2022-01-21T10:40:13-03:00
Victor Aguiar
Victor Aguiar
Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e com MBA em Informações Econômico-Financeiras e Mercado de Capitais pelo Instituto Educacional BM&FBovespa. Trabalhou nas principais redações de economia do país, como Bloomberg, Agência Estado/Broadcast e Valor Econômico. Em 2020, foi eleito pela Jornalistas & Cia como um dos 10 profissionais de imprensa mais admirados no segmento de economia, negócios e finanças.
BULL MARKET VERDE E AMARELO

Por que o Ibovespa está subindo tanto, enquanto Wall Street cai? 6 motivos que explicam o rali da bolsa

Enquanto o Nasdaq e outros mercados dos EUA amargam perdas em 2022, o Ibovespa acumula ganhos firmes. Entenda o rali da bolsa brasileira

20 de janeiro de 2022
16:55 - atualizado às 10:40
Touro amarelo com investidor em cima dele em direção para o alto, representando um bull market do Ibovespa e da bolsa brasileira
Imagem: Montagem Andrei Morais / Shutterstock

Um fenômeno raro cruza os céus dos mercados neste começo de 2022: enquanto as bolsas americanas amargam perdas expressivas — o todo poderoso Nasdaq já recua 8% no ano —, o Ibovespa desponta como uma estrela azul. O índice brasileiro, quem diria, vai na contramão do exterior e sobe mais de 3%. O que explica esse comportamento?

Bem, estamos diante de uma situação não muito comum, mas que não chega a ser uma passagem do cometa Halley. O que chama a atenção é que, a priori, tudo parece jogar contra o Ibovespa: lá fora, a alta de juros nos EUA é negativa para os mercados emergentes; aqui dentro, a economia e a política seguem turbulentas como sempre.

E, apesar disso, cá estamos nós, cada vez mais próximos de recuperar o nível dos 110 mil pontos — algo que parecia impensável ao fim de 2021, quando o principal índice de ações do país parecia fadado a perder os 100 mil pontos. Veja o gráfico abaixo:

Gráfico do Ibovespa em um ano, considerando o desempenho do momento no dia 20 de janeiro

É verdade que ainda estamos longe dos níveis vistos em junho, quando o Ibovespa chegou aos 130 mil pontos. Mas também é verdade que, com a alta vista nas últimas semanas, o índice brasileiro já retornou aos patamares vistos em outubro. Um começo de ano daqueles para o Brasil, que andava desacreditado no mercado global.

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Dito isso, é claro que essa alta firma da bolsa brasileira não ocorre por mero acaso. Há fatores bastante concretos que dão força ao Ibovespa e o fazem avançar em meio às incertezas globais — a dúvida, agora, é saber se o índice local continuará subindo como um foguete, ou se o seu brilho vai se extinguir rápido, tal qual uma estrela cadente.

Confira alguns dos pontos-chave para explicar esse surpreendente avanço da bolsa brasileira em 2022.

1. Petróleo rumo aos US$ 100?

Comecemos a análise a partir do item mais direto: o mundo passa por um contexto de valorização das commodities, como o petróleo. Um cenário particularmente positivo para empresas como a Petrobras (PETR3 e PETR4) e outras petroleiras no exterior.

A lógica é bastante simples. Como essas companhias são extratoras de commodities, é interessante para elas que o preço dos produtos seja o mais alto possível — quanto maiores as cifras, mais elevada será a receita líquida e mais forte será o balanço.

Veja abaixo o gráfico mostrando a correlação entre o preço do barril de petróleo Brent e as ações PN da Petrobras (PETR4) — as linhas representam o desempenho acumulado no ano por cada um desses ativos:

Repare que tanto o petróleo quanto a Petrobras começaram a reagir intensamente a partir do dia 10 de janeiro, data em que as tensões geopolíticas no Oriente Médio e no leste europeu começaram a ganhar as manchetes

O gráfico deixa bastante claro que a cotação do Brent e a ação da Petrobras são ativos intimamente ligados — e, não à toa, ambos acumulam ganhos de mais de 10% no ano. Sendo assim, cabe a pergunta: por que o petróleo está subindo tanto em 2022?

A resposta, infelizmente, passa pelo aumento nas tensões geopolíticas. Nos últimos dias, uma série de atentados na região do Oriente Médio — o mais importante polo produtor de petróleo do mundo — aumentou a tensão nos mercados, que temem por eventuais interrupções na produção ou no fornecimento da commodity.

Os atritos entre Rússia e Ucrânia, no leste europeu, também mexem diretamente com o preço da commodity, dada a percepção de que um eventual conflito armado entre os países acabaria afetando todo o continente. E, vale lembrar, o governo de Moscou é um dos principais produtores de petróleo do mundo.

Ou seja, estamos falando de um cenário com elevadas incertezas — e com desfechos que, potencialmente, podem reduzir a oferta internacional de petróleo. O barril do Brent, hoje na casa de US$ 88, já está nas máximas em anos, e analistas do Goldman Sachs já acreditam que as cotações podem chegar a US$ 100 no curto prazo.

Naturalmente, as projeções mais trágicas em termos geopolíticos podem não se concretizar, e uma eventual decisão dos membros da OPEP para aumentar a produção de petróleo pode puxar o preço da commodity para baixo. Mas, ao menos por enquanto, o cenário é bastante turbulento — e, na dúvida, o mercado se prepara para o pior.

A Petrobras e outras empresas brasileiras de óleo e gás, como PetroRio (PRIO3), 3R Petroleum (RRRP3) e PetroRecôncavo (RECV3) agradecem; e, embora uma alta muito súbita do petróleo possa trazer desdobramentos sociais negativos para a estatal, dado o consequente aumento nos combustíveis e as pressões sociais que se desdobrarão desse contexto, suas ações têm subido como nunca.

As ações PN da Petrobras (PETR4), atualmente negociadas acima dos R$ 31,00, já acumulam ganhos de mais de 11% no ano e estão nas máximas históricas; os papéis ON (PETR3) vão ainda melhor, com valorização superior a 13% em 2022 — e esses desempenhos são cruciais para entender o avanço do Ibovespa.

2. Minério de ferro nas alturas

Assim como o petróleo, o minério de ferro também passa por um rali neste começo de 2022: a commodity fechou o pregão desta quarta-feira (20) em alta de 2,66%, a US$ 134,72 a tonelada; em 3 de janeiro, estava cotada a US$ 119,28 a toneladas — uma alta de 12,9%.

A história se repete: a Vale (VALE3), uma das principais produtoras de minério de ferro, vê suas ações andarem em linha com a commodity, acumulando ganhos de 12% no ano. Papéis de siderúrgicas, como Usiminas (USIM5), Gerdau (GGBR4) e CSN (CSNA3), também têm avanços sólidos no período.

Novamente, é importante entender o contexto por trás da valorização da commodity. Se o petróleo sobe por temores quanto a um choque na oferta, o minério de ferro avança por uma perspectiva de superaquecimento na demanda.

Nos EUA, o pacote trilionário de incentivo à infraestrutura anunciado pelo governo Joe Biden tende a criar um ambiente bastante favorável às siderúrgicas, uma vez que o consumo de aço pelas inúmeras obras contidas no plano tende a aumentar de maneira firme nos próximos anos.

Do outro lado do mundo, o governo chinês deu a entender em diversas ocasiões que não pretende deixar a economia esfriar; Pequim, inclusive, vai na contramão do resto do mundo e tem reduzido as taxas de juros, dando incentivo ao consumo e à produção — e o mercado chinês é o grande comprador global de minério de ferro.

Nesse sentido, a Vale e as siderúrgicas têm tido um desempenho particularmente forte no ano. Veja a tabela abaixo:

AtivoDesempenho em 2022
Minério de ferro Qingdao (tonelada)+12,9%
Vale ON (VALE3)+12,8%
CSN ON (CSNA3)+7,7%
Usiminas PNA (USIM5)+9,9%
Gerdau PN (GGBR4)+6,3%
Levantamento: Seu Dinheiro

3. A hora e a vez dos grandes bancos?

Investir em bancões é uma coisa meio démodé para muitos: são empresas que atuam num setor com poucas emoções, que não apresentam crescimentos estratosféricos todo trimestre e estão longe do apelo de algumas teses mais modernas, como as de companhias do segmento de tecnologia.

Mas, como dizem, os clássicos são clássicos por um motivo: eles nunca saem de moda. Mesmo que a competição com fintechs e bancos digitais tenha mexido com as perspectivas de Itaú Unibanco (ITUB4), Bradesco (BBDC4) e Santander Brasil (SANB11), fato é que a Selic a 10% ao ano lhes traz um ambiente competitivo muito mais favorável.

Da mesma maneira que a Petrobras se beneficia com o petróleo mais caro e a Vale tem ganhos com o minério em alta, os bancos avançam na esteira da Selic cada vez mais elevados. Afinal, se a taxa básica de juros da economia está maior, os ganhos que os bancos terão com a cobrança de juros dos clientes também cresce.

Com isso, Itaú Unibanco PN (ITUB4) e Bradesco PN (BBDC4) sobem mais de 11% desde o começo de 2022, enquanto Santander units (SANB11) têm altas mais modestas, de 'apenas' 5%.

4. O time certo, na hora certa

Expostos os três pontos acima, chegamos ao quarto — e, talvez, mais importante — fator para explicar a alta do Ibovespa: a composição da carteira.

A B3 é responsável por montar o portfólio do Ibovespa e de diversos outros índices setoriais. A cada quatro meses, ela revisa as carteiras, incluindo ou excluindo ações e rebalanceando o peso relativo de cada papel. E é aqui que mora o xis da questão: o Ibovespa é muito concentrado nos setores de commodities e financeiro.

Atualmente, o Ibovespa conta com 93 ações diferentes, mas elas não possuem a mesma importância. Vale ON (VALE3), por exemplo, tem um peso de 16,5% — assim, suas altas e baixas são muito mais importantes para o comportamento do índice como um todo do que, digamos, os papéis da Positivo (POSI3), com participação de meros 0,03%.

Vale, Petrobras, Itaú Unibanco, Bradesco, Banco do Brasil e Santander Brasil, somados, respondem por 42% de todo o Ibovespa; se somarmos a esse grupo as siderúrgicas, os frigoríficos e as papeleiras — que também se beneficiam da demanda internacional aquecida —, chegamos a um bloco de 50%. Ou seja: as ações mais importantes para o Ibovespa são justamente aquelas com um ótimo desempenho em 2022.

Uma outra maneira de olharmos para essa questão é através do desempenho dos índices setoriais da B3. Veja abaixo como está o retorno de cada um deles ao longo do ano:

Ações de setores mais ligados ao ambiente doméstico de juros, como consumo (ICON) e Small Caps (SMLL) ficam para trás; exceção é o índice imobiliário (IMOB), impulsionado pelo bom desempenho recente das ações de operadoras de shoppings

Repare que o índice financeiro (IFNC), que acumula os grandes bancos e outras empresas do setor, é o que acumula os maiores ganhos; o IMAT, de materiais básicos e commodities, também vai muito bem, obrigado.

Outra análise importante é em relação ao MLCX — o índice de mid/large caps, as empresas de maior porte da bolsa. Enquanto ele avança quase 6% no ano, o SMLL, que representa as small caps, está quase no zero a zero em 2022. E, vale lembrar, o Ibovespa é o índice que representa as principais empresas do mercado acionário brasileiro.

O que nos leva diretamente ao quinto ponto:

5. O estrangeiro voltou para a bolsa?

Em mais um fenômeno que não era visto há tempos por aqui, o investidor estrangeiro tem sido uma importante fonte de recursos ao mercado acionário brasileiro: segundo dados da B3, os gringos já entraram com mais de R$ 12 bilhões na bolsa em janeiro.

Tipos de investidoresCompras (R$ mil)Vendas (R$ mil)Saldo líquido (R$ mil)
Investidores individuais45.347.17946.975.924-1.628.745
Clubes de investimento655.036830.217-175.181
Institucionais74.673.91386.889.221-12.215.308
Investidor Estrangeiro169.987.130157.424.33912.562.791
Empresas públicas e privadas3.149.0242.182.848966.176
Instituições financeiras12.311.76411.804.718507.046
Outros2.66419.443-16.779
Fonte: B3 (dados até o dia 17 de janeiro)

E o que explica esse comportamento do investidor estrangeiro? Será que o pessoal lá fora está otimista com a economia brasileira, prevendo um forte crescimento do PIB e do lucro das empresas no curto prazo?

Bem... não. É mais uma questão de oportunidade, como diz Werner Roger, gestor e sócio da Trígono Capital. "Com os juros subindo nos EUA, muitos [gestores e investidores internacionais] procuram oportunidades em emergentes para ter uma alocação maior no exterior", diz ele. E se é verdade que o Brasil tem problemas, outros países semelhantes ao nosso também tem uma bela cota de turbulências domésticas.

Rússia, Turquia, México, Argentina, Chile e África do Sul, apenas para citar alguns, também apresentam-se como alternativas arriscadas para o investidor global. Sendo assim, o Brasil aparece relativamente bem — possuía níveis de preço bastante deprimidos, ao mesmo tempo em que seu mercado é farto em informações.

E o próprio bom desempenho das commodities é um chamariz para os gringos: empresas como Petrobras e Vale, com sua enorme liquidez e ampla disponibilidade de dados, servem como portas de entrada interessantes para os investidores estrangeiros se posicionarem no Brasil — e o fato de ambas estarem num ótimo momento na bolsa, impulsionadas pelo petróleo e o minério, só facilita a tomada de decisão.

6. Preços atraentes

Por fim, há a questão do preço de entrada: tanto investidores locais quanto estrangeiros já vinham constatando que o Ibovespa tinha passado por uma correção bastante intensa, e que esse movimento de baixa generalizada nas cotações poderia abrir pontos interessantes de entrada.

Tanto é que muitos bancos e casas de análise traçavam um cenário bastante otimista para o Ibovespa ao fim de 2022, com algumas projeções colocando o índice acima dos 130 mil pontos em dezembro. Em termos de valuation, era consenso entre os analistas que o múltiplo de Preço/Lucro (P/L) do Ibovespa estava bastante descontado, independente da janela de tempo usada como base de comparação.

E, é claro: com preços baixos de um lado e um enorme montante de dinheiro a ser alocado do outro, não havia como o resultado ser diferente.

O que esperar daqui em diante?

Expostos os tópicos acima, ainda é preciso fazer algumas considerações importantes:

  • Investidores institucionais, como fundos de pensão, estão com saldo líquido negativo em R$ 12 bilhões em janeiro; com os juros mais altos, tais fundos tendem a aumentar a exposição aos títulos de renda fixa e reduzir a presença na bolsa, criando um fluxo de saída que pressiona o Ibovespa;
  • Por mais que a situação tenha se invertido e a bolsa brasileira suba enquanto Wall Street cai, a situação foi oposta em 2021: lá fora, os mercados americanos tiveram ganhos expressivos, enquanto o índice local amargou perdas de mais de 10%;
  • A alta de juros nos EUA é particularmente ruim para o setor de tecnologia, cujas empresas costumam ainda estar numa fase de amadurecimento e tenham grande parte de seu valor projetada no futuro. É por isso que o Nasdaq, índice mais concentrado nesse segmento, cai de maneira tão intensa;
  • As eleições presidenciais no Brasil seguem como um forte fator de incerteza, uma vez que Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva aparecem como favoritos — e, a priori, nenhum dos dois agrada muito o mercado. No entanto, recentes declarações de Lula, indicando um tom mais moderado e com acenos à agenda econômica defendida pelos agentes financeiros, servem para dar um gás extra à bolsa nos últimos dias.

A mensagem desta matéria é: a alta do Ibovespa ocorre por fatores bastante específicos, que influenciam justamente o pequeno grupo de ações que têm o maior peso em sua composição — o que não quer dizer que toda a bolsa esteja em alta.

Ainda existem muitos fatores de risco no radar: desde uma reversão nas tendências para as commodities até uma alta mais rápida que o previsto nos juros americanos, é difícil cravar um padrão de comportamento para a bolsa no curtíssimo prazo. Mas, sabendo o que ocorreu até aqui, fica mais simples para tentar entender os próximos passos do mercado acionário doméstico.

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