Diálogos de Vorcaro mostram que BRB cobriu buraco do Master desde 2024: ‘Precisamos com urgência’
O anúncio da oferta de compra do Master pelo banco estatal controlado pelo governo do Distrito Federal foi feita em março de 2025

Diálogos extraídos do telefone celular do banqueiro Daniel Vorcaro mostram que o Banco Master recorreu a aportes do Banco de Brasília (BRB) pelo menos desde agosto de 2024 para poder cobrir sua crise de liquidez. O anúncio da oferta de compra do Master pelo banco estatal controlado pelo governo do Distrito Federal foi feita em março de 2025.
As conversas, obtidas com exclusividade pelo Estadão, mostram que o BRB já injetava dinheiro para ajudar a instituição de Vorcaro a não quebrar desde meados de 2024.
O ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa foi preso na quinta-feira, na quarta fase da Operação Compliance Zero, sob suspeita de corrupção e irregularidades na compra de R$ 12,2 bilhões em carteiras falsas do Master. As investigações mostram que Paulo Henrique teria recebido R$ 74,6 milhões em imóveis de Vorcaro.
Procurada, a defesa de Vorcaro disse que não iria comentar. O banqueiro está preso desde 4 de março e negocia uma delação premiada. A defesa de Paulo Henrique não respondeu.
Em diversas mensagens de diferentes períodos, o banqueiro cita a necessidade de viabilizar “com urgência” os aportes do banco estatal. Esses aportes foram feitos por meio da cessão de carteiras de crédito consignado, cédulas de crédito bancário e outros investimentos.
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Até o fim de 2024, as carteiras de crédito consignado cedidas pelo Master ao BRB tinham lastro, mas depois disso, de acordo com as investigações da Polícia Federal, o banco de Vorcaro passou a fabricar falsas carteiras para conseguir viabilizar os aportes do BRB.
‘Compulsório’
Em uma das conversas, Vorcaro afirma que precisaria usar o “depósito compulsório” do Master para cobrir suas contas caso o BRB não aportasse recursos no banco. O compulsório é uma espécie de poupança obrigatória determinada pelo Banco Central para garantir a liquidez de um banco e dar segurança ao sistema financeiro.
“Tem notícia do BRB? Se não vier vou ter que devolver a grana de sexta e vamos usar compulsório hoje”, escreveu Vorcaro, em mensagem no dia 2 de setembro de 2024. O texto foi enviado a Augusto Lima, que foi sócio no Master. Ele respondeu que iria verificar a situação.
No dia seguinte, Vorcaro voltou a cobrar uma definição: “Irmão, preciso saber se eles vão fazer ou não. Já tem 15 dias esse negócio do ccb (Cédula de Crédito Bancário). Se for agarrar e não sair agora preciso saber, depois te explico”. Augusto Lima respondeu: “Falei agora de novo. Estão dizendo que fazem até quinta”.
A partir de julho de 2024, o Master começa a vender carteiras de crédito para o BRB. Em 31 de agosto, o dono do Master demonstrou preocupação diante de uma informação de que o banco público não faria um dos aportes prometidos. “Fala irmão. Tá sabendo que deu merda no BRB? Não liquidou e parece que não vai”, escreveu a Augusto Lima. Ele disse que tinha uma informação diferente: “Iria ser liquidado ontem os 400 ”.
As conversas indicam que a situação da contabilidade do Master foi se agravando com o passar do tempo. Em dezembro de 2024, Vorcaro conversou com Augusto Lima sobre as necessidades de aportes. “Precisamos por uns 600 mm no caixa. Pra resolver tudo nosso.” Lima respondeu: “Essa semana entra”.
Seleção de carteiras
No mês seguinte, a preocupação se intensificou e Vorcaro pediu a Augusto Lima que viabilizasse novas carteiras de crédito consignado para repassá-las ao BRB.
De acordo com a conversa, o BRB estava filtrando as carteiras recebidas do Master e havia recusado algumas delas. “Estamos precisando da carteira com urgência. BRB no saldo não selecionou a carteira”, disse Vorcaro. Lima, então, respondeu: “A carteira é boa. O problema é que ele só quer a premium”.
A partir de janeiro de 2025, o Master começa, então, a vender ao BRB carteiras da Tirreno - que, segundo os investigadores, tratava-se de uma empresa de fachada criada pelo próprio Vorcaro para fraudar operações de injeção de recursos no banco, em triangulação com o BRB.
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