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Nas últimas várias trocas no comando da Petrobras, não tivemos grandes mudanças no dia a dia da companhia, o que inclusive permitiu ótimos pagamentos de dividendos nos últimos anos, mesmo com CEOs distintos — será que agora também vai ser assim?

A Petrobras (PETR4) foi o assunto da semana, após a troca de seu comando. Mas depois da queda de -10% das ações, e eu sei o que você está querendo saber: "será que chegou a hora de comprar PETR4?"
Já virou rotina. Praticamente uma vez por ano o governo federal troca o CEO da Petrobras, quase sempre por discordar da gestão.
O que mudou desta vez, foi o motivo. Se na grande maioria das vezes as trocas aconteciam por causa do descontentamento com o preço dos combustíveis, desta vez Jean Paul Prates foi demitido por estar investindo "pouco".
Antes de continuar, vale a pena mostrar quão "pouco" a Petrobras tem investido.
| Empresa | Ticker | Capex (UDM*) |
| Petrobras | PETR4 | R$ 62 bilhões |
| Vale | VALE3 | R$ 30 bilhões |
| Suzano | SUZB3 | R$ 18 bilhões |
| Equatorial | EQTL3 | R$ 10 bilhões |
| Raízen | RAIZ4 | R$ 10 bilhões |
| Vivo | VIVT3 | R$ 9 bilhões |
| JBS | JBSS3 | R$ 7 bilhões |
Como você pode perceber, a Petrobras não tem investido pouco, longe disso. A questão é que o governo quer ver a companhia mais atuante em outras áreas além da Exploração e Produção (E&P) de petróleo.
Desde que o atual governo assumiu, ouvimos falar de estudos da Petrobras sobre energia eólica em alto mar, possibilidade de investimentos da indústria naval, fertilizantes, etc.
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Mas nada efetivamente saiu do papel, o que segundo rumores deixou Lula descontente e acarretou na demissão de Prates.
O grande medo do mercado é que, daqui para frente, os dividendos sejam afetados. Mas por que isso aconteceria?
Calcular os dividendos da Petrobras é simples: pegue tudo o que foi gerado de caixa operacional, subtraia os investimentos (Capex), multiplique o resultado por 0,45 e pronto, chegamos aos dividendos. Parece complicado mas não é, e a própria Petrobras faz quase toda a conta para você.
Por exemplo, com base no resultado do 1T24 ela anunciou cerca de R$ 14,5 bilhões de dividendos (guarde esse número).
Logo na primeira tabela do release, encontramos o fluxo de caixa operacional de R$ 46,5 bilhões, que depois dos investimentos de R$ 14 bilhões resultam em um fluxo de caixa livre (FCL) de R$ 32,4 bilhões, que petroleira também calcula para você.
Seu único trabalho é multiplicar o FCL por 0,45, e assim chegamos aos R$ 14,5 bilhões, exatamente o valor destinado para os dividendos.
Agora, imagine que, ao invés de investir R$ 14 bilhões, a Petrobras investisse R$ 20 bilhões. Voltando à nossa conta, os dividendos cairiam para R$ 12 bilhões (18% menos dividendos).
Se o investimento subisse para R$ 30 bilhões, o dividendo seria de R$ 7,5 bilhões. Poderíamos continuar o exercício, mas acho que já deu para entender que quanto mais a companhia investir, menos sobra para os dividendos.
Aqui existe um outro ponto que vale a pena mencionar. Se todo o investimento extra fosse feito em ativos realmente rentáveis, como o pré-sal e a margem equatorial, o mercado não veria grandes problemas.
A questão é que investimentos na indústria naval, usinas eólicas, fertilizantes, etc, não só não têm bons retornos como estão fora do círculo de competência da companhia, e tendem a trazer retornos ruins.
Ou seja, a Petrobras não só estaria deixando de distribuir dividendos, como investiria em algo que não vai ajudar a aumentar os dividendos lá na frente, e isso é uma das piores decisões financeiras que uma companhia pode tomar.
O ponto chave nessa discussão é, que segundo os rumores, a nova CEO, Magda Chambriard, compartilha das mesmas opiniões do governo sobre as necessidades de investir em outras áreas, especialmente a naval.
E com essa informação dá para entender porque o mercado ficou tão pessimista: provavelmente estamos diante de uma queda dos dividendos, que pode ser relevante a depender da pressão do governo e da criatividade da nova gestão em encontrar oportunidades.
É verdade que nas últimas várias trocas no comando da Petrobras, nunca tivemos grandes mudanças no dia a dia da companhia, o que inclusive permitiu ótimos pagamentos de dividendos nos últimos anos, mesmo com CEOs distintos.
A diferença desta vez é que nunca vimos o governo tão interessado em gastar o caixa gerado pela companhia em outros projetos de retorno duvidoso, e neste momento não temos realmente como saber o quanto a política de investimentos e dividendos será alterada.
Por isso, apesar de ter caído 10% nesta semana por conta das mudanças, ainda vejo a Petrobras negociar por múltiplos acima de sua média histórica, com um dividend yield de aproximadamente 10% que, apesar de bom, não me parece muito convidativo dado o risco de termos uma interferências mais sérias, que joguem esse yield ainda mais para baixo.
Como diz um amigo meu, "não vale a dor de cabeça", pelo menos não por enquanto.
Se quiser conferir outras empresas que além de um ótimo dividend yield não atrapalham seu sono à noite, deixo aqui o convite para a série Vacas Leiteiras.
Um grande abraço e até a semana que vem.
Ruy
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