Petrobras (PETR4) entrega mais um bom resultado, mas o mercado só pensa ‘naquilo’: o risco de intervenção no governo Lula; veja a reação dos analistas
Uma das principais dúvidas de analistas e investidores é sobre os rumos da política de dividendos da Petrobras (PETR4) sob a gestão de Lula

O balanço trimestral da Petrobras (PETR4), divulgado na noite de quinta-feira (3), veio sólido e em linha com o esperado. Mas não tem jeito: desde o resultado das eleições o mercado só pensa em como a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vai afetar a gestão da companhia.
Em outras palavras, a principal preocupação dos investidores a partir de agora é menos sobre o passado e mais sobre o futuro da empresa. O medo de parte do mercado é de que não apenas a era de dividendos extraordinários tenha ficado para trás, mas também a gerência tida como exemplar e os resultados financeiros fortes.
Os analistas do BTG Pactual, por exemplo, falam que a Petrobras foi "uma empresa enxuta, bem gerenciada e focada" nos últimos anos.
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Em relatório, a equipe do banco aponta que a tendência dos próximos meses é de que os investidores fiquem em compasso de espera, em busca de descobrir como será a gestão do novo governo.
"O resultado da eleição no Brasil provavelmente aumentou a percepção de risco na alocação de capital da empresa, e sua disposição de distribuir dividendos poderá em breve diminuir significativamente", diz o relatório.
Assim, o BTG acredita que há fundamentos positivos para os papéis da empresa, mas que também há muitas incertezas e gatilhos que justificam uma visão mais negativa. Enquanto não for possível avaliar a estratégia futura para a companhia, a equipe do banco prefere manter recomendação neutra para PETR4.
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O Goldman Sachs também passou a integrar o time dos receosos após o resultado das urnas e decidiu cortar a recomendação de PETR3 e PETR4 de compra para neutro.
Durante teleconferência com analistas realizada mais cedo nesta sexta-feira (4), os executivos da Petrobras reforçaram que cabe ao conselho de administração fazer qualquer alteração na atual política de distribuição de dividendos.
Eles apontaram, ainda, a necessidade de que haja propostas nesse sentido caso o próximo governo queira fazer alguma mudança, que requer também aprovação da diretoria executiva.
“Não há qualquer previsão de alteração de política de dividendos para a companhia”, disse Rodrigo Araújo, diretor financeiro e de relações com investidores da Petrobras.
Para entender a polêmica dos dividendos da Petrobras (PETR4)
Entre julho e setembro deste ano, a Petrobras registrou lucro líquido de de R$ 46,096 bilhões no terceiro trimestre, alta de 48% na comparação com igual período de 2021. Pouco antes da divulgação dos resultados, a estatal anunciou um novo pagamento bilionário de dividendos.
O conselho de administração da estatal aprovou a distribuição de um valor de aproximadamente R$ 44 bilhões — R$ 3,3489 por ação ordinária (PETR3) ou preferencial (PETR4).
É importante lembrar que a estatal distribuiu mais de R$ 87 bilhões em dividendos no trimestre passado. O valor recorde fez com que a companhia conquistasse o título de maior pagadora de proventos do mundo.
Mas o presidente Lula, que assumirá a chefia do Executivo no próximo ano, já avisou que quer que a petroleira reduza o pagamento de proventos para voltar a investir em atividades além do pré-sal, como o refino.
Lula também comentou a possibilidade de acabar com a política de paridade de preços que garante que a Petrobras compre gasolina no mercado internacional e revenda sem prejuízos no Brasil.
O fim dessa regra ajudaria a segurar o preço dos combustíveis no Brasil, mas teria um grande impacto no lucro da estatal e na conta dos dividendos.
'Mega proventos' na mira do TCU
Na tarde de hoje, o pagamento de R$ 44 bilhões em dividendos recém-aprovado virou alvo de judicialização do Tribunal de Contas da União (TCU).
O subprocurador-geral do Ministério Público do TCU, Lucas Furtado, protocolou um pedido para a suspensão da remuneração aos acionistas da Petrobras. Em linhas gerais, a medida quer avaliar a legalidade da distribuição antecipada dos "mega proventos" ao governo federal.
No mesmo horário, a Petrobras realizava uma coletiva de imprensa para comentar o balanço. Durante o evento, os executivos da estatal afirmaram que a companhia ainda não havia sido notificada sobre a decisão do TCU, mas colocaram-se à disposição do órgão regulador.
“A companhia só atuou dentro do que prevê política de remuneração dos acionistas. Estamos praticando essa política há vários trimestres. Fizemos o que sempre fizemos, é uma política que já previa pagamento”, disse Rodrigo Araújo Alves.
As ações da Petrobras reagiram mal à contestação dos dividendos e encerraram a sexta-feira em forte queda. Os papéis preferenciais (PETR4) da estatal registraram perda de 5,51%, a R$ 28,30; os ordinários (PETR3) recuaram 5,23%, cotados a R$ 31,71.

Em relatório, o Bradesco BBI apresenta um índice chamado de "Medo x Cobiça", para calcular se a companhia é negociada dentro de um parâmetro de medo com riscos de intervenção estatal ou o contrário.
Desta vez, o marcador está no nível laranja do "Medo", apenas um abaixo do vermelho — considerado mais grave. Entre os medos apontados pelos analistas, está o fato de que dificilmente a empresa será privatizada a partir de agora.
"As ações da Petrobras estão precificando uma perspectiva mais negativa do que positiva, e o mercado espera o fim da política de precificação de combustíveis em linha com a paridade internacional, além de um aumento gradual das despesas de capital não essenciais", escrevem os analistas.
Petrobras: nem tudo é nebuloso
Ainda que o mercado esteja receoso com o futuro da Petrobras (PETR4), isso não significa que todo mundo deve correr para vender o papel. A XP, por exemplo, mantém a recomendação de compra para o ativo.
Os analistas elogiaram a forte posição financeira da empresa, destacando o Ebitda forte, geração de caixa livre (50% anualizado sobre valor de mercado) e pagamento de dividendos (45% anualizado sobre PETR4) com uma posição financeira sólida (0,7x DL/ EBITDA).
"Acreditamos que os investidores negociarão a ação no curto prazo de acordo com o fluxo de notícias relacionadas a indicações de como o próximo governo se comportará em suas políticas econômicas. No entanto, vemos muitos dos piores resultados já incorporados nos preços das ações", escreveram.
O analista Ruy Hungria, da Empiricus, tem uma visão semelhante e comenta que a Lei das Estatais, a política de paridade internacional e o foco no pré-sal provocaram uma melhora considerável nos resultados da companhia.
“Sabemos dos riscos, mas ao mesmo tempo a Petrobras negocia hoje por menos de 2 vezes EV/Ebitda e tem um dividend yield de mais de 30%, o que já embute uma perspectiva de piora relevante de resultados pela frente, que pode nem acontecer”, diz.
Diante disso, PETR4 segue nas séries Carteira Empiricus e Vacas Leiteiras, de ações boas pagadoras de dividendos.
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