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O Ibovespa acumulou ganhos de mais de 4% na semana, sustentado pelo bom humor externo e pelo corte nos juros. Mas, no mercado de câmbio, a cautela falou mais alto: o dólar saltou mais de 5% no período, mostrando preocupação com o cenário político
O tripé corte na Selic, otimismo externo e tensão política no Brasil deu as cartas para os mercados domésticos nesta semana. Uma combinação explosiva e imprevisível — e que gerou reações distintas no Ibovespa e no dólar à vista.
A bolsa, por exemplo, teve um saldo positivo: o Ibovespa fechou o pregão desta sexta-feira (19) em leve alta de 0,46%, aos 96.572,10 pontos e, com isso, acumulou ganhos de 4,07% na semana — um desempenho bastante firme e que leva a crer que os investidores estão otimistas, não?
Bem, nem tanto. No câmbio, os últimos dias foram bastante turbulentos: por mais que o dólar à vista tenha recuado 0,98% hoje, a R$ 5,3180, a divisa americana vinha de uma sequência de sete altas consecutivas. Assim, o alívio de hoje foi insuficiente para reverter o quadro de pressão e, no acumulado da semana, a moeda americana teve um salto de 5,46%.
Esse comportamento não muito comum — em geral, bolsa e dólar não andam na mesma direção — mostra que o mercado enxerga riscos no radar, mas também vê oportunidades interessantes adiante. É uma espécie de encruzilhada: o investidor quer estar posicionado para aproveitar um rali, mas também quer proteger a carteira para o caso de o cenário piorar.
E, de fato, o tripé citado no começo do texto traz informações que, muitas vezes são conflitantes. O exterior, por exemplo, esteve bem humorado com as perspectivas de recuperação da economia americana, muito embora a possibilidade de uma segunda onda do coronavírus não esteja descartada. Um otimismo cauteloso, digamos.
E o que dizer do Copom? Juros baixos estimulam a migração de recursos para a bolsa, dada a queda na rentabilidade dos investimentos em renda fixa. Por outro lado, esse cenário de estímulo monetário só ocorre por causa das fraqueza econômica e das incertezas em relação ao ajuste fiscal — um quadro que nem de longe é animador.
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Quanto às tensões em Brasília... bem, o governo teve uma semana difícil: a prisão de Fabrício Queiroz pode trazer desdobramentos comprometedores à família Bolsonaro — o que, fatalmente, provocaria uma deterioração no cenário político. E, por enquanto, o mercado espera para ver o que poderá acontecer.
O corte de 0,75 ponto na Selic veio em linha com as projeções do mercado — as curvas de juros de curto prazo já precificavam esse movimento. Mas o BC promoveu algumas mudanças em sua comunicação: o Copom deixou a porta aberta para mais uma "redução residual".
Ou seja: uma eventual nova baixa na taxa de juros, se concretizada, será menos intensa — provavelmente de 0,25 ponto. E, considerando as menções à ociosidade da economia e à recuperação lenta do nível de atividade, a perspectiva é de manutenção da Selic em níveis baixos por algum tempo.
Esse é um quadro traz implicações para a bolsa e para o câmbio. A Selic mais baixa diminui a rentabilidade das aplicações em renda fixa, estimulando uma migração de recursos para o mercado de ações, que pode oferecer retornos mais atrativos. Assim, o corte nos juros tende a dar impulso ao Ibovespa e à bolsa.
Por outro lado, a queda na Selic provoca uma redução no chamado "diferencial de juros" entre EUA e Brasil — a subtração entre as taxas brasileira e americana. E, quanto menor esse número, menos atrativas são as aplicações no país para os investidores que buscam retornos fáceis.
Claro, esse é um dinheiro de caráter mais especulativo. Ainda assim, é um montante relevante de moeda estrangeira que deixa de entrar no país — o que diminui a oferta de dólares por aqui e acaba pressionando a taxa de câmbio.
...os investidores seguem assumindo uma postura mais positiva, de olho na recuperação da atividade dos EUA, na reabertura das economias da Europa e numa evolução positiva das relações comerciais entre americanos e chineses.
Claro que esse bom humor só é sustentável porque há uma espécie de escudo protegendo as bolsas globais: a inundação de liquidez proveniente dos governos e bancos centrais, que abriram os cofres para injetar recursos na economia durante a pandemia de coronavírus.
Com tantos estímulos financeiros no mundo todo, boa parte desse dinheiro acaba sendo direcionada às bolsas — e, convenhamos: com recursos de sobra, fica mais fácil enxergar o lado positivo das coisas.
Mas, por mais que o otimismo seja predominante, há fatores de risco que são difíceis de serem desprezados. Em destaque, há o medo em relação a um novo avanço nos casos de coronavírus no mundo — o que, se confirmado, provocaria uma retomada das inciativas de isolamento social e, consequentemente, causaria novos danos à economia global.
De qualquer maneira, a blindagem da liquidez abundante tem servido para manter as bolsas em alta — e, de certa maneira, tem dado um empurrão para o Ibovespa, apesar das tensões domésticas.
Por aqui, o panorama político volta a ganhar papel de destaque, desta vez por causa da prisão de Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador Flavio Bolsonaro — filho do presidente Jair Bolsonaro.
O nome de Queiroz é associado a diversas ilicitudes e, com sua prisão, há o entendimento de que a família Bolosnaro poderá ser diretamente comprometida. E, se de fato os desdobramentos do caso forem nessa direção, a perspectiva é de forte turbulência em Brasília.
Nas últimas semanas, o cenário político passou por alguma estabilização, com os atritos entre governo, Congresso e STF diminuindo um pouco. Mas, com os acontecimentos recentes, não seria surpreendente ver uma nova escalada nessas tensões — e mesmo o apoio que vem sendo costurado pelo governo com o Centrão poderia ser abalado.
Pensando nessa lógica, o mercado automaticamente vê crescer a percepção de risco em relação às reformas e ao ajuste fiscal, já que, num ambiente tão nervoso, as pautas econômicas tendem a serem deixadas de lado — o que, no médio e longo prazo, causaria danos ao nível da atividade brasileira e reduziria a confiabilidade do país no âmbito internacional.
Ao menos nesta semana, a bolsa não se mostrou fortemente abalada pelo noticiário político. O câmbio, no entanto, acusou a pressão: ao verem a potencial deterioração no quadro em Brasília, os investidores correram para a segurança do dólar, buscando algum tipo de 'hedge' para a carteira.
Resta saber se, conforme o caso Queiroz for evoluindo, essa proteção via dólares será suficiente — ou se uma correção na bolsa será necessária para adequar o Ibovespa aos riscos que se desenham no horizonte.
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