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Ricardo Gozzi

É jornalista e escritor. Passou quase 20 anos na editoria internacional da Agência Estado antes de se aventurar por outras paragens. Escreveu junto com Sócrates o livro 'Democracia Corintiana: a utopia em jogo'. Também é coautor da biografia de Kid Vinil.

SD ENTREVISTA

Trump always chickens out: As previsões de um historiador da elite universitária dos EUA sobre efeitos de tarifas contra o Brasil

Em entrevista ao Seu Dinheiro, o historiador norte-americano Jim Green, da Brown University, analisou a sobretaxa de 50% imposta ao Brasil por Donald Trump

Ricardo Gozzi
11 de julho de 2025
10:46 - atualizado às 9:51
Jim Green, historiador e brasilianista.
Jim Green, historiador e brasilianista. - Imagem: Divulgação

O assunto é sério, mas os brasileiros podem ficar sossegados: Donald Trump vai voltar atrás da tarifa de 50% sobre toda e qualquer exportação do Brasil para os Estados Unidos.

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“Ele está blefando e o Brasil tem que manter a calma e continuar firme.”

A afirmação é do brasilianista James Naylor Green, historiador norte-americano lotado na Brown University, uma das integrantes da chamada Ivy League, que reúne a nata das universidades particulares dos EUA.

Em entrevista concedida ao Seu Dinheiro, ele diz que a confusão faz parte do estilo de Trump.

“É como se houvesse uma criança de sete anos morando na Casa Branca, que esquece o que diz, que muda de ideia e testa a sua paciência o tempo inteiro”, afirma.

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Se a previsão de Jim Green estiver correta, depois de fazer birra, Trump tende a ceder.

“O pessoal usa agora aquela sigla Taco, Trump always chicken out. Podem esperar. Ele vai voltar atrás. Tenho certeza”, disse Green ao Seu Dinheiro.

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“Ele já fez isso com a China. É a forma como ele acha que consegue negociar.”

Green chama a atenção para o fato de o presidente Trump, mesmo após meses de negociações com dezenas de países, não ter anunciado mais nenhum acordo além dos obtidos com Reino Unido e Vietnã.

Por mais que o Brasil seja um parceiro secundário para os EUA, o fato de Trump estar engajado em uma guerra comercial contra o mundo em algum momento vai provocar inflação dentro do país.

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“O consumidor norte-americano vai se queixar da alta dos preços e ele vai ter que voltar atrás, pois essa situação o deixará muito vulnerável para as eleições de meio de mandato, no ano que vem”, diz Green.

Trump ataca a democracia brasileira, diz historiador

A percepção otimista sobre a possível mudança de posição de Trump destoa do tom de indignação do estudioso ao comentar o que chamou de “ataque à democracia brasileira com essa declaração absurda sobre as tarifas”.

Na visão de Green, a imposição de uma sobretaxa de 50% às exportações brasileiras para os EUA não tem nenhuma justificativa nem na própria lógica de Trump.

“Os Estados Unidos têm superávit com o Brasil”, afirma o historiador.

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Desde 2009, a balança do comércio bilateral entre Brasil e EUA pende a favor dos norte-americanos.

O saldo comercial favorável aos EUA acumulado no período ultrapassa os US$ 400 bilhões.

No entanto, as razões de Trump são outras.

Ao defender a sobretaxa de 50% contra o Brasil, o presidente norte-americano exigiu a imediata suspensão dos processos contra Jair Bolsonaro.

O ex-presidente é réu no processo que apura uma tentativa de golpe de Estado em janeiro de 2023, dias depois da posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

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Além disso, Bolsonaro responde pelos crimes de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, dano qualificado, deterioração de patrimônio tombado e organização criminosa armada.

A atitude de Trump “é uma interferência absurda na soberania brasileira”, afirma Green.

Ao tentar ajudar um aliado, porém, Trump pode ter dado “um tiro no próprio pé”, diz o historiador.

“Isso tende a fortalecer Lula. Também fortalece um sentimento nacionalista, que não é só uma coisa da esquerda, mas também do centro e da direita.”

Em contrapartida, ao ter o nome vinculado à justificativa de Trump para as tarifas, Bolsonaro sai enfraquecido.

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Um sinal disso, segundo ele, é o editorial “Coisa de Mafiosos”, publicado na edição de quinta-feira do jornal conservador O Estado de S. Paulo.

Além de críticas a Trump e a Bolsonaro, o periódico sobe o tom contra o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, apontado pelo historiador norte-americano como “candidato da grande imprensa”.

Jim Green também chamou a atenção para o fato de, pouco antes das tarifas, a Comissão de Relações Exteriores da Câmara, dominada pela oposição a Lula, ter aprovado uma “moção de louvor e regozijo” a Donald Trump.

Pouca margem de manobra para negociar

A sobretaxa aos produtos brasileiros entrará em vigor em 1º de agosto, segundo Trump.

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Logo depois do anúncio, ainda na quarta-feira, a bancada do agronegócio no Congresso Nacional pediu ao governo brasileiro que se mantenha aberto a negociar.

Ontem, em entrevista à TV Globo, Lula indicou que só pretende retaliar se os canais diplomáticos não funcionarem.

O problema é que, mesmo que o Brasil queira, praticamente não existe margem de manobra para negociação, disse Green.

“De um lado, o Brasil tem déficit comercial com os Estados Unidos. De outro, as exigências de Trump envolvem processos que correm no Poder Judiciário. Lula não tem nem como interferir nisso.”

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