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Gigantes da tecnologia anunciam projetos bilionários de data centers no país, mas o consumo massivo de energia e água levanta alertas entre especialistas e ambientalistas
O Brasil começa a entrar na disputa global por infraestrutura de inteligência artificial (IA). Nos últimos dois anos, empresas nacionais e estrangeiras passaram a demonstrar interesse crescente em instalar data centers no país — estruturas essenciais para armazenar e processar dados em grande escala.
Mais recentemente, esse interesse começou a se transformar em projetos concretos. A aposta é que o país possa se tornar o principal polo latino-americano desse tipo de infraestrutura.
Atualmente, o Brasil possui 204 data centers em operação, segundo dados do site Data Center Map. Nenhum deles, porém, foi projetado especificamente para inteligência artificial. Mesmo assim, ao menos quatro projetos dedicados à tecnologia já foram anunciados.
A expectativa do governo é que essa nova indústria atraia volumes bilionários de investimento.
“Há uma expectativa de que o Brasil possa atrair R$ 2 trilhões em investimentos ao longo de 10 anos, gerando inovação, fortalecendo a inteligência artificial, melhorando a produtividade e criando emprego e renda”, afirmou o vice-presidente Geraldo Alckmin, em setembro do ano passado.
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Um dos projetos mais recentes foi anunciado em fevereiro pela norte-americana RT-One, empresa especializada em inteligência artificial e processamento de dados em nuvem.
A companhia pretende construir em Maringá (PR) o que descreve como “o primeiro data center dedicado à IA da América Latina”.
O empreendimento terá cerca de 400 mil metros quadrados de área e investimento estimado em R$ 6 bilhões. A previsão é de que as obras sejam concluídas ainda neste ano.
Além disso, a empresa planeja um segundo empreendimento em Uberlândia (MG), que deverá ocupar mais de 1 milhão de metros quadrados.
Segundo o CEO da RT-One, Fernando Palamone, o avanço da inteligência artificial está impulsionando uma nova onda de investimentos em infraestrutura digital ao redor do mundo.
“A inteligência artificial está transformando a economia mundial e criou uma nova Revolução Industrial que permite elevar o nível de eficiência de praticamente todos os setores produtivos. Esse movimento faz parte de uma nova revolução tecnológica que impulsionou a corrida global por infraestrutura digital”, afirmou o executivo em entrevista ao Seu Dinheiro.
A RT-One não é a única empresa interessada no mercado brasileiro.
A Elea Data Centers, que atualmente possui nove data centers de nuvem no país, pretende instalar quatro unidades dedicadas à inteligência artificial dentro do projeto Rio AI City, em Jacarepaguá, na zona oeste do Rio de Janeiro.
Um desses centros já está em operação, embora ainda seja voltado para serviços de computação em nuvem.
O complexo terá potência inicial de 1.500 megawatts, o que representa, no limite, o consumo diário de aproximadamente 6 milhões de residências. No futuro, essa capacidade poderá chegar a 3.200 megawatts.
Em julho, o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD), assinou um memorando de intenções para impulsionar o projeto e declarou que pretende consolidar a cidade como a “capital da inteligência artificial brasileira”.
Outro projeto de grande escala está previsto para Eldorado do Sul (RS), cidade de cerca de 40 mil habitantes, que deve receber o Scala AI City, da Scala Data Centers.
O empreendimento prevê a criação de verdadeiros “bairros” de servidores com potência inicial de 1.800 megawatts — equivalente ao consumo diário de 7,2 milhões de residências. A capacidade total pode chegar a 5.000 megawatts até 2033.
O crescimento desses projetos está diretamente ligado ao boom recente da inteligência artificial, que exige enorme capacidade computacional. Mas a expansão dos data centers não começou agora.
O avanço da computação em nuvem já vinha ocorrendo de forma consistente há mais de uma década — hoje, a demanda global por infraestrutura de processamento cresce de forma exponencial.
Um data center é uma instalação física que abriga milhares de servidores responsáveis por armazenar, processar e distribuir dados digitais. Na prática, funcionam como o “cérebro físico” da internet.
Sempre que alguém envia um e-mail, faz um Pix, assiste a um filme on-line ou solicita uma corrida por aplicativo, há um data center processando aquela informação.
Para funcionar, porém, esses complexos exigem enormes volumes de recursos — principalmente energia elétrica e água.
Servidores de alta performance operam em temperaturas elevadas e precisam ser constantemente resfriados. Em muitos casos, esse processo é feito por meio de sistemas de refrigeração baseados em água.
Segundo um estudo da Universidade da Califórnia, o GPT-3, da OpenAI, precisa consumir o equivalente a uma garrafa de 500 ml de água para gerar aproximadamente 10 a 50 respostas de tamanho médio.
Em centros de grande porte, o consumo pode chegar a milhões de litros por dia — às vezes equivalente ao uso de uma cidade pequena inteira.
Grande parte dessa água acaba evaporando em torres de resfriamento e se torna indisponível para outros usos.
Esse é um dos principais pontos de preocupação levantados por ambientalistas.
Segundo o pesquisador Lourenço Galvão Diniz Faria, economista da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e consultor em transições e regulação energética, economia circular, inovação e sustentabilidade, o consumo energético desses complexos pode ser significativo.
Um data center de porte médio pode consumir energia equivalente à de mil residências. Os maiores podem chegar ao equivalente ao consumo de 10 mil a 50 mil casas, comparável ao de uma pequena cidade.
Apesar de o Brasil possuir uma das maiores disponibilidades de água doce do planeta, há receio de que a concentração de data centers em determinadas regiões possa pressionar recursos locais.
“Embora o volume total de água consumida represente uma pequena fração do uso de água em um país, a preocupação ambiental ocorre porque os data centers tendem a se concentrar em certas regiões, o que pode pressionar recursos hídricos locais”, afirma Rudolf Bühler, coordenador da área de Ciência da Computação, IA e Ciência de Dados do Instituto Mauá de Tecnologia.
Ele ressalta que o impacto hídrico não está apenas no resfriamento das máquinas.
“Muito se fala do consumo de água pelos data centers, mas em muitos casos a maior parte do uso hídrico pode estar na geração de energia elétrica que abastece essas instalações.”
Além disso, toda a megainfraestrutura dos data centers depende de materiais produzidos a partir de diferentes metais.
A própria atividade de mineração já impõe impactos significativos ao meio ambiente: demanda grandes volumes de água, contribui para a poluição, provoca desmatamento e desencadeia uma série de outros efeitos ambientais ao longo da cadeia produtiva.
Em janeiro desde ano, começaram as obras de um mega data center da ByteDance, empresa chinesa controladora do TikTok, na região de Caucaia (CE) — que historicamente enfrenta períodos de seca.
O projeto gerou controvérsia entre ambientalistas, órgãos de fiscalização e comunidades indígenas do povo Anacé, que vivem nas proximidades e reivindicam a área como território indígena.
Uma das principais preocupações envolve o possível uso de água da Lagoa do Cauípe, principal reservatório hídrico da região.
“Em nenhum momento o povo Anacé foi consultado acerca deste projeto. Manifestamos profunda preocupação com os impactos socioambientais que empreendimentos como data centers podem gerar, especialmente pelo uso intensivo de água e energia”, afirmou a organização Japiman, dos Velhos Troncos do povo Anacé, em ofício enviado à Superintendência de Meio Ambiente do Ceará (Semace) no ano passado.
Apesar das preocupações, especialistas afirmam que existem caminhos para tornar a expansão do setor mais sustentável.
Segundo o CEO da RT-One, novas tecnologias têm permitido projetar data centers muito mais eficientes do que os modelos mais antigos.
Ele cita três pilares principais:
“Nesse contexto, a RT-One busca trazer ao Brasil exatamente um novo modelo de infraestrutura digital, incorporando tecnologias modernas e melhores práticas internacionais que podem servir como referência para o desenvolvimento sustentável do setor no país”, afirma.

Ainda assim, especialistas afirmam que não existe solução única.
“Em algumas localidades, sistemas de resfriamento a seco reduzem significativamente o consumo de água, mas podem elevar o gasto de energia elétrica. Em outras regiões, sistemas híbridos conseguem oferecer um equilíbrio melhor entre uso de água, consumo de energia e confiabilidade operacional”, diz Bühler.
Lourenço Faria faz um alerta semelhante ao discutir o conceito de sustentabilidade.
“Algo é considerado ‘sustentável’ em relação a um parâmetro de referência — por exemplo, uma tecnologia mais antiga e menos eficiente. Isso não significa que não haja impacto ambiental relevante, apenas que o impacto é menor quando comparado a outras tecnologias”, afirma.
Segundo ele, o próprio conceito de sustentabilidade também evolui ao longo do tempo. Em outras palavras, uma solução considerada sustentável hoje pode deixar de ser vista dessa forma dentro de uma década, à medida que surgem novas tecnologias e padrões mais rigorosos.
A tendência internacional tem sido estabelecer regras para compatibilizar a expansão digital com os limites ambientais.
Na União Europeia (UE), determinadas instalações já precisam apresentar relatórios de desempenho energético e sustentabilidade.
Na Irlanda, grandes consumidores de energia enfrentam critérios específicos para acesso à rede elétrica. Já Singapura condiciona o crescimento do setor ao cumprimento de metas de eficiência ambiental.
“A tendência mundial não é simplesmente proibir ou liberar irrestritamente, mas impor condições técnicas e ambientais para compatibilizar expansão digital com limites da infraestrutura local”, afirma o professor Bühler.
No país, ainda tramita no Congresso o Projeto de Lei nº 3018/2024, que busca regulamentar data centers dedicados à inteligência artificial.
Além disso, o governo federal instituiu a Política Nacional de Data Centers, por meio do Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center (Redata).
A medida oferece incentivos fiscais por cinco anos para projetos de infraestrutura digital, incluindo isenção de IPI, PIS/Cofins e imposto de importação.
Para ter acesso ao benefício, as empresas precisam cumprir requisitos ambientais, como o uso de energia 100% renovável e padrões rigorosos de eficiência hídrica.
Segundo o governo, caso essas obrigações não sejam cumpridas, os benefícios fiscais podem ser suspensos, com cobrança retroativa de tributos, multas e juros.
“Estamos diante de uma das decisões econômicas mais relevantes da década. O Redata não é apenas um regime tributário; é um teste de previsibilidade regulatória. Investimentos dessa magnitude exigem estabilidade”, diz o vice-presidente da Associação Brasileira de Data Center (ABDC), Luis Tossi.
Segundo ele, a ausência dessa sinalização poderia redirecionar projetos importantes para países que hoje competem agressivamente por essa infraestrutura estratégica.
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