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Entre a paixão de colecionadores e a frieza dos números, garrafas que alcançam valores milionários passam por uma reavaliação global – o ativo alternativo ainda é uma aposta rentável?
Em novembro de 2023, um martelo bateu em uma sala da casa de leilões Sotheby's, em Londres, e selou o destino de uma garrafa de uísque por U$ 2,7 milhões. Não era um artefato antigo ou uma joia da coroa, mas uma The Macallan 1926, com rótulo do artista italiano Valerio Adami. Menos de um ano antes, uma garrafa semelhante havia sido vendida por 2,2 milhões de libras.
Este evento não é um caso isolado; ele representa o auge de uma década de crescimento que posicionou o uísque raro como um dos ativos de luxo mais rentáveis do mundo. A valorização ilustra um mercado que vai além da bebida. Aqui, ela se torna um ativo financeiro complexo, volátil e, por vezes, fascinante.
Ao mesmo tempo, o setor passa atualmente por uma recalibração, com uma correção nos preços que levanta questões importantes: o que realmente define o valor de uma garrafa? A recente queda é o estouro de uma bolha especulativa ou uma oportunidade para investidores de longo prazo?

Navegar neste cenário exige mais do que capital; é necessário conhecimento. E poucas pessoas no Brasil o dominam como Maurício Porto.
Colecionador, sócio do bar paulistano Caledônia Whisky & Co. e autor do blog O Cão Engarrafado, o profissional é qualificado em destilados pela Wine and Spirits Education Trust de Londres. Em 2023, seu reconhecimento foi selado com o título de Keeper of the Quaich, uma honraria concedida pela prestigiada sociedade escocesa de mesmo nome. E é ele que nos responde o que transforma uma garrafa de uísque em um investimento de portfólio.
O que leva uma garrafa a custar o equivalente a um imóvel de luxo? Segundo Maurício Porto, a resposta não é simples e começa pela distinção entre raridade e valor. “Existe um conjunto de fatores. Vamos começar desambiguando algumas coisas: raro não significa valioso”, afirma.
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“Se uma pequena destilaria do interior de Minas Gerais produzir um uísque com uma tiragem de apenas dez garrafas, esse uísque será raríssimo, porque só foram produzidas dez garrafas. Mas isso não significa que elas sejam desejadas ou valiosas”. A raridade, explica ele, é apenas uma questão de quantidade.
“Agora, para que ele seja raro e valioso, entram outros fatores. Pode ser a destilaria, a época de destilação ou a idade.” A idade, em particular, tem uma relação direta com a escassez física. À medida que o destilado envelhece em barris de carvalho, uma parte evapora – um fenômeno poeticamente chamado de angel's share, ou a parte dos anjos, em português.
“Isso significa que um barril que conseguiu aguentar 70 anos com o uísque dentro terá perdido mais de três quartos do seu volume. Um uísque de 70 anos, por exemplo, vai render, talvez, dez garrafas”, detalha Porto.

Fatores históricos também são determinantes. A crise do uísque no início dos anos 1980 levou ao fechamento de diversas destilarias, que hoje são conhecidas como “destilarias fantasmas” ou silent stills. Porto cita o caso emblemático da Port Ellen, fechada pela fabricante de bebidas alcoólicas Diageo em 1983 por ser considerada menos produtiva.
“A Diageo começou a engarrafar esse estoque e, devido à escassez, eles se tornaram cada vez mais caros e raros. Muita gente compra para colecionar, porque nunca mais vai existir”, diz Maurício Porto. Isso quer dizer que um produto cuja oferta é finita e decrescente a cada garrafa aberta possui uma tese de investimento naturalmente forte.
Globalmente, a indústria do uísque é robusta, com um valor estimado entre US$ 67 e US$ 72 bilhões em 2024 e projeções de crescimento anual superiores a 6% para os próximos anos. O nicho de garrafas raras, no entanto, vive um momento de ajuste. O KFLII (Knight Frank Luxury Investment Index), principal termômetro do setor, registrou uma queda de 9% na categoria Rare Whisky ao longo de 2024, acumulando um recuo de 19,3% desde o pico em meados de 2022.
Apesar da correção recente, a perspectiva de longo prazo conta uma história diferente. Nos últimos dez anos, o mesmo índice aponta uma valorização de impressionantes 191,7%, tornando o uísque raro o ativo de melhor desempenho dentro do KFLII no período. Nomes como The Macallan continuam a dominar o topo do mercado em valor e volume, mas são desafiados por marcas como Springbank e Ardbeg, que ganham prestígio entre conhecedores.
A transformação de bebida em ativo financeiro ocorre quando a escassez, a reputação e a demanda se encontram, conta Maurício Porto. Uma garrafa de uísque se torna um ativo porque sua oferta é limitada e, em muitos casos, decrescente, enquanto a demanda de colecionadores e investidores em todo o mundo continua a crescer.
A valorização é determinada por um conjunto de fatores que vão além do líquido. A reputação da destilaria é o pilar fundamental. A idade, como explica Porto, não é apenas um número, mas um atestado de escassez devido à evaporação. A tiragem limitada, seja de um único barril, o single cask, ou de uma edição comemorativa, cria um desejo imediato.
No entanto, o fator que pode catapultar o preço é a narrativa. A análise das garrafas mais caras já vendidas mostra que a história e a apresentação são tão importantes quanto o conteúdo. A safra de 1926 da The Macallan, por exemplo, tem seu valor variando em milhões de dólares, dependendo apenas do artista que assina o rótulo. É assim que, em termos de rentabilidade, o uísque raro se posicionou como uma alternativa.
Uma análise comparativa do desempenho de ativos na última década, de setembro de 2015 a setembro de 2025, mostra que o índice KFLII Rare Whisky (+191,7%) superou o mercado imobiliário brasileiro, representado pelo IFIX (+154,9%). Embora não tenha batido o retorno de ações americanas (+227,6%) ou do ouro (+227,3%) no mesmo período, sua baixa correlação com os mercados de ações tradicionais o posiciona como ferramenta de diversificação de portfólio.

Quem são as pessoas por trás desse mercado, afinal? No Brasil, a linha entre investidor e colecionador é tênue e, na maioria das vezes, pende para a paixão.
“No Brasil, o perfil é mais o do colecionador apaixonado”, observa Porto. Ele cita exemplos de profissionais do mercado financeiro que colecionam por hobby. “Ele não faz isso porque quer investir, mas porque gosta e tem dinheiro para isso; inclusive, ele abre e bebe suas garrafas. Há um grande fator de paixão, pois é difícil ter o conhecimento necessário para comprar algo se você não for apaixonado pelo assunto”.
Internacionalmente, o cenário tem mais diversificação. “Fora do Brasil, existem fundos de investimento com uma abordagem mais científica e profissional”, diz. Esses fundos operam com base na lei dos grandes números, comprando em leilões e montando carteiras diversificadas para mitigar riscos, de forma semelhante a um portfólio de ações.
A entrada no mercado não é trivial. Embora existam garrafas colecionáveis em diversas faixas de preço, o investimento sério exige capital elevado.
Porto é cético quanto à viabilidade para o pequeno investidor. “Para ser sincero, uísque não é um bom investimento, a não ser que você esteja lidando com valores muito altos. E, quando se joga com valores muito altos, há um grave problema de liquidez”.
Para quem deseja começar, o conselho de Porto é claro e vai na contramão da lógica puramente financeira. “Primeiro, comece como entusiasta, não como investidor. Se você quer investir em algo sem gostar do assunto, é melhor aplicar em ações, hedge ou simplesmente colocar seu dinheiro no CDB e deixar render”, aconselha.
A paixão, segundo ele, é a melhor proteção contra as armadilhas de um mercado complexo. “Se você não gosta do negócio, por que vai arriscar? Entrar apenas como um investimento, sendo completamente alheio a esse mundo, é uma má ideia”.
Uma vez adquirido, o uísque raro exige cuidados rigorosos para manter seu valor. “Os cuidados de armazenamento e conservação são absolutamente fundamentais para preservar o valor”, enfatiza Porto. Uma garrafa mal conservada pode perder valor rapidamente.
“Se o nível do uísque, mesmo com a garrafa fechada, começa a evaporar e passa do meio do ombro da garrafa, ele já perdeu valor. Se o rótulo está desgastado ou se a garrafa está sem a caixa original, ela também perde valor”.
As regras de armazenamento são precisas: “A garrafa deve ser guardada em um lugar com pouca luz, umidade relativamente controlada e ao abrigo da luz solar direta", instrui Porto.

A temperatura deve ser estável, pois grandes variações são prejudiciais. E, crucialmente, a garrafa requer armazenamento vertical. “Como a bebida tem no mínimo 40% de graduação alcoólica, o álcool acaba corroendo a rolha”, explica.
A autenticidade é outro pilar. A melhor forma de evitar falsificações é comprar de fontes confiáveis, como casas de leilão de renome ou varejistas especializados. A proveniência – o histórico de propriedade da garrafa – é fundamental para garantir tanto a autenticidade quanto a qualidade da conservação ao longo do tempo.
Apesar dos retornos impressionantes, o investimento em uísque não é isento de riscos. Porto lista os perigos mais imediatos e práticos. “O produto pode estragar: a rolha pode ressecar e permitir a evaporação, a garrafa pode cair e quebrar, ou seu filho pode bebê-la em uma festa misturada com energético”, brinca.
Financeiramente, a primeira barreira é a depreciação inicial. “A loja cobra um prêmio. Se você compra uma garrafa por 100 libras e tenta vendê-la em um leilão no dia seguinte, conseguirá no máximo 80 libras, com raríssimas exceções”, alerta Porto.
Além disso, há elevados custos de transação. O buyer's premium, comissão paga à casa de leilões, pode chegar a 25% em leiloeiras como a britânica Christie's. Somam-se a isso custos anuais de armazenamento profissional e seguro.
O maior risco, contudo, é a falta de liquidez. Vender uma garrafa rara não é como vender uma ação. “Para garrafas de valores astronômicos, o principal risco é a liquidez”, afirma Porto.
“Hoje, existe um mercado aquecido para esse tipo de colecionismo, especialmente na Ásia, mas isso pode não ser verdade no futuro. Pode chegar um momento em que a garrafa atinge seu valor limite, e então você fica com US$ 2,5 milhões presos em um único ativo.”
No Brasil, o problema é ainda mais delicado. Porto relata o caso de uma garrafa rara da destilaria escocesa Dalmore que não encontrou comprador em um leilão local, mesmo sendo ofertada pela metade de seu preço internacional.
Finalmente, há o risco da especulação. “Eu não acredito que seja uma alternativa de longo prazo, porque o mercado de uísque é cíclico”, pondera. “Hoje, já observamos uma desvalorização, especialmente porque as marcas perceberam que as pessoas colecionam e estão lançando produtos demais. Esse excesso de oferta acaba deixando o entusiasta e o colecionador um pouco de saco cheio”.

O futuro do mercado de uísque como investimento, no final das contas, aponta para caminhos incertos. Se por um lado, a indústria global continua a crescer, por outro, o mercado secundário de colecionáveis passa por uma correção necessária, que pode representar uma oportunidade de compra para investidores pacientes e com visão de longo prazo.
No Brasil, o cenário é paradoxal. “O mercado de uísque raro no Brasil praticamente não existe. O problema é a liquidez; é um mercado muito incipiente”, afirma Porto. A alta tributação e a burocracia de importação dificultam o acesso a garrafas raras, fazendo com que os poucos colecionadores sérios comprem e armazenem seus ativos no exterior.
O Brasil tem potencial para desenvolver um mercado de colecionismo mais robusto, mas ainda há um longo caminho. Para quem se aventura hoje, vale seguir o conselho de Maurício Porto e começar pela paixão. Em um mercado onde a narrativa vale milhões, entender a história por trás de cada rótulo não é apenas um diferencial, é a essência do próprio investimento.
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