“Geração Putin” está sofrendo as consequências do isolamento econômico do país com menos oportunidades de trabalho e educação
Saída em massa das multinacionais e mudanças estruturais no sistema educacional do país estreitam as perspectivas dos jovens russos

Os jovens russos entre 17 e 25 anos cresceram num ambiente muito diferente do de seus pais, com livre acesso a grandes símbolos do capitalismo ocidental — como o McDonald’s e o Instagram. Mas, no lado político, não houve grandes mudanças: durante sua vida escolar e acadêmica, essa camada da população teve apenas Vladimir Putin como presidente.
Mas, com a guerra na Ucrânia e as inúmeras sanções impostas ao governo de Moscou, tais marcas já não são mais acessíveis no país e essas pessoas estão conhecendo agora uma Rússia bem diferente da vista ao longo de suas vidas.
Aqueles que querem ingressar no ensino superior e no mercado de trabalho estão enfrentando muitos desafios. Desde a invasão ao país vizinho, multinacionais saíram massivamente do país, deixando um exército de desempregados.
“Muitas companhias multinacionais prometeram carreiras estáveis por meio do mérito, no típico modelo do capitalismo ocidental", disse Andrew Lohsen, especialista em Europa, Rússia e Eurásia, ao Insider. “Essas oportunidades estão sumindo conforme as companhias deixam a Rússia. Enquanto isso, setores da indústria que ofereciam altos salários estão se enfraquecendo pelas sanções”, disse ele.
Um novo ensino superior
E os desafios não param por aí. Desde 6 de junho, a Rússia abandonou o Processo de Bolonha, um sistema educativo criado em 1999 que permitiu a criação do Espaço Europeu do Ensino Superior (EEES).
O sistema unificava padrões educacionais em toda a Europa e, até então, integrava 49 países com “diferentes tradições políticas, culturais e académicas”, segundo a informação disponibilizada no respectivo portal.
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O Processo de Bolonha possibilita a livre circulação de estudantes, professores e gestores universitários, além de fomentar a competitividade das instituições europeias no mercado educativo global. A Rússia havia aderido ao sistema em 2003.
Contudo, a União Russa de Reitores se pronunciou, em março, em favor da invasão à Ucrânia. Em abril, o grupo de Bolonha suspendeu os direitos de representação da Rússia e da Bielorrússia nas instituições e atividades do sistema educativo europeu devido a essa ofensiva militar.
Um mês depois, o ministro russo da Ciência e do Ensino Superior, Valery Falkov, anunciou a saída da Rússia do Processo de Bolonha e afirmou que, “nessa nova fase”, a Rússia desenvolverá seu próprio sistema de ensino superior.
Um caminho que pode reduzir oportunidades
A medida deve dificultar o acesso dos jovens a oportunidades educacionais no exterior e, possivelmente, prejudicar sua competitividade no mercado de trabalho. Além disso, o processo também pode agravar o isolamento econômico do país, já que empresas podem preferir não contratar russos por desconfiarem da qualidade do novo modelo de ensino.
“O nosso próprio sistema único de ensino baseado em interesses econôómicos nacionais e centrado na expansão das possibilidades para cada estudante é o futuro”, afirmou o ministro. Ele também assegurou um período de transição para o novo sistema, cujos detalhes ainda não foram divulgados.
“O que estamos vendo é a politização do sistema educacional para que ele se estruture de cima para baixo. Deve haver uma forte mudança na educação russa, na direção de adotar uma narrativa estatal, excluindo dúvidas ou alternativas e punindo aqueles que andem ‘fora da linha’”, acredita Lohsen.
Insatisfação da ‘geração Putin’
Segundo Lohsen, o governo de Moscou aproveita sua influência nas mídias de massa para promover uma forte propaganda em favor de uma estruturação da sociedade em torno do Estado, do exército e da igreja.
Desde o anúncio da guerra na Ucrânia, jovens insatisfeitos com as políticas de Putin deixaram o país. No entanto, fatores como vistos de longo prazo, empregabilidade e recursos financeiros podem dificultar muito suas estadias fora da Rússia, já que as sanções ao país prejudicam o acesso dos cidadãos a alguns serviços.
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