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Victor Aguiar

Victor Aguiar

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e com MBA em Informações Econômico-Financeiras e Mercado de Capitais pelo Instituto Educacional BM&FBovespa. Trabalhou nas principais redações de economia do país, como Bloomberg, Agência Estado/Broadcast e Valor Econômico. Em 2020, foi eleito pela Jornalistas & Cia como um dos 10 profissionais de imprensa mais admirados no segmento de economia, negócios e finanças.

Cautela elevada

Por que a Oi (OIBR3/OIBR4) está desabando com a proposta de grupamento de ações?

Com o grupamento na proporção de 50 para 1, a Oi (OIBR3 e OIBR4) vê os temores quanto à liquidez das ações aumentarem

Victor Aguiar
Victor Aguiar
19 de outubro de 2022
16:13 - atualizado às 16:17
fachada de uma loja da Oi (OIBR3 e OIBR4)
Oi - Imagem: Divulgação

A bolsa vive um bom momento como um todo: o Ibovespa sobe mais de 5% desde o começo de outubro. Mas, fora do índice, chama a atenção o mau desempenho das ações da Oi (OIBR3/OIBR4), com perdas de mais de 15% de baixa no período — e esse movimento foi ampliado pela recente proposta de grupamento dos papéis da companhia.

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As coisas já não vinham particularmente boas para a empresa: além de estar numa recuperação judicial que se arrasta desde 2016, a Oi tem enfrentado uma série de revezes em seu programa de venda de ativos — e, a depender do desfecho nos tribunais, pode ver a arrecadação com o seu plano de desinvestimentos ficar muito abaixo do previsto.

Dito isso, o plano para um grupamento de ações na proporção de 50 para 1 caiu como um balde de água fria no mercado, e é fácil detectar o impacto negativo dessa notícia. No pregão de terça (18), o primeiro após a divulgação da proposta, os papéis OIBR3 despencaram 11,1%; os ativos preferenciais OIBR4 não ficaram para trás e recuaram 9,9%.

Mas... por que o possível grupamento das ações da Oi teve esse efeito tão devastador sobre o desempenho da empresa na bolsa? Por que a notícia trouxe ainda mais cautela aos investidores — e continua pressionando os papéis, que seguem em baixa nesta quarta (19)?

Afinal, grupamentos ou desdobramentos são eventos que, a priori, não deveriam influenciar o preço dos ativos em bolsa; essas operações não mexem com o valor consolidado de uma companhia, apenas com a cotação das ações. A tese de investimentos, o estado das operações e as premissas futuras seguem as mesmas.

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O xis da questão, para a Oi, é a "armadilha de liquidez" que será gerada pelo grupamento, caso ele seja aprovado em assembleia de acionistas — e há uma série de detalhes a serem explorados nesse tema.

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Retorno acumulado do Ibovespa e das ações da Oi (OIBR3 e OIBR4) desde o começo desta semana: a discrepância ocorre a partir do dia 18, pregão posterior ao anúncio do plano de grupamento aprovado pelo conselho de administração da companhia. Fonte: B3

Grupamentos e desdobramentos

Em primeiro lugar, é importante entender o motivo de grupamentos e desdobramentos de ações não serem eventos que fazem preço na bolsa — pelo menos, não em teoria. Estamos falando de operações que apenas promovem uma "reorganização interna", sem mexer nos valores intrínsecos a uma companhia.

No caso da Oi (OIBR3 e OIBR4), o conselho de administração aprovou um grupamento de ações na proporção de 50 para 1. Ou seja: 50 papéis da empresa serão fundidos, e suas cotações serão somadas. Num exemplo prático, é como se, em vez de ter 50 ativos cotados a R$ 1, você passará a ter apenas um, que custa R$ 50.

Tomemos, então, as ações da Oi como base — atualmente, há 6,44 bilhões de papéis ordinários OIBR3, negociados a R$ 0,30, e 157,7 milhões de papéis preferenciais OIBR4, cotados a R$ 0,71. Caso o grupamento na proporção de 50:1 seja aprovado, teríamos a seguinte composição, considerando os preços do momento:

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  • OIBR3: 128,9 milhões de ações, cada uma com valor unitário de R$ 15,00;
  • OIBR4: 3,15 milhões de ações, ao preço unitário de R$ 35,50.

Repare que essa reorganização não muda o valor de mercado da Oi, que atualmente é de pouco mais de R$ 2 bilhões. De um lado, o preço das ações aumenta; do outro, o total de papéis diminui — como ambos os ajustes acontecem na mesma proporção, o efeito é neutro.

Um desdobramento, por sua vez, seria a operação contrária: uma ação é dividida em fatias menores, que, por sua vez, custarão menos; o valor da companhia, assim, também segue o mesmo.

Dito isso, se nada muda, então tudo continua como antes para a Oi, certo? Bem...

Oi (OIBR3 e OIBR4) sob a mira da CVM

Com essa explicação em mente, a próxima pergunta é: por que uma empresa faz grupamentos ou desdobramentos de ações? Há inúmeros motivos, mas quase sempre é uma questão de estratégia.

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Pense numa empresa cujos papéis têm um valor unitário muito elevado, de R$ 100. Um lote padrão de ações costuma ser composto por 100 ativos; sendo assim, um acionista precisará desembolsar R$ 10.000 para adquirir um único lote. É uma cifra elevada e que pode afastar investidores de menor porte.

O desdobramento, assim, torna as ações mais baratas e deixa o investimento mais viável para os agentes financeiros mais modestos; além disso, ao aumentar o número de papéis em circulação, há um efeito de elevação na liquidez dos ativos — o Magazine Luiza (MGLU3) ficou famoso por promover inúmeros desdobramentos ao longo dos anos e, com isso, ganhou importância no mercado brasileiro.

E o grupamento? Bem, novamente, pense na lógica inversa: uma ação extremamente barata pode atrair investidores com um viés mais especulativo, dado o pouco volume financeiro que elas exigem. Assim, juntar os papéis em blocos maiores serve para elevar as cotações e afastar esse tipo de acionista.

É justamente esse o caso da Oi (OIBR3 e OIBR4): suas ações são negociadas na casa dos centavos, e o alto volume financeiro diário desses papéis é fruto da atuação de especuladores, que compram e vendem os ativos em janelas de tempo muito curtas. Só que, na Oi, essa decisão foi tomada, em grande parte, por pressão da CVM.

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Uma das orientações do xerife do mercado de capitais é a de que as empresas devem empregar os esforços necessários para manter suas ações acima de R$ 1,00, exatamente para evitar esses movimentos especulativos. E a Oi já estava abaixo da linha de corte há algum tempo.

Ou seja: o grupamento na proporção de 50:1 ocorre para adequar as ações OIBR3 e OIBR4 às exigências da CVM, e não a uma decisão puramente estratégica da companhia — o que, a priori, também não é uma notícia ruim. O susto do mercado veio, em grande parte, pela magnitude do movimento.

Oi: 50 é demais?

Movimentos de grupamento ou desdobramento costumam ocorrer em proporções não muito elevadas, de modo a não provocar choques de liquidez no mercado. E os 50:1 propostos pela Oi (OIBR3 e OIBR4) causam exatamente isso — um problema particularmente grave para uma empresa em recuperação judicial.

Pense como um investidor que pensa em comprar ações da Oi: é um investimento arriscado, dado que a companhia está numa situação financeira difícil; por outro lado, caso tudo dê certo e o grupo consiga se reerguer, os papéis — que hoje custam centavos — podem disparar, dando ganhos volumosos aos acionistas que comprarem agora.

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Essa relação entre risco e retorno leva em consideração que as ações da Oi são bastante líquidas e baratas: comprar um papel OIBR3 representa um investimento pequeno e que pode ser desfeito com facilidade, dado o alto volume de negociação desse ativo.

Só que, ao se ver praticamente obrigada a propor um grupamento enorme de 50 para 1, a Oi tira o benefício da dúvida de suas ações: uma coisa é comprar um papel OIBR4 a R$ 0,71 e que pode ser vendido sem maiores dores de cabeça; outra é ter o mesmo ativo a R$ 35,50, mas com uma liquidez muito menor — vendê-lo pode ser um problema.

A Saraiva (SLED3/SLED4) se viu na mesma sinuca de bico no fim de 2021. Assim como a Oi, ela também está em recuperação judicial e tinha ações cotadas abaixo de R$ 1,00, sendo pressionada pela CVM para fazer o grupamento. E o 'risco liquidez' também pesou para a companhia.

Na ocasião, foi proposto um grupamento de 35:1 nos papéis — portanto, menor que o da Oi. No primeiro pregão após a conclusão das operações, as ações SLED3 e SLED4 caíram mais de 20%, numa lógica parecida com a que pressiona as ações da Oi: saem as preocupações com a CVM, entram os riscos de liquidez reduzida.

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A assembleia de acionistas da Oi para votar a proposta de grupamento está marcada para o dia 18 de novembro.

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