Mais retorno na aposentadoria? Crédito privado cresce no cardápio dos fundos de previdência e se torna estratégico na diversificação de portfólios
Com gestão ativa e foco em ativos de maior qualidade, o crédito privado atrai gestores e investidores para a estratégia de previdência de longo prazo

Até poucos anos atrás, os fundos de previdência privada tinham um cardápio mais limitado e conservador, concentrado em títulos públicos e renda fixa tradicional. Mas isso mudou. Hoje, muitos gestores replicam praticamente a mesma grade de produtos dos fundos tradicionais nas carteiras previdenciárias — e o crédito privado entrou de vez nesse cardápio.
Os números da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) mostram essa ascensão: o patrimônio líquido de fundos de previdência expostos a crédito privado passou de R$ 209,2 bilhões, em dezembro de 2023, para R$ 258,8 bilhões, em junho de 2025.
Os dados são exclusivos de entidades abertas, como seguradoras e gestoras, e indicam um crescimento de 23,7% em um ano e meio. E o número de fundos de previdência com mandato para crédito privado também cresceu neste período: de 226 para 249.
O avanço da estratégia está em linha com o advento da própria classe. Ativos como debêntures e certificados de recebíveis protagonizaram as maiores emissões dos últimos anos. Por exemplo, 2024 foi um ano recorde para a classe.
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A emissão de debêntures dobrou de 2023 para 2024, atingindo R$ 473,76 bilhões — e uma parte significativa desse volume foi absorvida pelos fundos, inclusive os de previdência.
Fundos de previdência e a estratégia do crédito privado
Daniela Gamboa, head de crédito privado na SulAmérica Investimentos, explica que as debêntures tradicionais — que não têm isenção fiscal — são a principal alocação dos fundos de previdência.
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A estrutura dos fundos não permite o repasse do benefício para o investidor final. Além disso, o spread — diferença de taxa das dívidas corporativas em relação aos títulos públicos — dos ativos não incentivados costumam ser maiores.
Para Gamboa, a alocação nesses papéis permite uma estratégia conservadora, mas com diversificação, para superar o benchmark da previdência. Para todos os efeitos, é o CDI — embora oficialmente possam ser outros índices, como o IDA, de debêntures, ou o IMA-B, do Tesouro IPCA+.
“Com uma Selic em 15% ao ano, os investidores vão procurar fundos que entreguem isso ou superem essa rentabilidade. O crédito privado oferece boas opções para entregar esse resultado, sem comprometer o risco da carteira, diz.
A própria SulAmérica observou o aumento de captação em seus fundos de previdência destinados ao crédito privado. A captação líquida foi de R$ 6,4 bilhões em 24 meses, com o patrimônio líquido chegando a R$ 10,78 bilhões ao fim de julho.
Gamboa acredita que os títulos de crédito privado se alinham com a estratégia de previdência como qualquer outro: ações, títulos públicos, títulos bancários e outros. Para ela, o mandato do fundo é o que define essa alocação, enquanto a escolha dos ativos adequados cabe ao gestor.
“É como um fundo tradicional. A diferença é que os fundos de previdência têm um objetivo e uma estrutura de longo prazo, para o futuro. Mas o alinhamento com o perfil do investidor e o risco que ele aceita é igual ao de qualquer outro fundo”, afirma a head da SulAmérica.
Para todos os gostos
Para além da alocação direta nos títulos de crédito privado, a Empiricus Asset adotou uma outra estratégia para seu novo produto de previdência: fundo de fundos (FoFs).
O SuperPrevidência Yield, lançado em julho, tem uma carteira de seis fundos de gestoras grandes, como BTG, Icatu, ARX, Sparta, Root e Solis. O modelo é comum para a Empiricus, mas menos comum para fundos de previdência privada.
Pedro Claudino, analista da Empiricus, explica que esse formato tem algumas vantagens, como a possibilidade de alocar em fundos tradicionais, expostos a ativos que não estão disponíveis para uma carteira de previdência.
É o caso do BTG Margem Debêntures (MARG11), um ETF que investe em debêntures e oferece liquidez para a carteira, por ser negociado em bolsa.
Outro exemplo é o Solis Antares Light, um produto focado em Fundos de Direito Creditório (FIDCs), exclusivo para investidores qualificados. Os FIDCs têm sido um dos grandes destaques do crédito privado no último ano, mas não são ativos permitidos para investimento direto por fundos de previdência.
“O FOF é uma estrutura eficiente para acessar essas outras estratégias que agregam valor em uma carteira de previdência. No final, o fundo continua sendo conservador, com baixo risco e baixa volatilidade”, diz Claudino.
A crítica que normalmente é aplicada aos FOFs, de ser um modelo que onera o investidor com o custo de taxa sobre taxa ao investidor em fundos, Claudino considera errônea. Segundo ele, as taxas não se somam dentro de um FOF, pois parte desse custo dos fundos investidos volta para o caixa.
Em relação à gestão ativa, o analista afirma que a rotatividade de ativos dentro de cada fundo fica por conta das gestoras dos produtos. À Empiricus cabe supervisionar as estratégias e manter contato com esses gestores para atualizar os cotistas das mudanças mensais.
Seja qual for a estratégia, Gamboa e Claudino acreditam que o crédito privado vai ganhar cada vez mais espaço nas carteiras de longo prazo.
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