Tesouro redescoberto: quadro ‘perdido’ de Rembrandt é revelado por museu depois de décadas fora do radar
A peça foi adquirida por um colecionador particular na década de 1960, quando acabou reclassificada como “obra de ateliê", não autêntica

Cópias de obras-primas como “Mona Lisa”, “A Noite Estrelada” e “O Beijo” estão penduradas em centenas de casas pelo mundo, enquanto os originais estão bem conservados em museus. No entanto, um quadro de extrema importância passou anos na situação contrária: pendurado em uma parede qualquer, sem o reconhecimento de ser uma peça rara e autêntica. Até agora.
Pintada em 1633, “A Visão de Zacarias no Templo”, do mestre holandês Rembrandt, saiu completamente do radar do mercado de arte por décadas.
Sua última aparição aconteceu em Amsterdã, em 1898, durante uma grande exposição de Rembrandt. No entanto, em 1960, ela foi excluída do catálogo oficial, reclassificada como “obra de ateliê", possivelmente pintada por alunos do mestre.
Até que em 1961, um colecionador particular comprou a obra de um revendedor de arte, crente de que se tratava de um quadro trivial. E assim, a pintura permaneceu na parede de uma casa particular por 65 anos, longe dos olhares do do público e dos especialistas.
A redescoberta de um Rembrandt
Há alguns anos, os herdeiros do colecionador decidiram restaurar a peça. A obra estava escura pelo verniz antigo e pela sujeira do tempo. A intenção era identificar a obra para encontrar um restaurador que fosse capaz de aplicar o tratamento adequado.
Eis que, ao buscarem o Rijksmuseum, museu nacional dos Países Baixos, se depararam com a possibilidade de estar em posse de um Rembrandt original. Mas não só: de uma peça rara, produzida pelo pintor ainda jovem.
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“A Visão de Zacarias no Templo” retrata a história bíblica da visita do Arcanjo Gabriel ao sumo sacerdote Zacarias. O anjo lhe diz que, apesar da idade avançada dele e da esposa, eles terão um filho, João Batista. A obra se destaca por não mostrar explicitamente o anjo, mas uma luz brilhante no canto superior direito e o rosto de Zacarias em descrença.
A confirmação sobre ser “um verdadeiro Rembrandt” veio após a restauração, conforme contou o diretor do museu, Taco Dibbits, ao jornal britânico The Guardian.
“Quando foi restaurada, entrei para vê-la e realmente parecia que o ouro estava estourando — o que, claro, é notável porque ele pintou com amarelo e não com dourado. É isso que faz do artista um verdadeiro artista … É um clássico Rembrandt", disse Dibbits.

A Visão de Zacarias… na tecnologia
Mas a confirmação não se deu por uma mera constatação visual da técnica com o amarelo — contou com alta tecnologia.
Para confirmar que a obra era de fato um Rembrandt autêntico, o Rijksmuseum realizou uma investigação de dois anos utilizando técnicas avançadas:
- Pigmentos: Análises de raios-X confirmaram o uso de materiais típicos de Rembrandt, como branco de chumbo, ocre e amarelo de chumbo-estanho.
- Painel de Madeira: Um estudo especializado revelou que a madeira de carvalho do quadro veio do sudeste da Lituânia, uma fonte comum para Rembrandt, e confirmou que a data de 1633 é plausível.
- Mudanças Criativas: Os escaneamentos mostraram que o artista fez alterações durante o processo (como diminuir o tamanho de um incensário no altar), algo característico de um mestre experimentando, e não de um copista.
- Assinatura: A inscrição "Rembrandt f. 1633" foi aplicada na tinta ainda úmida, integrando-se ao fundo, o que prova sua originalidade.
Ao final da inspeção, concluiu-se que a obra é uma das poucas pinturas históricas que Rembrandt criou no período, quando ainda era jovem, por volta dos 27 anos. Naquela fase da vida, ele produzia principalmente retratos, que eram mais lucrativos.
A peça irá se unir ao acervo de 25 Rembrandts do Rijksmuseum — a maior coleção do pintor no mundo — e estará disponível para todos verem a partir de quarta-feira (4), não mais em uma sala qualquer, mas em um museu, com o devido reconhecimento.
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