enquanto o Brent para junho teve alta de 5,38%, a US$ 20,37.
Há dois pontos a serem observados aqui. Em primeiro lugar, chama a atenção o desempenho muito mais forte do WTI, contrato negociado nos Estados Unidos — e isso se deve às declarações do presidente americano, Donald Trump.
Ontem, ele disse ter orientado secretários a bolarem um plano para disponibilizar fundos para companhias do setor de óleo e gás; Hoje, Trump instruiu a Marinha dos EUA a destruir navios iranianos que ameacem embarcações do país no mar.
A declaração não veio à toa: boa parte dos estoques de petróleo dos EUA é feita em navios-tanque que ficam no mar — assim, Trump insinuou que há uma tensão militar que pode mexer diretamente com o mercado da commodity, provocando um choque nos preços.
Em segundo lugar, é preciso estar atento às cotações de fato do petróleo. Por mais que os ganhos de hoje tenham sido expressivos, o preço do barril segue bastante baixo — há um ano, a commodity era negociada na faixa dos US$ 70.
De qualquer jeito, a injeção de ânimo no petróleo se estendeu às bolsas e fez o Ibovespa ignorar os eventuais ajustes negativos decorrentes do pós-feriado — e boa parte desse efeito se deve ao bom desempenho das ações da Petrobras, que pegaram carona na alta da commodity.
Os papéis PN da estatal (PETR4) — que possuem grande peso na composição do índice — fecharam em alta 5,02%, enquanto os ONs (PETR3) avançaram 3,63%.
Veja abaixo as cinco maiores altas do Ibovespa nesta quarta-feira:
| CÓDIGO | NOME | PREÇO (R$) | VARIAÇÃO |
| BTOW3 | B2W ON | 75,75 | +17,15% |
| VVAR3 | Via Varejo ON | 7,40 | +12,29% |
| LAME4 | Lojas Americanas PN | 25,17 | +9,39% |
| PCAR3 | GPA ON | 70,72 | +8,80% |
| MRFG3 | Marfrig ON | 10,33 | +7,94% |
Confira também as maiores quedas do índice:
| CÓDIGO | NOME | PREÇO (R$) | VARIAÇÃO |
| IRBR3 | IRB ON | 11,06 | -7,29% |
| EMBR3 | Embraer ON | 8,97 | -2,50% |
| SANB11 | Santander Brasil units | 25,34 | -2,35% |
| AZUL4 | Azul PN | 16,31 | -2,22% |
| GOLL4 | Gol PN | 11,90 | -1,41% |
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