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Camille Lima

Camille Lima

Jornalista formada pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), em 2025 foi eleita como uma das 50 jornalistas mais admiradas da imprensa de Economia, Negócios e Finanças do Brasil. Já passou pela redação do TradeMap. Hoje, é repórter de bancos e empresas no Seu Dinheiro. A cobertura atual é majoritariamente centrada no setor financeiro (bancos, instituições financeiras e gestoras), em companhias maiores listadas na B3 e no mercado de ações.

TENDÊNCIAS DO VAREJO

É o fim do multimarcas no varejo? Por que a Americanas (AMER3) decidiu encerrar os sites Shoptime e Submarino

No início de julho, a gigante do varejo, em recuperação judicial, anunciou a incorporação das duas marcas à plataforma principal. Entenda o que está por trás da decisão

Camille Lima
Camille Lima
24 de julho de 2024
6:10 - atualizado às 18:12
Fachada da Americanas; estágio
Fachada da Americanas - Imagem: Divulgação

Há alguns anos, sentar-se no sofá de casa numa tarde qualquer para acompanhar as ofertas de itens de casa e decoração no canal TV Shoptime era uma cena comum no dia a dia dos brasileiros. Ou mesmo ligar o computador para acessar o site do Submarino e encher o carrinho de livros e jogos de videogame. Mas esse tempo chegou ao fim.

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Em uma estratégia renovada para o e-commerce, a Americanas (AMER3) decidiu encerrar as marcas e unir os dois sites à plataforma principal da varejista no início deste mês.

Em comunicado, as duas marcas a serem incorporadas afirmam que a união de forças com a gigante do varejo “permite seguir com o compromisso de entregar qualidade”, mas com “ainda mais recursos e vantagens”. 

A recente mudança na Americanas levanta dúvidas sobre o funcionamento do setor de e-commerce no geral. Afinal, é o fim do modelo multimarcas, tão defendido pela B2W antes da fusão com a Lojas Americanas em 2021?

É o fim do multimarcas da Americanas (AMER3)?

A preocupação sobre o potencial fim do modelo multimarcas da Americanas (AMER3) pode ser explicada pela longevidade da estratégia da varejista. Isso porque o modelo de negócio foi construído ao longo de quase duas décadas.

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Relembrando, a antiga B2W — hoje conhecida como Americanas Marketplace — surgiu em 2006 com a fusão das marcas Americanas e Submarino, e se tornou um verdadeiro benchmark no setor de e-commerce, consolidando o modelo multimarcas no varejo brasileiro.

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Além de liderar o Submarino e Americanas.com, a empresa foi responsável por comandar companhias como o Shoptime e o Ingresso.com. Entre outros negócios, a ex-B2W também lançou no mercado a Ame Digital, plataforma de pagamentos e cashback da Americanas, em 2018.

Mas poucos anos depois, a companhia chegou ao fim. Em 2021, a Americanas decidiu combinar os negócios de lojas físicas (Lojas Americanas) com a unidade de comércio eletrônico (B2W), em uma nova tentativa de rentabilizar o negócio digital. 

Entretanto, mesmo após a incorporação da B2W, o modelo de negócios da Americanas ainda dispunha de diversas marcas de negócio. É por isso que a incorporação do Submarino e do Shoptime à plataforma principal pegou o mercado de surpresa. 

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Afinal, o guarda-chuva da varejista hoje detém cerca de 10 unidades de negócio, incluindo a marca principal Americanas e as controladas Submarino, Shoptime, Ame, Lovebrands — que reúne as marcas Imaginarium, Puket e MinD —, Hortifruti Natural da Terra e Skoob. 

Por que a Americanas (AMER3) incorporou o Submarino e o Shoptime?

Existem muitas hipóteses sobre o que está por trás da decisão da Americanas de incorporar duas marcas tão conhecidas como o Submarino e o Shoptime.

De acordo com Claudio Felisoni, presidente do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo & Mercado de Consumo (IBEVAR) e professor da FIA Business School, boa parte da estratégia é resultado do “tsunami” recente visto no mercado de consumo, que foi ocasionado após a revelação da fraude contábil de R$ 25,2 bilhões na Americanas em janeiro do ano passado.

“Era uma marca em que as pessoas aportavam muita confiança e foi descoberto um rombo inadmissível. O que está acontecendo com a Americanas é uma tentativa de se reposicionar, absorvendo outras operações de modo a participar de uma maneira mais ativa desse mercado em que ela perdeu completamente a hegemonia”, disse o presidente do IBEVAR.

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Enquanto isso, Roberta Krause, professora da ESPM, descreve a decisão como um “movimento de sobrevivência”.

“Não é um movimento pontual ou uma oportunidade. É necessário para tentar revitalizar a marca, ter um menor custo de operação e otimizar a questão logística e a experiência que possui. É uma questão de sobrevivência e de adequação ao novo cenário do varejo”, afirmou ao Seu Dinheiro.

Para a professora, a Americanas tenta uma retomada após a crise revelada em janeiro de 2023 — e, como ela é a empresa mais forte em termos logísticos, operacionais e de dados, “faz mais sentido abraçar as outras marcas para tentar recuperar essa força do que jogar tudo para o Submarino ou o Shoptime”.

De olho no operacional

Além disso, os especialistas avaliam que existem outras questões operacionais e financeiras envolvidas na decisão da Americanas (AMER3).

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Segundo Roberta Krause, apesar de mirar públicos levemente distintos, a Americanas, o Shoptime e o Submarino acabavam por comercializar produtos bastante semelhantes.

“A mesma empresa está concorrendo e canibalizando o mesmo consumidor em três marcas diferentes”, disse a professora. “Então por que não otimizar a vida dele e a da empresa em termos de custos e centralizar todas as ofertas em uma mesma plataforma?”

Não que a estratégia de ter outras marcas no guarda-chuva não funcione no varejo. Mas para a professora da ESPM, é preciso que as empresas não sejam concorrentes no mesmo segmento de atuação.

“Se forem empresas investindo em segmentos completamente diferentes e em plataformas diversas, está tudo certo. Mas não sobrepondo o mesmo target neste mesmo produto, tendo o mesmo segmento de atuação com a mesma oferta. Não faz sentido”, acrescentou.

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No entanto, apesar de possuírem portfólios robustos de marcas e empresas, outros gigantes do varejo como Amazon (AMZN34) e Mercado Livre (MELI34) centralizam sua estratégia de vendas online em uma só plataforma digital.

É o contrário do cenário atual das varejistas brasileiras como a própria Americanas e de rivais como a Casas Bahia (BHIA3) — dona do Ponto Frio e Extra.com — e o Magazine Luiza (MGLU3) — que detém marcas como Netshoes, Zattini, Época Cosméticos, Kabum! e Estante Virtual.

De acordo com Claudio Felisoni, a decisão da Americanas também visa uma tentativa de amplificar as operações através da incorporação do Submarino e do Shoptime — o que permitiria a conquista de um giro maior para o seu negócio após uma forte compressão das margens.

Questionado sobre a possibilidade de novas fusões de marcas pela Americanas, o diretor do IBEVAR afirmou que há chance de que o movimento de incorporação possa não parar no Submarino e Shoptime e se estenda para outras empresas do portfólio, a depender das condições de rentabilidade das operações.

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Uma nova estratégia para o digital

Desde que a nova gestão assumiu, a Americanas também decidiu priorizar a rentabilidade e reduzir o comércio eletrônico próprio para aumentar a presença de lojas oficiais de grandes marcas dentro de seu “shopping virtual”.

“A companhia ressalta que a integração acelera seu plano de transformação e foco, oferecendo novas possibilidades para clientes, parceiros, fornecedores, acionistas e investidores”, disse a Americanas, em nota.

Mas é importante destacar que a operação digital caminha para ter uma participação cada vez menor nas vendas da varejista — que retoma cada vez mais às “origens”, com foco nas lojas físicas e em produtos de menor valor, especialmente após a perda de confiança dos consumidores depois da revelação da fraude nos balanços da empresa

“O canal digital sofreu mais no primeiro momento do que o físico, porque passou por um choque de confiança”, afirmou o CEO Leonardo Coelho, em conferência de resultados em fevereiro deste ano.

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De acordo com o último balanço publicado pela Americanas, as vendas digitais corresponderam a aproximadamente 29% do total registrado pela varejista nos primeiros nove meses de 2023, com um volume bruto de mercadorias (GMV) de R$ 4,8 bilhões. 

Se comparada com o mesmo intervalo de 2022, a cifra representa um recuo de 77% no volume. 

Além disso, o desempenho das vendas online foi impulsionado pelo marketplace — isto é, pela venda de terceiros através da plataforma digital da Americanas.

“A estratégia adotada pela companhia foi de reduzir o volume de vendas do 1P, migrando algumas categorias exclusivamente para o 3P, criando o que denominamos de Super 3P, priorizando operações de maior rentabilidade e redução da queima de caixa operacional”, escreveu a Americanas na divulgação do balanço do terceiro trimestre de 2023.

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Vale lembrar que existem três principais canais no varejo: lojas físicas, vendas diretas de mercadoria própria online (1P) e através de vendedores em um marketplace (3P). 

“As vendas 3P continuam a ser o principal motor de crescimento para todas as plataformas, enquanto a categoria 1P continua a ser desafiada por fortes ventos macroeconômicos, especialmente para Magazine Luiza e Casas Bahia, uma vez que as vendas 1P estão geralmente associadas a produtos mais duráveis/de bilhetes mais elevados”, escreveu o JP Morgan, em relatório em março de 2024. 

Ao contrário da Americanas, a Amazon, por exemplo, tem a maior parte de suas vendas online atualmente realizadas no 1P, com mais de 57% das receitas do primeiro trimestre de 2024 registradas neste segmento.

Já a Casas Bahia iniciou um movimento de migração de subcategorias de produtos com margens negativas no 1P para vendas exclusivamente no 3P. Enquanto isso, o Magazine Luiza adicionou outro nome de peso à lista de vendedores de seu marketplace no mês passado: o gigante asiático AliExpress.

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Para Claudio Felisoni, presidente do IBEVAR, a mudança de estratégia da Americanas e de outras varejistas digitais em aumentar o número de lojas de terceiros mostra uma tentativa de reduzir a verticalização do negócio.

“Quando você diminui marcas que são próprias, há uma diminuição da verticalização e uma ampliação das soluções via mercado. Quando a Americanas inverte essa estratégia, ela busca mudar de uma estrutura verticalizada para um foco em soluções via mercado. Ela acredita que pode ampliar as suas margens e melhorar suas operações gerenciando um conjunto de fornecedores por meio de diversos contratos.”

É importante destacar ainda que a Americanas e outras varejistas brasileiras enfrentam um cenário de intensa competição pelo mercado doméstico. 

Segundo dados da Neotrust, o Mercado Livre foi o único gigante do varejo digital a ganhar participação de mercado no e-commerce em 2023.

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No comparativo anual, o Mercado Livre ganhou em torno de 10 pontos percentuais (p.p) de participação de mercado no quarto trimestre do ano passado, contra estabilidade do Magazine Luiza e perda de 2,2 p.p de Casas Bahia. O estudo não revelou o percentual da Americanas.

Procurada pelo Seu Dinheiro, a assessoria de imprensa da Americanas (AMER3) não havia retornado o pedido de entrevista até o momento de publicação desta reportagem.

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