Menu
Dados da Bolsa por TradingView
2018-11-04T12:59:56-02:00
Estadão Conteúdo
ENTREVISTA

‘Temo que essa aventura arruíne o liberalismo’, diz Eduardo Giannetti

Um dos responsáveis pelo programa econômico de Marina Silva, Giannetti pondera que talvez o programa de Paulo Guedes não chegue a ser implantado

4 de novembro de 2018
12:50 - atualizado às 12:59
O presidente eleito Jair Bolsonaro
O presidente eleito Jair Bolsonaro - Imagem: Tomaz Silva/Agência Brasil

Diante do projeto "neoliberal radical" do futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, o economista Eduardo Giannetti se diz preocupado com o próprio liberalismo no País.

"Temo que essa aventura neoliberal radical, se não tiver o mínimo de sensibilidade social, possa arruinar a reputação do liberalismo no Brasil", afirmou ao Estado.

Um dos responsáveis pelo programa econômico da candidata derrotada Marina Silva (Rede), Giannetti pondera que talvez o programa de Guedes não chegue a ser implantado, dado o histórico nacionalista e corporativista do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL). A seguir, os principais trechos da entrevista.

Como o sr. vê o programa de Bolsonaro?
É genérico. Há pontos positivos, como a abertura econômica. Eles têm ciência da gravidade da situação fiscal, mas subestimam a dificuldade de implementação. Quando vejo essa equipe dizendo que vai zerar o déficit primário em um ano, fico muito incrédulo. Isso é improvável, tangenciando o pensamento mágico. A ideia de usar receitas excepcionais, como de privatizações, para cobrir rombos é vender a prata da família para jantar fora. O problema essencial do Brasil é que os gastos obrigatórios estão crescendo em um ritmo acima do PIB, é insustentável. Temos seis meses para apresentar um programa fiscal crível. Caso contrário, vamos entrar em uma situação de inadimplência do Estado e colapso financeiro. Aí, há duas alternativas, ambas péssimas: calote ou inflação. Essa ancoragem fiscal depende de medidas que vão ter de ser tomadas no início do mandato. A reforma da Previdência é a primeira.

Em relação à agenda liberal do novo governo, o sr. acredita que ela será realmente implementada? Bolsonaro já desautorizou Paulo Guedes...
Tenho dúvidas, porque ela é totalmente inconsistente com a trajetória do Bolsonaro durante sete mandatos na Câmara. Ele sempre votou ao lado dos corporativistas, dos nacionalistas e dos estatizantes. É muito estranha essa conversão (de Bolsonaro) às vésperas da eleição ao ideário neoliberal radical. Em relação ao Paulo Guedes, eu me lembrei de uma frase: 'Os economistas podem ser mais ingênuos sobre a política do que os político sobre a economia'. As intenções dele são boas, mas temo que não saiba onde está se metendo.

Há uma onda internacional crescente do populismo de direita. O que explica isso?
Sem dúvida, Bolsonaro é parte de um processo que tem tomado conta de muitas democracias. Domesticamente, um elemento importante foi que, tanto PT quanto PSDB, cujos programas são, a grosso modo, social-democratas, nunca cooperaram um com o outro. Cada um, no poder, preferiu se aliar ao que há de mais sinistro na política brasileira (o Centrão) a conversar para enfrentar a desigualdade e obter crescimento sustentável. Isso abriu espaço para aventureiros. Também beneficiou o Bolsonaro a força do sentimento antipetista, a raiva da população diante do establishment político e o medo que a insegurança gera. Bolsonaro tem parentesco com o que aconteceu nos EUA, com Donald Trump. É um tipo de populismo de direita que funciona muito bem nas mídias sociais. Ele tem um parentesco no seu lado autoritário e meio autocrático com democracias de fachada, como Rússia e Turquia.

Há riscos para a democracia?
Uma definição estreita de democracia é a renovação periódica dos governantes pelo voto universal e secreto. Isso não está em risco. Uma definição mais abrangente de democracia inclui o império da lei, o respeito à divisão de poderes, a liberdade de imprensa e de expressão, o respeito aos direitos das minorias e o respeito às oposições. Esses elementos suscitam dúvidas quanto a essa aventura na qual o Brasil está entrando.

Nenhum desses componentes havia sido ameaçado antes?
Algumas propostas do PT ameaçavam também. Por exemplo, a liberdade de imprensa e de expressão e mesmo a autonomia dos poderes. Agora, a ameaça é maior com Bolsonaro. O Brasil vai viver duas coisas. Primeiro, um teste das instituições democráticas. O segundo ponto é uma aventura da sociedade em uma agenda ultraconservadora nos costumes, que ameaça direito de minorias, e que, se materializada, vai ser um retrocesso. Há uma outra aventura nessa agenda neoliberal radical que a equipe econômica está propondo. Uma agenda com pouca sensibilidade para questões ligadas à equidade, a grupos sociais vulneráveis e que me fez lembrar uma história da Revolução Russa. (À época), Max Weber era professor de Georg Luckács, filósofo marxista do século 20. Weber disse a ele: 'Temo que os russos arruínem a reputação do marxismo por um século.' Eu temo que essa aventura neoliberal radical, se não tiver o mínimo de sensibilidade social e de compromisso com a ideia de justiça, arruíne a reputação do liberalismo no Brasil por muito tempo.

Com base nessa análise, Bolsonaro pode ser considerado de ultradireita?
Não tenho a menor dúvida.

O sr. tem estudado sociedades fortemente polarizadas, inclusive a República de Weimar, que deu origem ao regime nazista. Há paralelos com o Brasil de hoje?
Eu me interessei em entender como uma sociedade se divide e chega ao tipo de polarização raivosa que o Brasil chegou. Há muitos precedentes na história. A França teve a Revolução Francesa; a Espanha, a Guerra Civil; a Alemanha, a República de Weimar. Há muitos paralelos, mas não estou dizendo que isso deve ser ipsis litteris aplicado ao Brasil. Quando essa polarização estabelece, não permite nada que não esteja em um dos polos. Isso destrói o processo democrático eleitoral e a possibilidade de diálogo. Na Alemanha, você era bolchevique ou nazista. E a elite financeira e industrial alemã, com medo do bolchevismo, topava qualquer aventura. Encontrei declarações de banqueiros e industriais alemães dizendo que Hitler não era problema porque, depois de eleito, eles o domesticariam.

O que aconteceu com a Marina, que começou a corrida eleitoral bem, mas terminou na lanterna?
Fixou-se na imaginação do eleitorado brasileiro a ideia de que ela é frágil. E essa polarização raivosa exclui o surgimento de uma força que prega o diálogo e a convergência. Ela foi vítima dessa dinâmica. Foi por isso que fui estudar essa popularização raivosa que tomou conta da sociedade.

*Com Estadão Conteúdo

 

Comentários
Leia também
ENCRUZILHADA FINANCEIRA

Confissões de um investidor angustiado

Não vou mais me contentar com os ganhos ridículos que estou conseguindo hoje nas minhas aplicações. Bem que eu queria ter alguém extremamente qualificado – e sem conflito de interesses – para me ajudar a investir. Só que eu não tenho o patrimônio do Jorge Paulo Lemann. E agora?

PROVENTO EM DÓLAR

Aura Minerals (AURA33) anuncia dividendos e programa de recompra de BDRs — veja o que muda para os acionistas

O pagamento chegará bem a tempo para o Natal dos investidores nacionais, mas para ter direito é preciso possuir os ativos em 9 de dezembro

SEU DINHEIRO NA SUA NOITE

Ibovespa perto de perder os 100 mil pontos, Petrobras na mira de Paulo Guedes e outros destaques do dia

A dinâmica dos mercados globais nos últimos dias lembra muito os primeiros momentos de incerteza que marcaram o início da pandemia do coronavírus, no início de 2020. A covid-19 não é mais uma doença desconhecida e as vacinas já estão disponíveis no mercado, mas a desigualdade na distribuição de imunizantes e a recusa de muitos […]

FECHAMENTO DO DIA

Racha no Senado e chegada de ômicron aos Estados Unidos levam o Ibovespa a renovar as mínimas do ano (mais uma vez); dólar sobe

Embora o dia tenha começado positivo para o Ibovespa e as demais bolsas globais, a variante ômicron e a dificuldade de aprovar a PEC dos precatórios azedaram os negócios

CRYPTO NEWS

Aprenda com o bitcoin: não perca o timing com a próxima promessa cripto

O mercado de criptomoedas tem colocado alguns sorrisos nos rostos de quem vem investindo nessa classe de ativos

RECEITAS EM ALTA

Acredite se quiser! Governo pode ter primeiro superávit primário desde 2013 ainda neste ano

A notícia surpreende num momento em que um dos maiores temores do mercado financeiro é justamente o descontrole das contas públicas

Carregar mais notícias
Carregar mais notícias
Fechar
Menu

Usamos cookies para guardar estatísticas de visitas, personalizar anúncios e melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar, você concorda com nossas políticas de cookies