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Bruna Furlani
Bruna Furlani
Jornalista formada pela Universidade de Brasília (UnB). Fez curso de jornalismo econômico oferecido pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Tem passagem pelas editorias de economia, política e negócios de veículos como O Estado de S.Paulo, SBT e Correio Braziliense.
Luciana Seabra
Luciana Seabra
CFP®, formada em Jornalismo pela UnB e mestre em Economia pela Unicamp. É especialista em fundos de investimento e sócia da Empiricus. Foi por cinco anos repórter de investimentos do jornal “Valor Econômico”, com passagem pela “Rádio CBN” e consultora para programa de educação financeira da Fundação Cesp.
Vai com tudo!

O que o chefe da análise do BTG vê no horizonte ? Ibovespa aos 112 mil pontos e lucro maior para as empresas brasileiras

Lucro das empresas deve crescer mais de 15% em 2019, depois de ter avançado 24% em 2018, estima Carlos Sequeira, head de research do BTG Pactual

2 de fevereiro de 2019
5:17 - atualizado às 8:22
Carlos_Sequeira8
Imagem: Divulgação/ BTG Pactual

Sob o olhar atento e minucioso de Carlos Sequeira, head de research do BTG Pactual, estão milhares de relatórios que ele recebe diariamente da equipe de 27 analistas que comanda. Em seu escritório em Nova Iorque, onde está há quatro anos, ele já viu de tudo. Desde empresas muito boas até outras que simplesmente viraram pó.

Apesar de saber que certeza é uma palavra que dificilmente está presente nos dicionários de economia, as apostas de Sequeira estão no Brasil. Na opinião dele, ainda que por enquanto possa soar um pouco "bravata", o país pode ser o melhor lugar para se investir em 2019. E isso terá impacto direto na bolsa – que pode chegar aos 112 mil pontos caso as reformas sejam feitas.

No vai e vem de notícias, o analista conversou comigo e com a diretora de conteúdo do Seu Dinheiro, Luciana Seabra, em um bate-papo exclusivo por videoconferência. Nós no escritório do BTG em São Paulo, ele no de Nova Iorque. Com o início da temporada de balanços, Sequeira nos contou que está animado com a prévia dos resultados de empresas que vendem no mercado doméstico brasileiro.

Para ele, essas empresas devem fechar 2018 com lucro 24% maior, e encerrar 2019 com alta de mais de 16,5%. Mas o boom da bolsa não deve parar por aí. A expectativa é que os juros baixos no longo prazo resultem em uma valorização no preço das ações. Confira agora a entrevista que fiz junto com a Lu:

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Vamos começar pela pergunta que o investidor mais quer saber: até onde vai e qual é o tamanho do ciclo de alta na bolsa?

O mais importante é olhar como está o valuation hoje, ou seja, o preço das ações versus a quantidade de lucro que as empresas que compõem o índice estão gerando. A gente não tem os resultados fechados de 2018 ainda, mas acreditamos que os lucros das empresas que vendem no mercado doméstico cresceram mais de 24% no acumulado do ano passado. É um crescimento expressivo. 

Realmente...

Ao olhar a economia, as pessoas pensam que as companhias não estão crescendo. Mas o PIB nominal subiu em torno de 5%, enquanto o lucro das empresas aumentou quatro vezes mais. Isso ocorreu porque durante a recessão, elas tiveram que reduzir a sua base de custos e otimizar processos. Além disso, a taxa de juros em 2015 e 2016 estava mais alta e os spreads eram o dobro dos cobrados hoje. A combinação de menos custo operacional e financeiro e recuperação econômica é o que está fazendo com que os lucros subam rapidamente. Estamos projetando mais de 16,5% de crescimento em 2019.

Olhando a relação preço/lucro ficou barato comprar ações?

Ao avaliar quanto vale o papel de uma empresa, o fator mais importante é a taxa de desconto que a gente usa para trazer os fluxos de caixa que ela vai gerar no futuro ao valor presente. Quando os juros de longo prazo estão altos, a taxa de desconto é alta. Logo, a empresa vale menos. Se os juros de longo prazo caem, o valor presente das empresas aumenta porque eu vou descontá-lo a uma taxa de juros mais baixa. Entende? 

E em relação à taxa histórica? 

Hoje, a média histórica está refletindo uma taxa de juros ainda elevada. Se a reforma da Previdência for aprovada e a questão fiscal ficar mais clara, é possível que a taxa de juros de longo prazo seja menor e o preço das ações aumente. Com isso, o Ibovespa pode passar a negociar um ponto acima da média histórica, o que seria por volta de 112 mil pontos.

Vejo algumas empresas de varejo nas recomendações de vocês: B2W, Lojas Renner, Magazine Luiza, CVC... É uma aposta importante?

Na nossa cabeça, o investimento agora deve ser em companhias de consumo, bancos, operadoras de shoppings e construtoras. Estamos investindo em papéis que podem ser beneficiados pela recuperação da economia, e em empresas expostas ao juros reais de longo prazo mais baixos e com fluxos de caixa muito longos, como a Rumo. Ela tem uma geração de caixa que se estende ao longo dos anos e com os juros reais de longo prazo caindo, a empresa pode ser beneficiada.

E no segmento financeiro? Vocês gostam de Banco do Brasil, Bradesco e B3. A disrupção das fintechs não pode ser uma ameaça aos bancões? 

A gente está falando de instituições fortes. Eu entendo a preocupação no longo prazo, mas estou falando de bancos universais que estão em todas as cadeias de geração de negócios bancários. Eu não sei como será daqui a 10 ou 20 anos, mas sei que no curto prazo (um ou dois anos), os papéis dos bancões vão se beneficiar muito da recuperação econômica.

Sobre construtoras, quais são os "cavalos" que vocês têm preferido para aproveitar a recuperação nesse setor? 

Hoje temos a MRV e a Even na carteira. A primeira é uma construtora basicamente ligada ao Minha Casa Minha Vida. O papel tem menor risco porque o programa deve continuar, segundo o governo. Mas pode ter menor upside (alta no preço das ações), já que depende de financiamento. Em compensação, a Even está focada nas classes média e alta. Logo, ela é mais afetada pelas regras do mercado (oferta e demanda) e tem maior chance de valorização, mas é mais arriscada.

Agora sobre a reforma da Previdência, há alguma chance de que Bolsonaro não tenha o suporte político esperado? Se sim, isso pode estragar a festa na bolsa? 

Acredito que tem uma boa chance de aprovar uma reforma importante parecida com a de Temer ainda no primeiro semestre. A base de suporte do governo é grande. Bolsonaro é popular e pode emprestar tal popularidade para políticos aliados. Agora, se ela não for aprovada ou se for uma opção mais "aguada", a festa muda de tamanho.

Vai ter que dispensar uns garçons e umas bebidas. Vai ser tipo um "petit comitê"...

É, vai ser uma festinha. E o escândalo envolvendo o filho dele pode ter impacto no capital político porque toda a construção da candidatura do Bolsonaro foi em torno da família. Mas não dá pra precisar o tamanho disso e nem se pode afetar mesmo a reforma.

Agora, estamos esperando o gringo chegar à Bolsa. Da sua perspectiva, de Nova Iorque, por que o estrangeiro ainda não veio? 

Causa uma certa surpresa o fato de ter pouco estrangeiro na bolsa, mas há algumas razões para isso. O Bolsonaro é um político novo e que está formando a sua base de suporte de forma não tradicional. Há também uma grande incerteza se ele tem capital político necessário para aprovar uma reforma fiscal consistente e relevante. No passado, o investidor que se posicionou em Brasil foi surpreendido pelo "Joesley Day" e pela Greve dos Caminhoneiros. Agora, ele está cauteloso.

E há outros fatores? 

Durante a campanha, Bolsonaro não precisou discutir propostas de governo, o que fez com que ele fosse uma grande incógnita. O estrangeiro depende do fluxo de notícias e a mídia internacional também não estava favorável. Além disso, no fim do ano passado, teve a queda das bolsas americanas. E adicionar ativos brasileiros era colocar mais risco na carteira, o que o investidor estrangeiro não queria.

E quando o gringo deve vir mesmo? 

A entrada mais importante de recursos deve ser agora com a reabertura do Congresso. A partir daí, os estrangeiros vão ver a real possibilidade de aprovação da reforma e o tempo mais razoável que isso vai ocorrer.

A desaceleração nos Estados Unidos pode atrapalhar a nossa festa aqui na bolsa? 

É claro que é melhor ir bem quando o resto do mundo vai bem. É engraçado porque até pouco tempo atrás, a preocupação era que a economia norte-americana estivesse superaquecida. Agora, é o oposto disso. A performance da economia global está pior e óbvio que isso não é bom para o Brasil. O Brasil é uma economia fechada. Ou seja, nós dependemos menos do que ocorre no resto do mundo. Claro que as exportadoras de commodities, papel e celulose devem sofrer se a economia piorar, com a queda no preço. Porém, a maior parte da nossa economia está mais ligada ao mercado doméstico e acreditamos que ele vai melhorar. Seria mais interessante se as exportadoras estivessem melhor, mas isso atrapalha pouco a nossa festa.

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Talvez a gente vire o queridinho do mundo, assim como era o México? 

Caso a economia local ganhe dinamismo e se aprovarmos a reforma da Previdência, o Brasil pode se tornar o lugar para se investir em 2019. Mesmo que soe um pouco "bravata", eu acredito nisso tendo em vista os problemas do mundo. Estamos arrumando a nossa economia e a questão fiscal. Logo, começaremos a nos destacar.

E o que achou da participação do Brasil em Davos? 

O discurso mais esperado era o do Paulo Guedes. Se a taxação de fato mudar e com isso, eliminar o fim da dedução das empresas do juro sobre capital próprio (JCP), algumas companhias podem ser bastante afetadas. Na nossa estimativa, ao diminuir o imposto corporativo de 34% para 24% e taxar o pagamento de dividendos para 15%, a companhia mais impactada seria a BR Distribuidora com queda de 15% dos dividendos. Em seguida, estaria a Omega, com baixa de 14,3%.

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