Bilhões na mesa e famílias em guerra: enquanto briga por herança da Casas Pernambucanas vira série, outras disputas por fortunas ainda dão o que falar; conheça as histórias envolvendo Safra, Casas Bahia e Fiat
O caso de Anita Harley, principal acionista da Pernambucanas, virou série documental, mas não é o único: outras disputas bilionárias que derem o que falar.

A série “O Testamento: O segredo de Anita Harley”, exibida no Globoplay, é um sucesso na plataforma de streaming. O fenômeno de audiência acompanha o desenrolar de uma disputa judicial com diversas camadas.
O documentário mergulha nos bastidores da batalha pela curatela — o direito de representação civil — e pelo controle da fortuna de Anita Harley, principal acionista da Casas Pernambucanas.
Após sofrer um acidente vascular cerebral (AVC) em 2016, ela permanece em coma desde então, tornando-se o epicentro de um conflito que mistura poder, dinheiro e relações pessoais nebulosas.
O que prende o espectador são as reviravoltas sucessivas. A cada episódio, a história se expande: uma secretária afirma ter em mãos um suposto testamento vital, uma mulher que diz ter sido companheira e esposa de Anita por anos e surge um possível filho socioafetivo. Uma trama que, até pouco tempo atrás, vivia longe dos holofotes, já que Harley era discreta em sua vida particular.
Com uma fortuna estimada em R$ 2 bilhões em jogo, a produção escancara como disputas desse porte podem rapidamente ganhar contornos de novela — e, mais do que isso, não são casos isolados.
Batalhas familiares por heranças bilionárias têm sido presença constante no noticiário, com o da família Safra, da Casas Bahia – que segue sem resolução até hoje – e da Fiat, que você conhece agora.
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Família Safra: briga bilionária, ruptura familiar e acordo final
Após a morte do banqueiro Joseph Safra, em 2020, teve início uma disputa judicial entre os herdeiros do que era, à época, o homem mais rico do Brasil, com fortuna estimada em R$ 119,08 bilhões.
O conflito veio à tona em 2023, quando Alberto Safra processou sua mãe, Vicky Safra, e os irmãos Jacob e David. A acusação central era de que eles teriam diluído deliberadamente sua participação na holding Safra National Bank.
No entanto, voltando alguns anos, em 2019, Alberto recebeu uma antecipação de sua herança e decidiu deixar o conselho de administração do grupo para fundar sua própria gestora, a ASA. A decisão contrariou o patriarca Joseph Safra, que era conhecido por defender a continuidade dos negócios dentro da estrutura familiar.
A saída marcou uma ruptura. Ao abrir um negócio próprio, Alberto rompeu com uma tradição do grupo — e isso pesou tanto no campo familiar quanto societário. A interpretação dentro da família é que, ao aceitar a antecipação da herança, ele teria, na prática, redesenhado sua posição dentro do império Safra.
Após meses de disputa judicial e negociações, a família anunciou, em 2024, um acordo para encerrar o conflito. Em nota, afirmou que Alberto se desinvestiria de seus interesses no grupo para seguir sua trajetória empresarial de forma independente.
O desfecho foi acompanhado de um discurso de reconciliação: os familiares disseram estar satisfeitos por “deixar o assunto para trás” e preservar os laços — uma tentativa de fechar um capítulo que expôs publicamente tensões raramente vistas em uma das famílias mais discretas do país.
Casas Bahia: acusações, perícia e novas frentes de disputa
A disputa pela herança de Samuel Klein, fundador das Casas Bahia, é um daqueles casos que parecem se expandir a cada novo capítulo. Desde sua morte, em 2014, os filhos Michael, Eva e Saul travam uma batalha que envolve um patrimônio estimado em R$ 15 bilhões.
O ápice desta história surgiu quando Saul, o filho mais novo, acusou Michael — que era responsável pelo testamento e pelo inventário — de falsificar assinaturas do pai para garantir uma fatia maior da herança. A denúncia levou a uma investigação que também passou a analisar decisões financeiras relevantes da companhia.
Entre os pontos investigados estavam a ausência de distribuição de dividendos em 2015 e 2019, além da venda de imóveis e créditos tributários entre 2021 e 2022. A suspeita era de que essas operações poderiam ter sido conduzidas de forma a beneficiar determinados herdeiros em detrimento de outros.
Uma perícia técnica, no entanto, concluiu que as assinaturas eram autênticas, levando a Justiça a rejeitar a acusação de falsificação. Ainda assim, o caso ganhou novos contornos — e mais complexidade.
Saul apresentou uma nova petição alegando ter descoberto que sua irmã, Eva Lea, foi declarada incapaz pela Justiça dos Estados Unidos, onde reside, em 2019, em razão de uma demência frontotemporal. Segundo ele, essa informação não foi apresentada aos tribunais brasileiros, apesar de Eva ter assinado documentos considerados cruciais para o inventário.
Em paralelo, Saul — já com mais de 70 anos — chegou a solicitar a antecipação de sua herança após ser internado em uma UTI. O pedido foi negado pela Justiça.
Outro elemento que adiciona tensão ao caso é a condenação de Saul, em 2023, em um processo do Ministério Público do Trabalho, que o responsabilizou por tráfico de mulheres e exploração sexual, com indenização fixada em R$ 30 bilhões.
Com múltiplas frentes abertas, o caso segue sem solução e se arrasta há mais de uma década.
Fiat: herança, documentos conflitantes e disputa por poder
A disputa pela herança de Gianni Agnelli vai além da divisão de bens e se transforma em uma batalha pelo controle de um dos maiores impérios industriais da Europa.
Agnelli, que morreu em 2003, deixou uma fortuna estimada em US$ 14,2 bilhões, segundo o Bloomberg Billionaires Index. No centro da disputa está o controle da holding Dicembre, peça-chave na estrutura que sustenta grupos como Stellantis e Exor, grupo que controla a Ferrari e Juventus.
Após sua morte, a viúva Marella Caracciolo seguiu as diretrizes de uma carta de 1996 e transferiu 25% da Dicembre ao neto John Elkann. A decisão garantiu a ele o controle dos negócios da família e consolidou sua posição como principal herdeiro do império.
No entanto, a configuração começou a ser questionada pela própria filha de Agnelli, Margherita Agnelli. Ela apresentou um documento mais recente, datado de 1998, que indicaria uma divisão diferente da participação, contemplando seu irmão Edoardo Agnelli com os 25% da holding.
O detalhe é que Edoardo faleceu em 2000, antes mesmo do pai, o que adiciona uma camada extra de complexidade jurídica à disputa.
O caso ganhou novo fôlego em 2025, quando surgiu a possibilidade de reinterpretação da divisão patrimonial. Margherita argumenta que a estrutura atual beneficiou desproporcionalmente os três filhos de seu primeiro casamento, enquanto os cinco filhos do segundo casamento teriam recebido menos do que o justo.
Se a tese avançar, a redistribuição da fortuna pode alterar significativamente o equilíbrio de poder dentro da família — e, por consequência, dentro das empresas que orbitam o grupo.
Do outro lado, John Elkann e seus advogados sustentam que a divisão realizada em 2004 é definitiva e não pode ser revista.
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