Dólar disparou, alerta de inflação acendeu: tarifa de Trump é cavalo de troia que Copom terá que enfrentar
Depois de meses de desvalorização frente ao real, o dólar voltou a subir diante dos novos riscos comerciais para o Brasil e tende a pressionar os preços novamente, revertendo o alívio anterior

A decisão de Donald Trump de impor uma tarifa de 50% sobre todos os produtos brasileiros — que se soma às tarifas individuais de cada setor — a partir de 1º de agosto de 2025 caiu como uma bomba sobre os mercados e, em especial, sobre o Banco Central brasileiro.
A medida eleva em cinco vezes a alíquota anteriormente estabelecida de 10%, e marca a primeira retaliação comercial direta dos EUA contra o Brasil.
O alarme no mercado de capitais e financeiro soou minutos depois da divulgação da carta de Trump.
- TARIFAÇO DIRECIONADO: Tarifa de 50% de Trump contra o Brasil vem aí, derruba a bolsa, faz juros dispararem e provoca reação do governo Lula
Mesmo com as negociações do dia encerradas, no mercado futuro o dólar disparou 2,67%, a R$ 5,63, a curva de juros renovou as máximas no médio e longo prazo, abrindo mais de 20 pontos-base, e o Ibovespa futuro caiu mais de 2,5%.
Logo na abertura dos mercados nesta quinta-feira (10), essa tendência de caos se manteve, embora não tenha durado muito tempo. Você pode conferir o comportamento do mercado em detalhes aqui.
Ainda não se sabe se, como ou quando o governo brasileiro irá retaliar os EUA. Ainda ontem (9), o presidente Lula convocou ministros e a diplomacia para decidir a melhor reação. Nesta quinta, as reuniões continuam.
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O que economistas e analistas ponderam desde já é que, independentemente de qual seja a decisão do Planalto, o estrago está feito e o principal custo da tarifa de 50% sobre exportações brasileiras é o aumento da incerteza, que culmina em menos confiança e maior risco-país.
Este combo tende a comprometer decisões de investimento estrangeiro no Brasil — que vinham se intensificando nos últimos meses diante da análise de que o Brasil era um país “ileso” e “vencedor” ante as tarifas de Trump — e pressionar a inflação.
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Tarifas de Trump mudam fator dólar
Para além do impacto direto nas exportações brasileiras, os efeitos indiretos mais relevantes são no câmbio e na inflação. A disparada da moeda norte-americana depois do anúncio da taxação de Trump ao Brasil dá o tom desse risco.
Enrico Gazola, economista e sócio-fundador da Nero Consultoria, afirma que o impacto para a população via inflação poderá vir em duas ondas.
- A primeira e mais imediata é o encarecimento de bens de consumo pressionados pela alta do dólar: combustíveis, fertilizantes, alimentos e eletrônicos.
- A segunda onda, mais difusa, é a perda de dinamismo em regiões e empresas exportadoras: menos receita em dólar significa menos investimentos e, portanto, salários menores ou, na máxima, demissões.
“Essa combinação tira ao menos alguns décimos do PIB [Produto Interno Bruto] de 2025 e adiciona outros tantos à inflação de 2026, pela via clássica de transferência cambial e, possivelmente, de alimentos”, diz Gazola.
A ironia dessa situação é que o “fator dólar” vinha sendo um componente positivo nos últimos meses, com potencial de influenciar no arrefecimento da inflação, diante da desvalorização de mais de 12% da moeda norte-americana entre janeiro e junho.
Roberto Dumas, economista e professor do Insper, afirma que os impactos indiretos do dólar são muito significativos por sustentarem a resiliência da inflação no país de forma difusa.
“Não é correto analisar o impacto nesse e naquele item. Não, você tem impactos indiretos em toda a cadeia via câmbio. No preço de commodities que são matéria-prima para a indústria, em produtos e maquinários utilizados pelo agronegócio, e tudo isso bate na inflação”, diz Dumas.
A maior pressão inflacionária neste ano tem sido no setor de serviços, principalmente, que está na faixa de 6% no acumulado de 12 meses, enquanto o indicador geral está em 5,3%. Agora, é possível que a inflação de consumo também piore.
Um recado claro para o Copom
Gazola afirma que o recado para o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central é claro: “A curva de juros longa já empinou, e não há espaço para discutir cortes enquanto a incerteza comercial contaminar as expectativas de inflação”, diz.
O economista espera que o comitê reforce a orientação de juros altos por tempo prolongado no próximo comunicado, indicando que o balanço de riscos está claramente assimétrico para cima.
Para Gazola, o Copom também deveria condicionar qualquer afrouxamento futuro a sinais objetivos de desinflação, como uma melhora das expectativas de inflação em 24 meses e recuo sustentável do núcleo de serviços.
Ao longo de junho, depois de o comitê elevar os juros para 15% ao ano, com uma sinalização dura de manutenção por tempo indeterminado, as expectativas de inflação vinham em uma tendência de queda — agora revertida.
Dualidade: queda do PIB x aumento de preços
“A tarifa de Trump impõe ao Brasil um dilema clássico de países emergentes: aceitar uma fase de crescimento magro com inflação contida, ou tentar estimular a atividade correndo o risco de desancorar preços e câmbio”, diz Gazola.
Cálculos do Goldman Sachs indicam que, com as tarifas anunciadas — setoriais e geral —, o aumento da tarifa de importação efetiva dos EUA sobre as exportações do Brasil será de 35,5 pontos percentuais, potencialmente reduzindo o PIB em 0,3 a 0,4 ponto percentual, sem grandes retaliações.
Em um caso de retaliações fortes, o cenário pode ser pior.
Entretanto, Matheus Spiess, analista da Empiricus Research, pondera que as exportações para os Estados Unidos têm um impacto de apenas 2% no PIB no brasileiro, de modo que o reflexo direto ao país com as tarifas de Trump são limitados. Para ele, o problema maior é o dólar e a inflação.
A XP estima que a elasticidade de repasse cambial para o IPCA é de 0,90 ponto percentual ao longo de quatro trimestres.
“Se o dólar disparar em meio à nova rodada de aversão ao risco, o segundo semestre pode ser pressionado pela inflação, especialmente nos alimentos. E, como sabemos, se a cesta básica voltar a apertar, a aprovação do presidente tende a murchar junto com o poder de compra da população”, diz Spiess.
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Diante desta situação se coloca a dualidade do trabalho do Copom: segurar os juros para conter a inflação ou cortar os juros para melhorar a atividade e atender a pressão política?
Segundo a XP, mesmo que o crescimento do PIB seja reduzido, com possíveis implicações na redução da inflação em alguns componentes, esse efeito seria insuficiente para compensar a alta do dólar.
Com o debate sobre as eleições de 2026 sendo antecipadas pelo mercado para o final deste ano, o corte de juros antecipado já era uma preocupação dos agentes econômicos.
Spiess acredita que dentro de três semanas até 1º de agosto, quando as tarifas entram em vigor, o governo brasileiro tentará reverter pelo menos parcialmente a medida.
Enquanto isso, Gazola espera que o Copom se mantenha firme diante deste novo problema e de próximos que podem aparecer no horizonte.
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