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Camille Lima

Camille Lima

Repórter de bancos e empresas no Seu Dinheiro. Jornalista formada pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), em 2025 foi eleita como uma das 50 jornalistas mais admiradas da imprensa de Economia, Negócios e Finanças do Brasil. Já passou pela redação do TradeMap.

CRISE FISCAL

O governo não vai cumprir a meta de déficit zero — e isso traz uma notícia boa e outra ruim, segundo economista-chefe do BTG Pactual

Para Mansueto Almeida, nem tudo ainda está perdido do lado fiscal. Ele também disse quando acredita que o Ibovespa pode voltar a subir

Camille Lima
Camille Lima
11 de junho de 2024
12:00 - atualizado às 9:52
Mansueto Almeida, economista-chefe do BTG Pactual, fala sobre cenário fiscal no Brasil
Mansueto Almeida, economista-chefe do BTG Pactual, fala sobre cenário fiscal no Brasil - Imagem: Estúdio Tramma

É quase consenso no mercado financeiro que o governo não será capaz de cumprir com a meta de déficit zero defendida pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Mas para Mansueto Almeida, economista-chefe do BTG Pactual, existe uma breve notícia boa e outra bastante ruim sobre a situação fiscal do Brasil.

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“A boa notícia é que o mercado nunca acreditou nesses números e sempre trabalhou com a expectativa de que teríamos déficit todos os anos neste governo, até 2026”, disse Almeida, em painel durante o evento ABVCAP Experience

É por isso, segundo o economista, que a revisão das metas fiscais em abril — que abandonou o superávit primário por um “zero-a-zero” em 2025 — não assustou os investidores. “As novas metas são ainda melhores do que a expectativa do mercado desde o ano passado.”

Mas se o “copo meio cheio” já não parecia lá muito animador, o lado negativo começa a preocupar. Mais. Para Mansueto, um dos principais riscos macroeconômicos do país é o impacto do crescimento da despesa obrigatória do governo federal.

A maior parte do gasto público é puxada pelas regras automáticas de aumento dessas despesas — como os benefícios previdenciários e assistenciais, que são ligados ao salário mínimo, ou o gasto com saúde e educação, vinculado à arrecadação. 

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“O problema não é o fato de a dívida no Brasil ser alta, mas sim quando ela vai parar de crescer, e ninguém no governo consegue responder essa pergunta.”

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O problema fiscal do Brasil

Na avaliação de Mansueto Almeida, o atual arcabouço fiscal não é consistente. “O governo não consegue mostrar com convicção que vai cumprir a regra que ele mesmo estipulou”, disse, em evento.

“O próprio Tesouro questionou como o governo pretende controlar o crescimento da despesa, e ninguém deu essa resposta. Dizem que vão tentar mudar as despesas, mas ninguém escutou da ala política do governo uma única mensagem de que teremos que ser mais cautelosos com o crescimento do gasto público porque temos uma regra fiscal a cumprir.”

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Os temores com a crise fiscal do Brasil impactaram diretamente o desempenho do mercado, com uma queda acumulada de 9,34% do Ibovespa em 2024 e uma desvalorização da ordem de 10% do real desde janeiro.

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Parte dos receios do mercado é que o governo deve anunciar uma nova mudança na regra fiscal. “Quando o governo tiver que elaborar o orçamento, ele simplesmente vai falar que o limite para crescimento do gasto vai ter que subir. Isso está impactando a expectativa de inflação, a taxa de juros longa de NTN-B, e está batendo no dólar.”

Caso essas expectativas se confirmem, o Brasil vivenciará um cenário ainda pior para inflação e com juros longos elevados, além de um momento “ruim” para a bolsa e para fusões e aquisições (M&As) no mercado doméstico, afirmou o executivo. 

O desafio fiscal que Lula tem nas mãos

Entretanto, ainda é possível contornar esse cenário, de acordo com Almeida. Mas com uma condição: desde que venha um “sinal político de Brasília” com o compromisso de todos os poderes em controlar gastos — e que esse debate seja liderado pelo Executivo, representado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

“Isso não vai resolver os nossos problemas fiscais. Se o governo simplesmente cumprir com o que está na regra fiscal, a gente vai terminar esse governo com dívida na casa de 82% do PIB, e vai estar na próxima eleição presidencial debatendo o ajuste fiscal”, disse.

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“Infelizmente, até o final desse governo, vai ser muito difícil recuperar o grau de investimento pelo simples motivo de que não consegue responder hoje a partir de qual ano a dívida pública do país começará a cair”, acrescentou.

Em vez de jogar a toalha, o economista do BTG Pactual afirma que é necessário que o governo mostre que está disposto a quebrar a vinculação dos gastos com o crescimento da receita — para que o mercado consiga começar a enxergar que, nos próximos anos, a dívida pública possa começar a cair. 

“É fazer o ajuste fiscal e sair do déficit para o superávit”, destaca Mansueto. “Esse é o desafio, não dá para fazer com carga tributária, porque ela já é muito alta. A gente vai ter que olhar o controle da despesa, porque o Brasil gasta muito.”

Isso não significa que o sistema tributário não precise de ajustes, segundo o economista, mas sim que seja usado para controlar outras disfunções da economia brasileira.

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“Pode melhorar sistema tributário, mas se tiver sucesso em aumentar a categoria de imposto de renda com a correção de algumas anomalias, aquela economia deveria ser usada para reduzir imposto indireto, que hoje onera o preço dos produtos.”

E a bolsa brasileira?

O economista do BTG ainda citou brevemente as perspectivas para a bolsa brasileira — que não estão lá muito otimistas.

“Enquanto a gente não tiver uma mensagem muito clara do governo — não do ministro da Fazenda, mas da ala política —, vai ser difícil o mercado melhorar”, afirma Mansueto.

Nas projeções de Almeida, eventualmente o mercado vai melhorar quando começar a queda de juros nos Estados Unidos. 

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“Mas estamos com um prêmio muito alto da NTN-B. Mesmo com juro tão alto, ninguém no mercado está tendo vida fácil no Brasil. A saída é o governo mostrar credibilidade de que vai cortar despesa, e essa mensagem não está sendo dada por Brasília.”

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