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2020-11-26T19:25:33-03:00
Felipe Saturnino
Felipe Saturnino
Graduado em Jornalismo pela USP, passou pelas redações de Bloomberg e Estadão.
fechamento dos mercados

Ibovespa perde ímpeto sem NY, mas consegue fechar em leve alta aos 110 mil pontos

Índice acionário estendeu sequência de altas em sessão de marasmo por liquidez reduzida. Embate entre Guedes e Campos Neto realça questão fiscal, mas juros recuam com leilão do Tesouro

26 de novembro de 2020
18:56 - atualizado às 19:25
Placa indica alta no Ibovespa
Placa indica alta no Ibovespa - Imagem: Shutterstock

O Ibovespa subiu — de novo! —, embora a um ritmo bem menos entusiasmante.

O índice terminou a quinta-feira (26) com uma pequenina variação (abaixo de 0,1%). O desempenho, marginalmente positivo, estendeu a sequência de altas para quatro.

Em um cenário de liquidez baixa (o Ibovespa registrou giro financeiro de R$ 19,7 bilhões) em razão das bolsas de valores fechadas nos Estados Unidos, tendo diminuído as perdas vistas mais cedo a partir das 14h20, o principal índice acionário da B3 encerrou o dia em alta de 0,09%, cotado aos 110.230 pontos — em 18 sessões em novembro, terminou 14 delas no azul.

Foi exatamente por volta desse horário que o índice passou a seguir a redução das perdas e posterior virada das ações da Vale, cujos papéis têm 12% de participação na composição da carteira do Ibovespa.

Vale ON foi a ação mais negociada hoje, movimentando um volume financeiro de R$ 1,2 bilhão, e terminou o dia em alta de 1,1%, em meio ao avanço de 0,8% do minério de ferro da China.

O comportamento do principal índice acionário do Ibovespa refletiu, também, o receio dos investidores em continuarem com o ímpeto comprador após ganhos expressivos visto em novembro — no mês, o índice sobe 17%.

Nesse ambiente com menos recursos disponíveis e uma situação fiscal já delicada, os agentes financeiros também monitoraram um novo ruído político no seio da equipe econômica do governo federal.

Ontem, o ministro da Economia, Paulo Guedes, disse que a gestão Jair Bolsonaro "manteve o rumo mesmo no caos". A declaração do ministro tinha o intuito de rebater críticas segundo as quais há uma falta de estratégia para garantir a sustentabilidade da dívida pública.

Até aí, tudo bem. Mas Guedes foi além: dirigiu-se ao presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, em uma fala que, à primeira impressão, pareceu uma resposta de dureza e irritação.

"O presidente Campos Neto sabe qual é o plano. Se ele tiver um plano melhor, peça a ele qual é o plano dele", afirmou Guedes, questionado sobre o que havia afirmado o chefe do BC. "Pergunte a ele qual é o plano dele que vai recuperar a credibilidade. Porque o plano nós sabemos qual é. O plano nós já temos."

Guedes se referia a uma declaração de Campos Neto, que afirmou que o ponto-chave para o país "conquistar credibilidade com um plano que dê uma clara percepção aos investidores de que o país está preocupado com a trajetória da dívida".

O desencontro entre as frases e a frustração do ministro não são bons indicadores de como andam as coisas no núcleo da equipe econômica.

À tarde, Bruno Funchal, secretário do Tesouro, tratou de acalmar a situação, dizendo que não há divergência entre o Ministério da Economia e o Banco Central, dizendo ter certeza que o objetivo da autoridade monetária é “totalmente alinhado” com o da pasta.

"Todos fazem parte do mesmo governo", afirmou Funchal.

"Hoje, teve liquidez baixa em face do feriado lá fora e um movimento de realização de lucros", diz Igor Cavaca, analista da Warren. "Outra coisa foi a sinalização de BC e Fazenda, que tiveram discursos divergentes ontem e hoje, mas, pelo Funchal, foi sinalizado que têm uma busca semelhante."

Quem sobe, quem desce

O Ibovespa fechou perto das máximas com a recuperação da Vale e, também, a alta de Magazine Luiza ON, em um movimento de rotação setorial que beneficiou o setor de e-commerce. Ações de educação também foram beneficiadas — Cogna fechou entre as principais altas, enquanto Yduqs ON avançou 2,15%.

Papel altamente descontado (-36%), Azul PN disparou 3,6%, com a notícia de que a empresa aérea retomará suas operações no Galeão a partir do dia 1º de janeiro.

O destino será Campinas, principal centro de conexões da empresa no Brasil, e usará a aeronave Embraer E195 E1, com capacidade para até 118 clientes.

As ações da Suzano, por sua vez, lideram a alta percentual do índice refletindo a queda mensal nos estoques de celulose nos portos da Europa em outubro — a notícia também afeta as ações da Klabin, que dispararam 2,8%. Veja as cinco maiores altas do Ibovespa:

CÓDIGOEMPRESAPREÇO (R$)VARIAÇÃO
SUZB3Suzano ON           53,40 5,68%
CSNA3CSN ON           24,25 4,53%
COGN3Cogna ON             5,09 4,30%
USIM5Usiminas PNA           13,90 4,04%
PRIO3PetroRio ON           50,48 5,17%

Os destaques de queda do índice hoje vão para as ações da Petrobras. Os papéis da gigante estatal reagiram ao petróleo em baixa no mercado internacional e recuaram no mínimo 1,5% (caso de Petrobras ON).

Ações de bancos também foram penalizadas na sessão de hoje após a alta semanal, o que indica uma migração de ações das "empresas de valor" para "empresas de crescimento".

Entre os grandes bancos, apenas as units do Santander SANB11 terminaram em terreno positivo. Confira as principais quedas do índice:

CÓDIGOEMPRESAPREÇO (R$)VARIAÇÃO
GNDI3Intermédica ON           70,48 -2,58%
ITUB4Itaú Unibanco PN           28,74 -2,11%
PCAR3GPA ON           69,00 -2,06%
HAPV3Hapvida ON           14,25 -1,86%
BBDC3Bradesco ON           22,18 -1,73%

Dólar para cima, juros para baixo

O dólar, que abriu em alta, passou a cair por volta das 11h30, fechou a sessão apontando para cima, avançando 0,3%, cotado a R$ 5,3352, em um movimento de realização em meio à baixa liquidez no mercado de câmbio.

A moeda operou em terreno negativo a maior parte da sessão, refletindo a continuidade de entrada de fluxos de moeda estrangeira que faziam o real destoar de seus pares emergentes, que perdiam frente ao dólar.

No fim da sessão o dólar virou mais uma vez, com investidores aproveitando para realizar alguns lucros após a queda de 7% neste mês.

Os juros futuros dos contratos de depósitos interbancários por sua vez fecharam em queda, tendo passado a operar em baixa consolidada principalmente após a venda integral dos lotes de títulos ofertados pelo Tesouro, indício de outro leilão bem sucedido.

A instituição concentrou a oferta em vencimentos de prazo menor —vendeu 32 milhões de LTNs (Letras do Tesouro Nacional), títulos prefixados curtos, sendo que 25 milhões desses foram para vencimentos em outubro de 2021 —, trazendo mais alívio às taxas.

Também foram vendidos 1,8 milhão de NTN-Fs (Notas do Tesouro Nacional Série F), prefixados longos, além de 500 mil LFTs (Letras Financeiras do Tesouro), títulos pós-fixados atrelados à variação taxa básica de juros, a Selic.

O desempenho ocorre mesmo em meio ao pano de fundo de condições fiscais crescentemente desafiadoras, indicando que o desconforto dos investidores com as falas de Guedes e Campos Neto não se sustentou a ponto de pressionar as taxas. O movimento de queda se viu, inclusive, em juros de vencimentos mais longos, como o de janeiro/2025.

"Acho que a maior prova que é só espuma entre Guedes e Campos Neto é o comportamento dos juros hoje. Se tivesse receio dos investidores, os juros estariam abrindo, não fechando", diz Patricia Pereira, gestora de renda fixa da MAG Investimentos. "Acho que ninguém entende que tem 'fogo amigo' na equipe econômica, o risco é vem da política."

Outro dado importante divulgado hoje foi o recorde de vagas formais de trabalho criadas no mês de outubro. O mercado de trabalho registrou a abertura de 394.989 vagas em outubro, de acordo com Caged, superando as projeções.

Campos Neto disse em entrevista ao canal MyNews veiculada pela manhã de hoje que a inflação de longo prazo não está subindo. Ele também afirmou que havia sido feito o aviso de que o "gasto grande na pandemia iria pressionar a rolagem da dívida".

Veja as taxas dos principais vencimentos:

  • Janeiro/2021: de 1,932% para 1,937%
  • Janeiro/2022: de 3,34% para 3,31%
  • Janeiro/2023: de 5,12% para 5,01%
  • Janeiro/2025: de 6,94% para 6,82%
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