Como o envelhecimento da população brasileira afetará as empresas? Veja as ações que sofrem e as que saem ganhando no novo cenário
Em 2070, mais de 50% dos cidadãos deverão ter mais de 45 anos, fase na qual as pessoas tendem a alcançar o pico de renda e gastos. Mas essa renda não será direcionada a qualquer setor

Embora seja um senso comum, os vinhos não melhoram com o tempo. Pelo menos não é isso o que acontece com a maioria. A realidade é que são necessárias condições específicas para que a bebida envelheça bem. O mesmo acontece com os seus investimentos.
Conforme a população brasileira — e mundial — fica mais velha, os padrões de consumo passam por transformações relevantes, alterando a demanda por serviços e produtos, segundo levantamento da EQI Research. Com essa tendência, há ações de empresas que podem envelhecer mal, enquanto outros papéis tendem a melhorar com o tempo.
“Apesar do horizonte de longo prazo, essa dinâmica deve ser considerada no processo de seleção de investimentos, especialmente em ações”, afirmam os analistas João Neves e João Zanott em relatório divulgado na última quarta-feira (15).
Isso porque o valor das companhias é calculado de acordo com as expectativas para os resultados de longo prazo, que devem ser afetados por essa nova dinâmica.
Para capturar os ganhos e evitar prejuízos, a EQI avaliou os setores mais impactados — e os analistas têm as ações favoritas.
A idade na conta: os setores e empresas que devem sofrer com o envelhecimento
A pirâmide etária do Brasil está cada vez mais concentrada na população madura, com uma proporção maior em relação aos jovens. Em 2070, mais de 50% dos brasileiros deverão ter mais de 45 anos, frente a menos de 34% atualmente.
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A boa notícia é que as pessoas tendem a alcançar o pico de renda e gastos nessa faixa etária.
É geralmente nesta fase que os trabalhadores atingem a maturidade profissional e rendimentos mais altos, ao mesmo tempo em que as despesas com os filhos, agora mais velhos, diminuem.
Mas essa maior renda disponível em 2070 não será direcionada igualmente a todos os setores. O segmento educacional é um dos principais a sofrer, especialmente as empresas voltadas para o ensino superior.
E não tem colágeno que ajude: mesmo com a alta barreira de entrada, que costuma levar os brasileiros a buscarem a graduação já mais velhos, a redução da população mais jovem ainda deve pesar negativamente no longo prazo.
Por isso, na visão dos analistas, as empresas Cogna (COGN3), Yduqs (YDUQ3), Ânima (ANIM3) e Ser Educacional (SEER3) devem ser as mais negativamente afetadas por essa tendência.
Além do setor de educação, o segmento de moda deve sofrer com a redução do público endereçável. Isso porque pessoas mais velhas tendem a gastar menos com roupas.
“O vestuário é, em grande parte, uma despesa ligada ao trabalho. Domicílios idosos têm poucos membros trabalhando, o que reduz a necessidade de roupas profissionais”, afirmam os analistas.
No longo prazo, a EQI projeta uma mudança relevante de mix no setor. Para a casa, as empresas de moda funcional e adaptada ao público mais maduro tendem a superar aquelas voltadas ao fast fashion e ao consumidor jovem.
Esse cenário afetaria empresas como Lojas Renner (LREN3), C&A Brasil (CEAB3), Azzas 2154 (AZZA3), entre outras.
Ainda no varejo, outro segmento que pode ser penalizado é o de alimentação fora do lar. Pelo lado da demanda, pessoas mais velhas costumam destinar uma maior parcela do orçamento à alimentação em casa, reduzindo gastos com restaurantes e fast food.
O setor também será afetado pelo lado da oferta, já que possui grande concentração da mão de obra em trabalhadores jovens, fazendo com que o foodservice seja altamente suscetível à pressão salarial decorrente da escassez demográfica.
Mas não é só a alimentação que sentirá o peso da redução da força de trabalho disponível. Setores de construção civil, indústria de transformação e logística também devem ser pressionados pelo lado da oferta.
Melhor que vinho: os setores que saem ganhando
Por outro lado, com o envelhecimento da população, a demanda por serviços de saúde aumenta, trazendo um impacto positivo ao longo de toda a cadeia do setor.
Com o aumento da demanda e da frequência do uso, os proprietários de ativos hospitalares e de infraestrutura de saúde devem ser os segmentos que mais saem ganhando com a mudança da pirâmide etária brasileira, segundo a EQI.
Já para as empresas de planos de saúde, essa mudança é uma faca de dois gumes. Isso porque, por um lado, a propensão a contratar e manter esse tipo de serviço maior entre indivíduos mais velhos, o que tende a elevar tanto o número de beneficiários quanto o ticket médio.
Porém, esse aumento vem acompanhado de maiores custos para as empresas, uma vez que a frequência e a complexidade dos serviços necessários pressionam a sinistralidade.
Nesse cenário, na visão dos analistas, as empresas que mais devem se beneficiar do envelhecimento dos brasileiros são Rede D’Or (RDOR3), Fleury (FLRY3) e BradSaúde (SAUD3).
Outro setor favorecido é o financeiro, com destaque para bancos, corretoras e seguradoras.
De acordo com o levantamento, pessoas com idade mais avançada costumam já ter o patrimônio consolidado. Por isso, tendem a aumentar a parcela da renda voltada para a acumulação, proteção e planejamento patrimonial de longo prazo.
Dada a crescente preocupação com dependentes e com o patrimônio acumulado, a procura por seguros de vida e produtos de proteção de renda passam a ser maiores. Há aumento também na demanda por planejamento sucessório e gestão patrimonial.
- LEIA TAMBÉM: Brasil não é o mocinho, mas lidera entre as ações de bancos na América Latina; saiba o que ter na carteira agora
Hora de colocar Rede D’Or, Fleury e BradSaúde na carteira?
Os analistas Neves e Zanott avaliam que, considerando horizontes maiores, estar posicionado de acordo com essa tendência pode resultar em retornos interessantes aos investidores.
Porém, eles fazem um alerta: “É importante avaliar os preços pagos para se expor a essa mudança estrutural, uma vez que são movimentos de longo prazo e ainda envolvem nível relevante de incerteza”, afirmaram.
No caso da Rede D’Or, a EQI enxerga que a rede é uma das melhores companhias brasileiras em critérios qualitativos, com gestão alinhada aos interesses dos minoritários, visão de geração de valor de longo prazo e capacidade de execução de primeira linha.
Além disso, a empresa está posicionada nas regiões de maior poder aquisitivo do país e ainda possui oportunidades relevantes de crescimento, tanto por meio da expansão de seu portfólio atual de hospitais quanto por projetos greenfield, ou seja, desenvolvidos do zero.
Apesar de a Rede D’Or ser líder no setor, detém apenas 4% dos leitos do Brasil, sendo aproximadamente 10% dos leitos privados. Isso indica espaço para seguir aumentando market share.
“Entendemos que RDOR3 apresenta uma boa oportunidade hoje, uma vez que negocia em patamar atrativo, abaixo de sua média histórica, sem incorporar completamente sua capacidade de capturar crescimento”, avaliam.
A BradSaúde também é uma das principais convicções da EQI no setor. Segundo os especialistas, a companhia combina liderança no mercado de saúde suplementar com uma estratégia de verticalização que, na visão da casa, ainda não está plenamente refletida no valuation.
Com o envelhecimento da população, essa verticalização representará uma vantagem competitiva relevante, já que permite capturar parcela maior da cadeia de valor ao integrar operações de planos de saúde, hospitais e serviços médicos.
Além disso, possibilita que a empresa exerça maior controle sobre custos assistenciais e qualidade do atendimento.
O maior volume de exames também deve beneficiar o Fleury, que é visto pela EQI como uma das companhias mais resilientes do setor de saúde.
Segundo os analistas, a rede está mantendo ritmo consistente de crescimento orgânico mesmo em um cenário no qual as concorrentes vêm enfrentando pressão sobre rentabilidade.
Neves e Zanott consideram a companhia barata, negociando a um valuation atrativo.
Além disso, eles enxergam dividendos no horizonte. Isso porque a empresa apresenta baixa alavancagem, o que permite direcionar parcela relevante da geração de caixa ao pagamento de proventos aos acionistas.
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