Por que a Infracommerce (IFCM3) decidiu pedir mais dinheiro aos acionistas pouco mais de 1 ano após o IPO na B3
Além de equilibrar o balanço depois das dívidas contraídas para financiar aquisições, a Infracommerce (IFCM3) mira o lucro ao optar por aumento de capital

Especialista em oferecer soluções para os varejistas interessados em vender seus produtos pela internet, a Infracommerce (IFCM3) abriu o capital na B3 em maio de 2021 com o típico plano de crescimento via aquisições.
De fato, a empresa fechou quatro aquisições desde então, sendo uma delas na casa do bilhão de reais. Nesse meio tempo, porém, a Infracommerce acabou enfrentando dois ventos contrários: a alta dos juros e o fechamento do mercado de capitais para novas ofertas de ações.
A Infracommerce já garantiu R$ 170 milhões de acionistas que já manifestaram interesse em colocar dinheiro novo na empresa, mas o aumento de capital pode chegar aos R$ 400 milhões se a adesão for total.
Para atrair os acionistas, a empresa ofereceu um desconto generoso no preço da ação em relação às cotações na B3 na época do anúncio. Os recursos devem ser usados principalmente para pagar dívidas da Infracommerce, que aumentaram consideravelmente desde o IPO para financiar o plano de aquisições.
"Tínhamos coisas para pagar num contexto de juros altos, então resolvemos fazer um aumento de capital para equilibrar nossa estrutura de capital e ter certeza de que vamos continuar crescendo", disse Fábio Bortolotti, diretor de internacionalização e de relação com os investidores da Infracommerce ao Seu Dinheiro.
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Segundo ele, essa foi a saída mais viável e simples para solucionar a questão, com o cuidado de não diluir substancialmente a participação dos acionistas que não aderirem à operação.
Em busca do primeiro lucro
A opção por fazer um aumento de capital no lugar de tomar novas dívidas no mercado também deve ajudar a companhia a chegar a um patamar sonhado por toda startup: dar lucro.
"Nossa estrutura de capital era um ponto de atenção e vamos tirar isso da frente. O que nos resta para conseguir lucro líquido e fluxo de caixa positivo são as despesas financeiras. Esse aumento vai atacar essa linha", afirma o diretor da empresa criada em 2012.
A conclusão do aumento de capital deve acontecer no fim de setembro, pouco antes de outro marco para a Infracommerce. Em novembro termina o prazo de 18 meses de restrição da negociação das ações da companhia para pessoas físicas. A limitação ocorre porque o IPO da empresa ocorreu por meio de uma oferta restrita de ações, destinada a investidores profissionais e institucionais.
As aquisições
Com esse dinheiro, foi às compras e tomou dívidas para crescer rápido num primeiro momento e lucrar depois.
De lá pra cá, foram quatro aquisições, três delas em sequência e na corrida para ganhar escala: a argentina Summa Solutions em julho de 2021 por US$ 9 milhões; a Tatix em agosto do mesmo ano por R$ 124 milhões.
Mas o maior passo da Infracommerce veio com o anúncio da compra da Synapcom no mês seguinte, por impressionantes R$ 1,2 bilhão. Por fim, a companhia levou a Tevec em janeiro deste ano por R$ 25 milhões.
Agora, a ideia é frear o ritmo de fusões e aquisições, na linha de manter a saúde financeira da empresa.
"Nossa prioridade número um agora é a integração completa dos M&As feitos anteriormente, capturando as sinergias que ainda não aconteceram", diz Bortolotti.
Ele não descarta novas aquisições, mas diz que algo assim só aconteceria em caso de uma oportunidade muito boa e específica.
As preocupações com a Infracommerce (IFCM3)
De fato, a saúde financeira da Infracommerce era um ponto de atenção para o mercado.
Segundo comunicado arquivado na CVM, o preço da ação da companhia na operação será de R$ 5,01 — um desconto de 20,4% se considerado o fechamento a R$ 6,30 na quarta-feira (24).
Quando a operação foi anunciada no dia 12 de agosto, o desconto era de 35%.
"É difícil dizer que uma diluição desse tamanho a um preço ~35% abaixo do preço atual da ação é boa, mas dada a alavancagem muito alta (e seu grande impacto negativo no balanço patrimonial, especialmente com taxas de juros tão altas) esta é provavelmente a melhor maneira de resolver o problema", escreveram os analistas do BTG Pactual em relatório na época.
No mesmo documento, o BTG Pactual comentou o nível de alavancagem da empresa, que aumentou consideravelmente após aquisições tidas como "ousadas" pelos analistas do banco.
A dívida líquida da Infracommerce fechou o mês de junho num total de R$ 250,5 milhões — um claro alerta da situação financeira da empresa. Somando os R$ 286,7 milhões que a empresa precisa para pagar algumas aquisições no próximo ano, a dívida líquida sobe para R$ 647,5 milhões, de acordo com os cálculos do BTG Pactual.
Ainda assim, os analistas do banco elogiaram os resultados trimestrais da Infracommerce, que registrou receita líquida de R$ 220,4 milhões no 2º trimestre de 2022 — alta de 178% na comparação com o mesmo período de 2021.
Entre os meses de maio e junho, o GMV avançou 100% e chegou a R$ 3,1 bilhões — essa métrica, que significa “gross market value” em inglês, é usada no varejo online para medir o volume de vendas realizado por uma plataforma digital.
E apesar dos questionamentos feitos no mercado, a decisão do aumento de capital também é vista como um voto de confiança dos atuais acionistas, a despeito da desvalorização das ações — que já caíram 62,73% no ano.
"Os acionistas já conhecem a companhia e sabem que as perspectivas são positivas", disse Bortolotti.
Em relatório após o anúncio, o Morgan Stanley recomendou a compra de IFCM3 com preço-alvo de R$ 10 — potencial de valorização de 58,7% considerando o fechamento de 24 de agosto.
Quem vai participar do aumento de capital da Infracommerce
A Engadin Investments, principal sócia da Infracommerce com uma fatia de 10,4% do negócio, já se comprometeu a participar do aumento de capital. É através desse fundo que a empresa de shoppings Iguatemi (IGTI11) investe na empresa.
Além dela, a americana Compass Group (com 10,3% de participação) e a Núcleo Capital (com menos de 5%) também são sócias no negócio e devem garantir o mínimo de R$ 170 milhões para viabilizar a operação, a fim de não ter suas participações diluídas. Elas também se comprometeram a comprar eventuais sobras.
A Megeve Capital, family office da família chilena Solari, por sua vez, não é acionista da empresa, mas pretende participar do negócio.
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