Confissões
Eu não acredito em super-herói. Todos eles morreram de overdose. No meio das eleições, meu partido é um coração partido, com todas as ilusões perdidas.
“Deixa os gay ser gay, deixa os gordos comer, deixa as mina dar, deixa eu ter meus filhos. Deixa as pessoas.”
Admiro a sabedoria do filósofo Mr. Catra.
Tenho ouvido muitos discos, conversado com pessoas, caminhado meu caminho, papo, som, dentro da noite… Estou convencido de que Nietzsche estava certo: “Por vezes, as pessoas não querem ouvir a verdade, porque não desejam que as suas ilusões sejam destruídas”.
Talvez daí venha a máxima de outro filósofo: “Os únicos que dizem a verdade são os loucos e as crianças. É por isso que os loucos são aprisionados e as crianças educadas”. Não sei em qual das categorias me enquadro. Provavelmente, nas duas. Na primeira, com certeza. A calvície traz dúvidas quanto à segunda.
Na minha posição e com os supostos amigos que chegaram depois do Fim do Brasil, talvez seja, ao mesmo tempo, loucura e infantilidade confessar certas crenças pessoais. Paciência. É impossível fugir de si mesmo, o que me obriga hoje a sair do armário — metodológica e financeiramente falando, claro. Quanto ao resto, seguem as preferências de sempre, o que, a julgar pelos amigos de infância, configura uma exceção no mundo da globalização de hoje.
Independente
Há uma clássica discussão em finanças sobre gestão passiva ou ativa. Coloco-me no primeiro time — e faço o registro de se tratar de uma perspectiva pessoal, não necessariamente reflexo da opinião da Empiricus como instituição; o tema é polêmico mesmo aqui dentro. Respeito a divergência.
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A gestão ativa acredita que o gestor possui uma competência sistemática capaz de levá-lo a gerar “alfa" (um excedente de retorno sobre a média do mercado) de maneira consistente. Grosseiramente falando, haveria certos indivíduos com habilidade para superar a média do mercado independentemente das condições postas.
Na gestão passiva, tem-se o contrário. Abre-se mão da prerrogativa de “bater o mercado” e resolve-se seguir uma determinada média (algum índice de referência).
'Superpoderes'
Eu não acredito em super-herói. Todos eles morreram de overdose. No meio das eleições, meu partido é um coração partido, com todas as ilusões perdidas.
Na minha cabeça, o argumento é tão óbvio que quase posso prová-lo formalmente. Com um pouco de álgebra e cálculo diferencial, poderia propor um teorema cuja demonstração comprovaria como superpoderes não levam a qualquer vantagem sobre a média do mercado.
"Não sabemos se isso é problema ou se é a solução.”
Sem apelar ao formalismo matemático (quem aguenta?!), me permita recorrer apenas ao aspecto intuitivo do argumento.
Imagine três indivíduos dotados de poderes superiores à média do mercado. Vamos chamá-los aleatoriamente de Aluísio Struba, Marcelo Maçã e Robério Xaves. Eles são mais inteligentes, mais preparados e mais dedicados do que todos os demais. Dispõem dos melhores processos, das melhores tecnologias e das melhores pessoas para auxiliá-los na tomada de decisão de seus investimentos. Podemos pensar em qualquer outra habilidade que os colocaria em vantagem sobre a média do mercado — sim, os três dispõem disso também.
Mas o que ocorre na prática?
Cada um desses três super-heróis mantém opiniões e posições conflitantes sobre os mercados, algumas delas, inclusive, diametralmente opostas. Ora, se você detém um superpoder e seu vizinho também carrega um superpoder, essa habilidade deveria levá-los a uma mesma vantagem sobre determinada coisa.
Mas não é o que acontece. Mesmo estudando mais do que os outros, trabalhando mais do que os outros, gozando das melhores equipes, sendo mais inteligentes, tendo as melhores tecnologias, cada super-herói pensa uma coisa e age a partir disso.
Só há, portanto, uma decorrência natural: por mais superpoderosos que sejamos, isso não constitui um diferencial. Podemos ser os dois melhores e, ainda assim, chegarmos a conclusões conflitantes. Caramba! Sou imediatamente levado a pensar, portanto, que nem mesmo os deuses do Olimpo podem penetrar os mercados e seu futuro. Esses continuarão impermeáveis, obscuros, opacos, para quem quer que seja.
Até os deuses discordam sobre uma mesma coisa, entende? Ser o “pica das galáxias” não o leva a uma resposta indubitável; outro “pica das galáxias” discorda de você. Isso impossibilita a ideia de geração sistemática de alfa. Não há superpoder capaz de domar a aleatoriedade e a incerteza dos mercados. Ponto final.
insignificância cósmica
Estamos todos nós condenados à nossa insignificância cósmica.
Sabe o que isso significa?
Entre outras coisas, que eu, Felipe, posso fazer por você menos do que provavelmente você imagina. Não é exclusividade minha, não. Vale para qualquer outro especialista em finanças. Sou um dito especialista que acredita muito pouco nos especialistas.
Mas, calma, também não é o fim do mundo.
Talvez nossa vantagem aqui seja apenas o reconhecimento da própria ignorância. Isso impede que eu lhe forneça um mapa errado. A equivocada certeza dos outros quanto à própria capacidade é uma passagem direta, sem escalas, para o precipício.
Fazer com o que o investidor não cometa grandes erros já é algo bastante valioso.
Há algo além. Minha tarefa aqui é justamente tentar extrair os maiores benefícios da aleatoriedade e da incerteza, em vez de tentar domesticá-las, entendê-las ou até mesmo superá-las.
Qual a proposta pragmática? Só pode haver um caminho lógico derivado desta exposição, que passa necessariamente por uma exposição diversificada em ativos com retornos assimétricos (convexos). Diversificação e convexidade — não pode ser uma ou outra; precisamos das duas coisas.
Por que isso?
Se você compra 1.000 ações e passa 50 anos com aquilo, o que provavelmente acontece. Metade quebra e metade se multiplica. Você perde 100 por cento nas que quebraram, mas ganha muito mais do que 100 por cento nas multiplicações. Por conta da lei de responsabilidade limitada, ao comprar uma ação, você perde no máximo 100 por cento e ganha, no máximo, sei lá 100 mil por cento (lucros potencialmente infinitos). Isso é convexidade.
Vale o mesmo para operações compradas em opções, startups, ICOs, criptomoedas, small caps (Max Bohm lista algumas ideias de diversificação com Microcaps aqui, novas tecnologias e por aí vai. Você diversifica em busca de uma única “mega-porrada” capaz de pagar a conta de vários erros.
Existe uma nuance aqui. As pessoas pegam a ideia da diversificação e a replicam para ativos côncavos (antônimo de convexo). E daí vale o argumento contrário.
Assimetria convidativa
O que acontece se você compra vários ativos de renda fixa? No fundo, você está aumentando a chance de se expor a um default (calote), uma perda de 100 por cento. E isso vai destruir sua alocação de renda fixa. Basta um default para fazê-lo passar anos atrás do CDI num fundo de renda fixa. É oposto do caso das ações: na renda fixa, o máximo que vai acontecer se você carregar o título até o vencimento é receber o juro combinado (no melhor dos casos, você não ganha muito). E no pior, você perde 100%. Não se trata de uma assimetria convidativa.
Contraintuitivamente, portanto, em situações de retornos côncavos, a diversificação aumenta seu risco, em vez de diminui-lo.
Quando Santo Agostinho escreveu “Confissões”, ele queria retratar a história de um homem convertido ao cristianismo depois de seus desregramentos. Segundo ele, a palavra “confissões”, mais do que sugerir a confissão dos pecados, significa “adorar a Deus”, sendo, portanto, um hino de louvor. “Fazei, ó Senhor, que voltemos já para Vós para nos não submergirmos, porque o nosso bem, que sois Vós mesmo, vive, sem deficiência alguma, em Vós.”
A VISÃO DO DONO
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