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PRODUTOR NO LIMITE

Agro em crise? Itaú BBA liga alerta para grãos e diz que novas recuperações judiciais estão no radar

Com preços em queda e custos elevados, produtores enfrentam margens cada vez mais apertadas

Imagem: iStock/BitsAndSplits

O Itaú BBA acendeu o sinal de alerta para o agro: o atual ciclo das commodities agrícolas, em especial grãos como soja e milho, vem carregado de riscos. Apesar das boas perspectivas para as safras no Brasil e lá fora, o banco de investimentos destaca que o câmbio pode virar um vilão — a valorização do real tende a apertar ainda mais as margens já estreitas dos produtores.

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A análise, divulgada ao Money Times, é assinada por Cesar de Castro Alves, gerente, e Francisco Queiroz, analista da Consultoria Agro do Itaú BBA. Para eles, o cenário turbulento não descarta a possibilidade de novas recuperações judiciais no setor.

“Estamos diante de preços mais baixos para os grãos, somados a um custo elevado de fertilizantes, que dispararam no último ano. Isso empurrou o produtor para uma situação ainda mais frágil, herança de ciclos anteriores. Em muitos casos, ele colhe mais apenas para quitar dívidas. O próximo ciclo promete ser duro”, afirma Alves.

Queiroz reforça: em determinadas situações, compromissos financeiros e contratos de arrendamento consomem toda a receita, deixando o produtor sem margem alguma ao final da safra.

Milho sofre menos que a soja

Na avaliação dos analistas, o milho apresenta um quadro menos adverso do que a soja. Isso ocorre porque o cereal conta com um mercado doméstico mais dinâmico e uma demanda robusta, impulsionada principalmente pela indústria de etanol de milho, que ajuda a sustentar os preços.

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“Os preços do milho no Brasil subiram bastante a partir de abril do ano passado, o que ajudou os produtores a compensarem as margens mais fracas da soja. No entanto, não temos a mesma convicção de que esse movimento se repita, já que a safrinha foi muito boa e os estoques estão em níveis confortáveis. Os grãos, de forma geral, ainda nos preocupam”, afirma Alves.

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Entre os principais pontos de atenção para os preços dos grãos estão a definição de um novo mandato de biocombustíveis nos Estados Unidos e as incertezas em torno do comportamento da demanda chinesa pela soja norte-americana.

Algodão também enfrenta cenário adverso

Outra cultura que atravessa um momento pouco favorável é o algodão. O setor sofre com um mercado global bem abastecido, após boas safras nos Estados Unidos, China e Brasil, além de uma demanda mundial enfraquecida, reflexo de um crescimento econômico mais moderado.

“Esse cenário é agravado por um petróleo mais pressionado, o que favorece a competitividade das fibras sintéticas. Quando o sintético ganha espaço, há uma substituição — ainda que limitada — da fibra natural”, afirma Queiroz.

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Quem navega melhor no agro?

Se o ambiente é desafiador para soja, milho e algodão, o “filme” é bem diferente para o café. Segundo o Itaú BBA, mesmo com alguma redução de margens, não há expectativa de uma queda acentuada de preços, já que o aumento de oferta previsto não é suficiente para desequilibrar o mercado.

“No curto prazo, os preços podem ceder um pouco, até porque subiram demais. A tendência é de um alívio a partir de abril ou maio, com o início do próximo ciclo. Arroz e laranja também atravessam um momento difícil”, diz Alves.

O cenário também é positivo para as proteínas animais, como aves, suínos e ovos, beneficiadas pelos preços mais baixos de soja e milho, principais insumos da ração.

“Além de uma estrutura de custos favorável, os setores de aves e suínos vêm exportando muito bem. A perspectiva é de mais um ano de embarques fortes e margens bastante atrativas”, destaca o gerente.

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Boi: virada de ciclo e incertezas externas

No caso da pecuária bovina, o setor começa a sentir os efeitos da inversão do ciclo pecuário, com redução da oferta de animais e, consequentemente, expectativa de preços mais elevados para a arroba.

Ainda assim, há incertezas relacionadas às exportações, em função das salvaguardas impostas pela China, que geram dúvidas sobre o ritmo dos embarques. Apesar disso, o Itaú BBA vê fatores que ajudam a mitigar esse risco, como a menor produção doméstica — estimada em cerca de 200 mil toneladas abaixo de 2025 — e a possibilidade de abertura ou ampliação de mercados.

“Outros exportadores de carne bovina dificilmente conseguirão cumprir integralmente suas cotas, e o Brasil trabalha para ocupar esse espaço. Também há a possibilidade de direcionar mais carne para os Estados Unidos e para a Argentina”, afirma Alves.

“É difícil imaginar que o mercado do boi fique pressionado de forma prolongada apenas por essa estratégia chinesa, que pode ser temporária. A nossa visão é de preços mais altos neste ano, ainda que não explosivos. Os sinais já estão aparecendo, com o bezerro mais caro e o boi magro bastante escasso”, completa.

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O agro está em crise?

Alves é categórico ao afirmar que o agronegócio, como um todo, não está em crise, já que existem produtores que enfrentam um bom momento.

“Há quem esteja passando aperto por decisões equivocadas tomadas no passado, mas também existem produtores capitalizados, esperando o momento certo para comprar terras”, afirma.

Na avaliação do Itaú BBA, o setor como um todo está fortemente tensionado por uma combinação de produção elevada, preços baixos, custos que subiram nos últimos anos, apreciação cambial e, sobretudo, juros elevados, que comprimem o resultado final do produtor.

“O juro alto asfixia a última linha do produtor rural e consome grande parte da margem Ebitda [lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização]. Isso dificulta o carrego da commodity, novos investimentos e a renovação de máquinas. Ainda assim, esperamos um ano positivo para as exportações. Quem mais sofre nesse ambiente é o produtor mal organizado”, destaca.

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O que o produtor deve — e não deve — fazer

Para os analistas da Consultoria Agro do Itaú BBA, o produtor não deve apostar exclusivamente em uma alta de preços.

“Temos observado um ciclo em que a comercialização está atrasada porque muitos acreditam em uma recuperação que não vem. Os preços caíram e podem recuar ainda mais, especialmente diante do risco cambial. O cenário global aponta para um dólar mais fraco, o que aumenta a incerteza”, alerta Alves.

Segundo ele, a tendência é de pressão adicional com o avanço da colheita, o que reforça a importância da gestão de riscos.

“O produtor deveria ter negociado volumes maiores ao longo do tempo. Agora, quem não vendeu nada enfrenta duas alternativas difíceis: vender a soja a preços baixos no pico da safra, com prêmios pressionados, ou carregar o produto pagando juros elevados até o segundo semestre. São decisões complicadas em um momento em que a gordura financeira está muito fina”, conclui.

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*Com informações do Money Times

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