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Empresas listadas em Bolsa levantaram, até outubro, cerca de R$ 70 bilhões no mercado de capitais, valor que pode atingir até R$ 100 bilhões
Em um ambiente de taxa de juros baixa e inflação sob controle, o Credit Suisse vê nessa combinação a retomada dos investimentos no Brasil.
"O investidor está aprendendo a viver neste cenário, que traz um leque grande de oportunidades. Esse benefício, a gente nunca viu antes", diz Bruno Fontana, responsável pela área de banco de investimento do Credit Suisse.
As empresas listadas em Bolsa levantaram, até outubro, cerca de R$ 70 bilhões no mercado de capitais, valor que pode atingir até R$ 100 bilhões. "Boa parte desses recursos é para expansão." A seguir, os principais trechos da entrevista:
O ano está praticamente acabando e vimos um movimento intenso em operações de mercado de capitais. Veremos mais operações ou o ritmo deve cair?
Neste ano, tivemos três grandes eventos que explicam essa narrativa do que tem sido o ano e o que está por vir. O primeiro, que já aconteceu, é o fim da política fiscal expansionista, que era o Estado financiando o crescimento brasileiro. A gente precisa do surgimento da iniciativa privada para capitanear essa nova expansão da economia. E entro aqui no segundo ponto: a queda da taxa de juros. Pela primeira vez, temos um cenário de inflação e juros baixos. Esse cenário está aqui para ficar e gera diversos impactos positivos.
Quais impactos?
O principal é a queda drástica na alavancagem (dívidas), não só das companhias brasileiras, mas também do indivíduo. O que se tem de capital disponível, seja para investir ou poupar, está muito mais claro. Hoje é possível ter previsibilidade. O retorno tem de ser real porque eu não posso mais me financiar com base em dívida pública. Isso também traz o famoso ciclo virtuoso de que o investimento está calcado em fundamentos positivos. Ou seja, o setor privado tem de investir.
A agenda de reformas corrobora para esse movimento?
O terceiro ponto é a questão das reformas. A gente teve a reforma da Previdência - e foi uma vitória enorme desse novo governo. A gente apagou aquele risco de insolvência no médio e longo prazos. A principal sinalização que fica é de que esse governo é capaz, sim, de tocar reformas e abre espaço para outras, como tributária e administrativa.
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Apesar dessa agenda positiva, a economia não tem crescido no mesmo ritmo...
O crescimento tem sido mais tímido e gradual. Quando se olha nos últimos dez anos, o crescimento foi de 0,6% ao ano. E tivemos ao longo do caminho a maior recessão da história do País. Mas, considerando esses três pontos citados, vemos uma expansão do PIB de 2,7% para 2020. Para este ano, será próximo de 1,2%. Assumindo que essas reformas continuem andando, esse crescimento virá. Estamos vendo maior plano de investimento das companhias, maior disponibilidade de crédito. Quem está tomando esse crédito também é a população, o que significa mais consumo.
O sr. vê um movimento claro de retomada de investimentos?
O mercado de capitais atraiu, até o momento, cerca de R$ 70 bilhões. O banco participou de 35% dessas operações. Isso sem contar as emissões que foram feitas no mercado internacional, de R$ 4 bilhões. Tem potencial de atingir de R$ 90 bilhões a R$ 100 bilhões. Neste momento, o ano está longe de terminar.
Mas o sr. vê expansão de investimentos nessas captações?
Sim. São dois movimentos. Além do mercado de capitais, estamos também no começo do ciclo das privatizações. Na ponta, o perfil de investidor também mudou.
Por conta desse cenário traçado, dá para dizer que este é o melhor momento para os bancos de investimento após a recessão?
Claro. Os bancos de investimento trabalham dentro de um contexto do potencial que esse mercado oferece. A pergunta é muito simples. A perspectiva é positiva? Os nossos clientes estão enxergando isso. Vê-se um movimento intenso na Bolsa, de oferta primária, que é para expansão. A construção civil é um deles, corrobora com a tese de crescimento.
Muito se falava da volta do interesse do investidor estrangeiro pelo Brasil, mas boa parte dessas emissões teve a participação de investidor local. O que falta para os gringos voltarem de vez?
Quando se olha o histórico de emissões - R$ 70 bilhões este ano -, a média dos investidores internacionais foi de 30%. Esta demanda comparada com outros anos é tímida, mas em termos absolutos é relevante. Os fundos emergentes continuam investindo de forma muito ativa no Brasil. Já entre os fundos globais, a entrada ainda está sendo tímida.
E as privatizações vão deslanchar?
Sim. O processo de privatização, como um todo, é complexo porque envolve diversos interesses. E para se ter a aprovação necessária, precisa ter o aval de diversas instâncias. O levantamento do Credit mostra que as privatizações podem levantar de R$ 200 bilhões a R$ 250 bilhões nos próximos anos. Isso sem incluir as vendas de participações do BNDES, que têm potencial de chegar de R$ 100 bilhões a R$ 150 bilhões. Quando se olha globalmente, é difícil achar um programa igual em outros países.
Como o cenário de juros baixos, que o Brasil não conhece, pode ser benéfico para o mundo dos negócios?
Temos um cenário local de juros baixos em um cenário global de taxas negativas, o que torna o Brasil um porto interessante para se alocar capital. Além disso, o investidor procura a melhor combinação de valorização e risco. Se você tem uma economia em crescimento como o Brasil, calcado com juros e inflação baixas, esse cenário é interessante para o investidor. O investidor está aprendendo a viver neste cenário, que traz um leque grande de oportunidades. Esse benefício, a gente nunca viu antes.
Com informações do jornal O Estado de S. Paulo e Estadão Conteúdo
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