A conta chegou para os bancos digitais? Safra liga alerta para “teste de fogo” de Nubank e Inter no 1T26
Safra vê 2026 como teste para o setor bancário brasileiro e diz que lucro sozinho já não explica as histórias de investimento; veja as apostas dos analistas

O início do ano costuma ser um teste silencioso — e decisivo — para os bancos brasileiros. É quando a conta chega: depois do fim de ano, entram impostos, despesas acumuladas e um consumidor mais pressionado. O resultado costuma aparecer na mesma linha do balanço: a inadimplência.
Em 2026, o roteiro se repete. Mas, desta vez, o mercado está olhando com mais atenção para quem cresceu de forma acelerada nos últimos anos: os bancos digitais.
Em relatório, o Safra coloca Nubank (ROXO34) e Banco Inter (INBR32) sob uma lente mais exigente — e deixa claro que, agora, o lucro isolado já não basta para sustentar a tese.
A dúvida que passa a guiar a temporada de resultados é: o crescimento segue saudável ou já começa a cobrar seu preço?
"O início de 2026 pode marcar um teste importante para o setor. Se a piora dos indicadores ficar restrita à sazonalidade, a tese de crescimento tende a permanecer de pé. Se houver sinais de deterioração mais estrutural, o mercado deve revisar expectativas para os bancos digitais”, avalia o banco.
O verdadeiro teste dos bancos digitais na largada de 2026
O primeiro trimestre quase sempre traz uma pressão adicional sobre a qualidade do crédito. É um movimento conhecido, quase automático, ligado ao aperto no orçamento das famílias após o fim de ano.
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Mas, desta vez, o Safra vê algo além do padrão sazonal. Segundo os analistas, há sinais de uma deterioração mais disseminada nos atrasos dentro do sistema financeiro — o que muda o peso da análise. Não se trata apenas de saber se a inadimplência subiu, mas por que ela subiu.
“A próxima rodada de resultados deve ajudar a diferenciar o que é efeito sazonal do que pode indicar uma deterioração mais estrutural”, avaliam os analistas.
Nubank não para de crescer (e de gastar)
Se o Nubank fosse um corredor, ele ainda estaria ganhando velocidade enquanto parte do mercado começa a ajustar o passo.
O banco digital divulga seus números em 14 de maio, e o Safra projeta um lucro líquido de US$ 926 milhões no primeiro trimestre — alta de 66% em relação ao mesmo período do ano passado.
O motor permanece o mesmo: crescimento da carteira de crédito, estimado em 6,3% no trimestre, combinado a ganhos no custo de captação. A margem financeira também deve avançar, levando o lucro bruto a cerca de US$ 2,04 bilhões, nas contas do Safra.
Até aqui, nada fora do esperado para uma das histórias de crescimento mais consistentes do setor. Mas há duas variáveis que começam a ganhar protagonismo.
A primeira é a inadimplência. O Safra projeta alta de 18 pontos-base nos atrasos acima de 90 dias, para 6,8%, com leve aumento também no custo de risco. Por ora, o movimento é visto como parte do comportamento sazonal.
A segunda, e talvez mais relevante, é o custo de sustentar esse crescimento. O Safra projeta uma alta de mais de 70% nas despesas operacionais na comparação anual, reflexo de três frentes principais:
- Expansão internacional;
- Retorno mais intenso ao escritório;
- Investimentos contínuos em tecnologia.
Na prática, o Nubank entra em uma nova fase de avaliação. O crescimento segue forte — mas o mercado quer entender se ele vem acompanhado de eficiência.
“Embora a companhia já tenha antecipado essas pressões, o movimento deve pesar sobre os indicadores de eficiência ao longo de 2026”, diz o Safra. “Na prática, isso significa que o mercado deve avaliar não apenas o crescimento da operação, mas também a capacidade do banco de preservar rentabilidade em meio ao aumento de custos.”
Esse é o ponto de inflexão. Se antes a principal pergunta era “o Nubank consegue crescer?”, agora ela muda de forma: ele consegue crescer mantendo eficiência?
Inter: a prova da "seletividade"
Enquanto o Nubank segue no ataque, o Banco Inter (INBR32) parece estar jogando de forma mais defensiva. Com o balanço marcado para o dia 7 de maio, a expectativa é de um lucro líquido de R$ 394 milhões, com um retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) de 15,4%.
Para os analistas, o crescimento da carteira deve continuar relevante, mas já mostrar desaceleração — especialmente nas linhas mais sensíveis ao risco.
A carteira total deve avançar 33% em 12 meses, abaixo dos 36% registrados no fim de 2025. No cartão de crédito, o ritmo também perde fôlego, com alta esperada de 23%, ante 29% no trimestre anterior.
“A desaceleração reflete tanto a sazonalidade quanto uma postura mais seletiva na tomada de risco”, aponta o Safra.
A estratégia do Inter é clara: crescer, mas com mais cautela. A dúvida dos analistas é se isso será suficiente.
O Inter já vinha apresentando níveis de inadimplência acima dos pares no fim de 2025 — o que eleva a pressão sobre os números agora, destacam os analistas.
A expectativa é de aumento no custo de risco, reflexo de atrasos iniciais maiores na carteira de cartões e da maturação do crédito consignado privado.
Por outro lado, há um contraponto importante: eficiência. Segundo o Safra, as despesas totais devem cair na comparação trimestral, com melhora na taxa de eficiência — sinal de uma operação mais ajustada.
“O resultado, portanto, deve funcionar como termômetro para entender se a estratégia atual de crédito segue adequada para o cenário ou se será necessário um ajuste adicional na concessão ao longo dos próximos meses”, diz o Safra.
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